Irã-EUA: Cresce a pressão sobre Bush

Washington, 29/05/2006 – O governo de George W. Bush está submetido a uma crescente pressão – dentro e fora dos Estados Unidos – para que mantenha um diálogo direto com o Irã, apesar da oposição de neoconservadores pró-isralenses e do vice-presidente, Dick Cheney. Nas últimas semanas, cada vez mais legisladores do governante Partido Republicano, bem como do Partido Democrata (oposição), pedem urgência ao presidente no sentido de procurar negociações frente-à-frente com o Irã sobre vários assuntos, entre eles seu programa de desenvolvimento nuclear e a segurança do Iraque.

Ao mesmo tempo, os aliados europeus de Washington, que atuaram como virtuais representantes do governo Bush nas tratativas com Teerã nos últimos três anos, perdem rapidamente a paciência com a intransigência que percebem no lado norte-americano. "Os europeus estão dizendo a Washington que já é hora de negociar", disse Charles Kupchan, diretor de estudos europeus do Conselho de Relações Exteriores (CFR), centro acadêmico de alto nível com sede na capital norte-americana. "Se os Estados Unidos não se comprometerem em algum tipo de negociação, as possibilidades de uma grande bronca transatlântica são bem altas", acrescentou.

Alguns sinais da pressão sofrida pela Casa Branca foram notados na semana que passou, quando o novo porta-voz de Bush, Tony Snow, disse que o governo poderia se dispor a manter negociações diretas com o Irã se seu regime islâmico suspendesse o enriquecimento de urânio. "Quando isto ocorrer, poderá ser a oportunidade", afirmou. Snow também sugeriu que esse diálogo aconteceria em um contexto multilateral, presumivelmente com o grupo de três países que representam a União Européia (Alemanha, França e Grã-Bretanha) e, possivelmente, China e Rússia", acrescentou.

Diplomatas das cinco potências se encontraram com outros dos Estados Unidos em Londres nos últimos dias para elaborar um novo pacote de propostas a fim de persuadir Teerã de deter o enriquecimento de urânio, através de um acordo que impeça esse país de construir uma arma nuclear. O pacote poderia incluir o fornecimento de reatores de água leve, incentivos comerciais e econômicos e discussões de um "contexto" para atender as preocupações de Teerã em matéria de segurança.

Mas os representantes norte-americanos se opuseram ao último item dessa agenda, ao que parece, pelo contínuo bloqueio dentro do governo entre o círculo de Cheney, que defende uma "mudança de regime" no Irã, e outros funcionários, especialmente do Departamento de Estado, que consideram tal objetivo pouco realista e potencialmente contraproducente. "As garantias de segurança não estão na mesa", disse na quinta-feira um anônimo "alto funcionário do Departamento de Estado" ao jornal The New York Times, que também informou que a Europa indicou aos Estados Unidos que o Irã não faria concessões em matéria nuclear diante da falta dessas garantias.

O governo Bush, que em 2002 incluiu o Irã no "eixo do mal", pressiona o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para que aprove sanções contra Teerã por supostas violações do Tratado de Não-proliferação Nuclear. Os membros europeus do Conselho, em geral, apóiam a iniciativa, mas Rússia e China são contra, preocupadas pelo impacto de eventuais sanções em seus interesses estratégicos e comerciais no Irã e diante da possibilidade de Washington usar o descumprimento das condições como argumento para um ataque militar. Os europeus têm inclusive reticências sobre o tipo de sanções propostas pelos Estados Unidos, como um embargo às importações de gasolina, petróleo e gás iraniano, segundo Kupchan.

O especialista afirmou que o melhor meio de manter a unidade transatlântica seria através da imposição de "sanções leves", como um embargo de armas e anulação de vistos para dirigentes iranianos. "No fim, o que os Estados Unidos querem é uma mudança de regime, e a União Européia não", disse Kupchan. Uma eventual operação militar norte-americana não teria apoio europeu, acrescentou: "Ainda estou por encontrar algum político da Europa que prefira a guerra a um Irã nuclear". Porém não são apenas os aliados europeus de Washington, Rússia e China, que pedem urgência a Bush para mudar de caminho, comprometendo-se diretamente em um diálogo com Teerã. Outros aliados-chave do Oriente Médio, com Arábia Saudita e Turquia, fizeram exortações semelhantes.

Bush está desolado por causa da queda de sua popularidade, segundo as pesquisas, e também sofre pressão de seus correligionários do Partido Republicano. Nos últimos dois meses, dois ex-altos funcionários do Departamento de Estado durante a presidência de Bush, Richard Haass e Richard Armitage, propuseram manter um diálogo com o Irã sobre uma ampla gamas de assuntos, como seu programa nuclear, seu suposto apoio ao terrorismo e suas políticas regionais. Essa posição coincide com a do presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Dick Lugar, o também senador republicano Chuck Hagel, possível candidato presidencial em 2008, e com a de destacados democratas como o ex-conselheiro de Segurança Nacional Sandy Berger e a ex-secretária de Estado Madeleine Albright.

Outros destacados legisladores democratas pró-israelenses, como o senador Joseph Biden e Dianne Feinstein, também defendem o diálogo com o Irã. Mas o apoio mais surpreendente às negociações diretas com o regime islâmico é o do ex-secretário de Estado Henry Kissinger, que em uma coluna no jornal The Washington Post considerou que o conflito é muito importante para "ser negociado através de terceiros, por mais próximos que sejam". Estas exortações foram incentivadas por sinais emitidos pelo próprio Irã, como a extensa carta pública enviada pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad a Bush. Segundo Kissinger, a carta tinha o objetivo de "ir acostumando o setor mais radical do regime iraniano ao diálogo com os Estados Unidos". (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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