Nações Unidas, 05/05/2006 – Se o mundo não despertar diante do clamor dos assírios cristãos, este antigo povo perseguido pelas sucessivas autoridades do Iraque se extinguirá, advertiram organizações de direitos humanos. A comunidade assíria do Iraque, cuja origem remonta ao berço da civilização ocidental na Mesopotâmia, é alvo cada vez mais freqüente de ataques, mesmo após a invasão liderada pelos Estados Unidos que pôs fim ao regime de Saddam Hussein (1979-2003). "Hoje a situação é a pior que já vivemos no Iraque", disse Andy Darmoo, diretor da campanha "Salvem os assírios", em conversa com representantes da imprensa na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York.
Esta campanha foi lançada em janeiro de 2005 pelo arcebispo de Canterbury, Lord Carey, um dos religiosos anglicanos mais respeitados do mundo. O parlamentar europeu pelo Partido Trabalhista britânico Glyn Ford disse que os assírios do Iraque costumam sofrer tortura, seqüestro, extorsão, hostilidade, ataques com explosivos contra igrejas, conversão religiosa forçada, restrição de direitos políticos e destruição de propriedades. E essas são apenas algumas das violações deliberadas contra os direitos humanos que semeiam o caos na vida dos centenas de milhares de assírios no Iraque.
As atrocidades são cada vez mais freqüentes no norte do país, onde se concentram os assírios, especialmente nas cidades de Kirkuk e Mosul, mas também em Bagdá, disse Darmoo. "Os perigos que enfrentamos agora são ainda maiores do que há uns poucos anos", acrescentou. No século XIII, as forças de Mongólia lideradas pelo príncipe Hulagu, neto do conquistador Genghis Kahn, arrasaram com a antiga mesopotâmia (hoje Iraque) em uma ação que custou 800 mil vidas, lembrou o ativista. Segundo várias fontes, entre 8% e 12% dos 26 milhões de iraquianos pertencem à fé cristã. A maioria professa os credos assírio, caldeu, armênio e católico, nessa ordem.
Os assírios iraquianos falam siríaco clássico, idioma derivado do aramaico que predominava na Palestina em tempos bíblicos. A maioria pertence à Igreja Uniate Caldéia, Igreja Ortodoxa Síria, Igreja Católica Síria e Igreja Assíria do Leste. Estimava-se que os assírios no Iraque eram cerca de um milhão, isso antes do último ciclo de exílio. Milhares de assírios buscaram refúgio fora do país. Aproximadamente metade da comunidade assíria iraquiana reside no norte do país, principalmente na planície de Nínive e seus arredores. Depois da guerra do Golfo de 1991, formou-se no norte um governo regional curdo protegido pela força aérea da Grã-Bretanha dos ataques do regime de Saddam Hussein.
Na época, recrudesceu o confisco ilegal de terras de assírios em território curdo. O problema não acabou, disse à IPS Shamiran Mako, especialista do Conselho para a Investigação e o Desenvolvimento Assírios, com sede no Canadá. Mako afirmou que, desde a "libertação" do Iraque, a opressão ficou mais evidente. "Funcionários pertencentes ao Partido Democrático Curdo tomaram medidas sistemáticas para marginalizar e eliminar os assírios através de políticas ditatoriais do governo regional curdo", afirmou. Ali, segundo Mako, o ritmo do êxodo assírio duplicou. No norte isto foi conseqüência direta das medidas discriminatórias do governo regional curdo, sob o auspício do Partido Democrático Curdo e do segundo partido da região, a União Patriótica do Curdistão.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou no ano passado que 36% dos 700 mil assírios que se refugiaram na Síria entre outubro de 2003 e março de 2005 eram cristãos. Apesar do grande número de refugiados assírios iraquianos que vivem em condições terríveis, Darmoo lembra que ainda não receberam ajuda de nenhuma organização. "Mas desta vez não nos deteremos até que nossos direitos humanos sejam reconhecidos", disse à IPS. A campanha "Salvem os Assírios" chegou a ser objeto de análise por parte de parlamentares da Grã-Bretanha e União Européia.
O Parlamento Europeu exortou, em abril, a Comissão Européia, o Conselho da União Européia e a comunidade internacional a agirem para acabar com a terrível situação dos assírios no Iraque. A vigência da constituição federalista do Iraque não significou uma melhora da situação dos assírios e membros de outras minorias, apesar de ter sido um dos argumentos para promover sua aprovação em plebiscito, afirmou Darmoo. "A Constituição não significa nada, a menos que nossos direitos sejam garantidos pela Organização das Nações Unidas e pelas superpotências", afirmou o ativista. "O governo iraquiano não reconhecerá nossos direitos, por isso deve haver pressão internacional", acrescentou.
Mas Mako, que no ano passado representou os assírios na décima-primeira sessão do Grupo de Trabalho da ONU sobre Minorias, disse que as Nações Unidas "nada fizeram de tangível". Os "representantes da ONU no país não estão atentos à difícil situação dos assírios depois da queda de Saddam. Concentram-se na opressão contra os xiitas, os árabes sunitas e os curdos", acrescentou. Entretanto, as Nações Unidas poderiam ter um papel-chave oferecendo aos refugiados assírios que residem em países vizinhos o direito de regressar, "como foi feito com os curdos que chegaram desde o Irã e a Turquia", disse Mako.
Desde 2005, o Conselho para a Investigação e o Desenvolvimento Assírio procura registrar os abusos sofridos por assírios que vivem no coração do Iraque setentrional, no sudoeste da Turquia, no Iraque ocidental e na Síria oriental, e aqueles que estão na diáspora, por meio de seu Projeto de Documentação de Direitos Humanos Assírios. "Com a atual limpeza étnica, a assimilação forçada e as migrações, os cristãos assírios autóctones serão erradicados completamente do novo "Iraque democrático" em menos de 10 anos", advertiu o primeiro documento do Projeto. "A curdificação, arabização e islamização do Iraque deixaram um antigo povo à beira da extinção", acrescentou.
O documento defende o estabelecimento de um território especial para a população assíria do Iraque, e pede ao mundo que ajude a garantir o regresso de todos os refugiados dessa comunidade à sua pátria ancestral, no Iraque setentrional. "A nós e a todas as outras etnias e religiões minoritárias do Iraque não correspondem os mesmos direitos humanos básicos que cabem aos grupos étnico-religiosos maiores", disse à IPS Edison A. Ishaya, presidente da Sociedade Acadêmica Assíria, organização com sede nos Estados Unidos e membros em todo o mundo. "Suplicamos ao mundo, especialmente aos irmãos e irmãs de todos os setores da sociedade iraquiana, que nos concedam proteção e reconheçam nossos direitos humanos básicos. Oramos para viver em paz e continuarmos sendo parte produtiva e contribuinte da sociedade iraquiana, com sempre fomos", afirmou Ishaya. (IPS/Envolverde)

