Washington, 11/05/2006 – A preocupação da comunidade judia dos Estados Unidos com a crise do Irã aumentou depois que o presidente George W. Bush garantiu que o principal motivo de um eventual ataque militar contra esse país seria a proteção de Israel. As instituições judias norte-americanas estão convencidas de que um Irã com capacidade bélica nuclear seria uma "ameaça existencial" contra Israel, mas temem que um ataque norte-americano, especialmente se não tiver êxito, provoque uma onda de anti-semitismo. Por outro lado, tal operação colocaria em risco a longo prazo o apoio dos Estados Unidos ao Estado judeu. E – advertem – mencionar Israel em um argumento contra o Irã dificultará a participação de outros países na campanha de Washington contra Teerã.
Na última convenção do Comitê Judeu dos Estados Unidos (AJC), uma integrante de sua direção, Edith Everett, foi ovacionada de pé ao pedir ao governo que deixe de vincular as possíveis ações dos Estados Unidos contra o Irã à segurança de Israel. "Não é uma ajuda nem para Israel nem para os judeus norte-americanos aparecerem como os estimuladores de uma ação contra o Irã", afirmou Everett, que solicitou ao presidente do Comitê Nacional do Partido Republicano (governo), Ken Mehlman, presente à convenção, que "enviasse a mensagem" a Bush. A "mensagem" da dirigente reflete o crescente consenso de sua comunidade de que os judeus, em Israel e fora desse país, têm muito a perder se forem vistos como a vanguarda de uma guerra contra Teerã, especialmente á luz da débâcle no Iraque.
"Devido às desastrosas conseqüências desta guerra, sua crescente impopularidade mesmo entre os republicanos, e a inviabilidade de uma saída decente, a ira aumenta", advertiu em um editorial o periódico The Forward, o de maior circulação da comunidade judia. Os judeus de Israel e dos Estados Unidos são cada vez mais acusados de persuadirem o governo Bush a invadir o Iraque, e tal percepção é equivocada, segundo a publicação. De fato, os judeus norte-americanos estiveram menos inclinados a lançar a operação no Iraque do que a população em geral, segundo as pesquisas. Também concluíram antes de qualquer outro grupo social dos Estados Unidos que a invasão acabou sendo um grande erro.
Ao mesmo tempo, altos funcionários do governo próximos ao direitista partido israelense Likud, alentaram o governo, bem como a ala conservadora do oficialismo, com grande preocupação pelo destino de Israel e com pontos de vistas semelhantes aos do sionismo direitista. A maioria dos neoconservadores é de judeus, mas a maioria dos judeus norte-americanos não são neoconservadores, apesar de nessa comunidade predominar a simpatia em relação ao Estado de Israel.
"Dentro dos Estados Unidos, o principal motor da guerra contra o Iraque foi um pequeno grupo de conservadores, muitos deles com estreitas ligações com o Likud", concluíram dois especialistas em política internacional, John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, da Universidade de Harvard. O recente estudo de ambos, intitulado "O lobby israelense e a política externa norte-americana", contribuíram para aumentar a sensação de vulnerabilidade da comunidade judia, devido às credenciais acadêmicas e políticas dos dois especialistas. O "lobby", segundo os dois autores do informe, está encabeçado pelo Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel e foi um fator "crítico", embora não exclusivo, da decisão de lançar a guerra.
O fato de muitos neoconservadores terem incentivado a guerra no Iraque serem os mesmos que agora se voltam contra o Irã agrava a preocupação da comunidade judia. Nesse contexto, as reiteradas declarações de Bush vinculando sua posição contrária ao Irã à segurança de Israel se soma ao incômodo. "É algo horrível, é perigoso", disse o representante do opositor Partido Democrata Gary Ackerman, que é judeu, à imprensa da comunidade. "Se algo for mal, é fato que acusarão os judeus pelo fracasso, e também haverá os que dirão que fomos à guerra por Israel e não pelos Estados Unidos", acrescentou.
Os argumentos de Bush minam suas gestões para costurar uma coalizão internacional para pressionar o Irã ou para eventuais ações militares, afirmou a diretora de projetos do neoconservador de linha dura Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional, Shoshana Bryen. Mas Bush reiterou sua opinião ao ser entrevistado pelo semanário alemão Bild am Sonntag. Quando o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, "diz que quer destruir Israel, o mundo deve levá-lo a sério. É uma ameaça séria contra um aliado dos Estados Unidos e da Alemanha", afirmou Bush. Mas The Forward considerou que atacar o Irã originaria uma "calamidade" no Oriente Médio e uma possível onda anti-semita em todo o mundo. (IPS/Envolverde)

