Imprensa: Annan que calar mensagens terroristas

Nações Unidas, 05/05/2006 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, se mostrou inclinado a restringir a difusão na imprensa de declarações de terroristas, em um informe que apresentará na próxima semana à Assembléia Geral. A ONU pretende convocar uma conferência internacional que dite normas éticas para jornalistas que cobrem questões relacionadas com o terrorismo, segundo o documento. No que foi interpretado como um chamado a proibir a entrevista com terroristas, Annan afirmou que a sociedade civil e os meios de comunicação deveriam se contrapor às "mensagens hipernacionalistas e xenófobas que glorificam o assassinato em massa e a ideologia do martírio".

Em um informe de 32 páginas sobre terrorismo divulgado esta semana, Annan destacou a experiência de países que adotaram códigos voluntários de conduta para jornalistas que cobrem o terrorismo, incluindo a proibição de entrevistar aqueles que o promovem. A imprensa deveria considerar essas experiências, afirmou o secretário-geral. A IPS teve acesso a este relatório na quarta-feira, quando era comemorado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. O estudo encomendado a Annan em setembro pela Cúpula Mundial, da qual participaram 150 chefes de Estado e de governo na sede das Nações Unidas, em Nova York, será apresentado à Assembléia Geral no próximo dia 11. A ONU, segundo Annan, está disposta a trabalhar com associações de jornalistas e organizações defensoras da liberdade de imprensa, inclusive através da convocação de uma conferência internacional.

No mês passado, meios de comunicação de todo o mundo divulgaram gravações de áudio e vídeo com declarações de dirigentes da rede terrorista Al Qaeda, como o líder da organização, Osama bin Laden; Abu Musab Al-Zarqawi e Ayman Al-Zawahiri. Os Estados Unidos ofereceram US$ 50 milhões pela captura dos três, vivos ou mortos. Isso não impediu que palavras de bin Laden, Al-Zarqawi e Al-Zawahiri fossem intensamente divulgadas pela mídia impressa e eletrônica, especialmente no mundo árabe. O governo norte-americano identificou bin Laden como o principal autor intelectual dos ataques que mataram três mil pessoas em Nova York e Washington no dia 11 de setembro de 2001. Al-Zawahiri é considerado o segundo e Al-Zarqawi o líder da insurgência no Iraque.

"Na Grã-Bretanha, o governo proibiu a divulgação de entrevistas com membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) e acabou negociando com eles", lembrou o jornalista Ian Williams, correspondente na ONU da revista norte-americana The Nation, colunista da MaximsNews e do blog DeadlinePundit. "Quando presidi a Associação de Correspondentes da ONU, convidamos dirigentes do Sinn Fein (braço político do IRA) como protesto contra tais formas de censura", disse Williams à IPS. Governos tão variados como os da China, Estados Unidos e Uzbequistão costumam qualificar seus opositores de terroristas.

"As autoridades de Israel, cujos antecessores praticaram bombardeio e massacres de árabes sob o mandato da ONU e o assassinato de funcionários britânicos durante a guerra contra o nazismo, dizem agora que ninguém deveria falar com o governo eleito 'terrorista? da Autoridade Nacional Palestina", ironizou Williams. Ao mesmo tempo, acrescentou, Israel bombardeava áreas civis em Gaza. "A liberdade de informação é muito importante para colocá-la em risco por definições histéricas de funcionários de qualquer governo. O dever de um jornalista é fazer perguntas difíceis e ir fundo em qualquer ator político, seja 'combatente pela liberdade?, ' terrorista?, representante eleito ou autoproclamado tirano", disse Williams.

Quanto à possibilidade de realizar uma conferência internacional sobre o assunto, Williams a considera inútil, embora advertindo que não se deve confiar a nenhum governo o controle da informação ou decretar quem ou a quem os meios de comunicação devem mostrar. Em seu informe, Annan diz que "a mídia é explorada todos os dias por terroristas. Precisamos assumir o desafio de emparelhar essa narrativa de ódio com a narrativa das vítimas, das comunidades divididas por atos terroristas, a narrativa da coragem dos que arriscam suas vidas para cumprir seu trabalho diário, dos valores defendidos pelas Nações Unidas", acrescentou.

Outro ex-presidente da Associação de Correspondentes na ONU, Tony Jenkins, correspondente nos Estados Unidos do jornal Expresso, de Lisboa, disse à IPS: "Não tenho problemas com as linhas éticas em si mesmas. Mas o velho e espinhoso problema persiste: quem define quem é terrorista? A ética de quem?". O episódio das caricaturas do profeta Maomé na imprensa dinamarquesa "nos ensina uma lição", afirmou. Talvez essas ilustrações fossem de mau gosto ou insensíveis, mas sua publicação não violava regras éticas, segundo os critérios predominantes na Dinamarca, segundo Jenkins. Mas constituía uma clara falta de ética para a maioria dos 1,3 bilhões de muçulmanos do mundo, recordou. "O que é pior, creio que a ênfase está deslocada. Não se pode censurar a campanha contra os que utilizam métodos terroristas. Mais do que calar bin Laden, vamos expô-lo mais. Vamos derrotar suas idéias", disse o jornalista.

Talvez Annan devesse aproveitar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa para defender o fim do assassinato e da prisão que sofrem profissionais da comunicação por tentarem exercer livremente sua missão, afirmou Jenkins. Além disso, recordou, um dos piores repressores da liberdade de imprensa é a China, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. "Na Rússia, que também integra o Conselho, vemos veículos de comunicação atacados e controlados pelo governo", acrescentou.

Em seu informe seu informe, Annan afirma que uma nova camada de terroristas depende da comunicação para consolidar suas bases de apoio e recrutar novos membros. "Devemos negar-lhes este acesso, particularmente contra-atacando o uso que faz da Internet, veículo de rápido crescimento para o recrutamento de terroristas e propagação de sua propaganda e informação", afirmou. Em 1998, segundo o documento, havia menos de 20 sites na Internet. Em 2005, eram milhares. "De fato, parece que alguns grandes ataques recentes obtiveram seu apoio a partir de conteúdos na Internet", disse o secretário-geral. "Os terroristas se aproveitam das diferenças nas respostas nacionais. Se tiverem bloqueadas as operações em um Estado, podem simplesmente mudar para outro. Deste modo, a Internet pode se converter em um refúgio seguro virtual que desafia as fronteiras nacionais", alertou Annan. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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