Iraque: Basra em chamas

Bagdá, 29/05/2006 – Mais de cem civis morreram este mês na cidade iraquiana de Basra, palco de constantes atos de violência, enfrentamentos sectários e choques com as forças de ocupação britânicas. O contrabando de petróleo em grande escala e a carência de serviços básicos, como água e eletricidade, agravam ainda mais a situação na cidade, que fica 570 quilômetros ao sul de Bagdá. Os moradores responsabilizam o governador, Mohammed al-Waili, e a Grã-Bretanha. Antes desta onda de mortes, Basra gozava de certa reputação como uma das cidades mais pacíficas do Iraque, e os oito mil soldados britânicos que a ocupam eram respeitados por darem à população um tratamento um pouco mais humano do que os norte-americanos.

Mas quando milhares de moradores foram às ruas, no começo deste mês, protestar contra o alto desemprego e a corrupção no gabinete do governador, os britânicos não duvidaram em atacar os manifestantes com helicópteros, provocando represálias da resistência. Os rebeldes "derrubaram um helicóptero", disse à IPS o presidente do sindicato de trabalhadores petroleiros em Basra, As?aad Kareem. "Foi uma verdadeira resistência. O aparelho foi derrubado porque os britânicos estavam apoiando o governador e disparando contra os manifestantes. E o governador não os deteve. Por isso, também é responsabilidade dele", afirmou.

"Visitei Basra no ano passado e vi as montanhas de lixo", disse, por sua vez, Amjad Ali Al Jawahary, do sindicato de comerciantes iraquianos. "O sistema de esgoto está destruído, e os de distribuição de água não são adequados. Nem mesmo existe água potável, e a eletricidade não corresponde às expectativas. Naquela oportunidade havia eletricidade apenas por três horas durante o dia, e agora caiu para apenas 30 minutos, ou uma hora", acrescentou. Por sua vez, Kareem afirmou que a água e a energia elétrica não eram as únicas razões de tensão na cidade. "O governo em Bagdá deu muito apoio e dinheiro a Basra, mas o governador cometeu malversação de fundos, o que derivou em violência e muitas greves, incluindo de militares e policiais", afirmou.

Neste mês, sete soldados britânicos e cem civis iraquianos morreram em distúrbios. Fadil el Sharaa, porta-voz do clérigo xiita Moqtada Sadr, afirmou que as forças britânicas e o governador (do partido xiita Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque) desejam culpar pelas mortes os conflitos sectários. Entretanto "o que ocorreu em Basra foi que o representante do aiatolá xiita Al Sistani falou de corrupção cometida pelo governador e sua administração, o que fez o governador responsabilizar os religiosos pela violência na cidade e pela divisão da população", disse El Sharaa. "Devem ser mais responsáveis em suas declarações. Agora, o problema foi solucionado pelo escritório de Sadr. Enviamos nosso representante até Basra e tivemos uma reunião com os dois grupos para tentar resolver as diferenças de forma pacífica", acrescentou.

Porém, os choques com o escritório do governador não são a única causa da violência. O grupo sunita Associação de Eruditos Muçulmanos se queixou esta semana de que cerca de 1,2 mil famílias árabes desse ramo do Islã foram obrigadas a deixar a cidade. "Estão seqüestrando e matando pessoas todos os dias", disse Jawahary em relação à população sunita. "Há pouco tempo, 18 pessoas seqüestradas foram encontradas mortas. O líder de uma das tribos foi assassinado. O conselho de governo, dominado por xiitas, quer eliminar os sunitas, e os sunitas contra-atacam", acrescentou. Segundo um informe da Organização das Nações Unidas divulgado na semana passada, pelo menos 2,5 mil pessoas foram assassinadas no Iraque entre março e abril, enquanto outras 85 mil foram forçadas a abandonar suas casas.

Citando dados da Organização Internacional para as Migrações, a Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque informou que 14.302 famílias tiveram que deixar o país desde o atentado do dia 22 de fevereiro contra uma mesquita na cidade de Samarra. O informe revelou que a migração das famílias rompe a tradicional distribuição geográfica entre sunitas e xiitas. Por sua vez, o primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, fez na semana passada uma visita à Basra, onde anunciou que parte dos 535 soldados desse país europeu que estão na cidade serão chamados de volta no final deste verão no hemisfério norte. (IPS/Envolverde)

* Com a colaboração de Salam Talib.

Aaron Glantz

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