Israel-Palestina: Moderação desata paradoxal tensão

Jerusalém, 02/05/2006 – Israel prometeu prudência e contenção diante do último atentado terrorista em Telavive, considerado o pior em dois anos. Porém, isto não aplacou o temor de uma iminente represália com possíveis repercussões em todo o Oriente Médio. O ataque suicida foi apenas um episódio em um contexto de um repentino aumento na violência palestina nos últimos meses. Observadores políticos, o governo israelense e as forças armadas discordam sobre a possível resposta. Entre as represálias na agenda, mencionada por altos oficiais militares israelenses da reserva e em atividade, figura a possível invasão de Gaza, zona considerada celeiro de terroristas. Se os ataques continuarem, segundo a imprensa, as Forças de Defesa de Israel prevêem ocupar Gaza, território do qual se retiraram no ano passado junto com milhares de colonos judeus tirados à força pelo governo do ex-primeiro-ministro Ariel Sharon. Mas este seria o último recurso, segundo o governo.

Pelo menos, nove pessoas morreram e 17 ficaram feridas no mês passado quando um suicida palestino, aparentemente membro do grupo radical Jihad Islâmica, detonou uma bomba em uma lanchonete de Telavive. Desde que o Movimento de Resistência Islâmico (Hamas) venceu as eleições de janeiro e assumiu o governo palestino, militares israelenses presenciaram um aumento dos ataques terroristas, o que despertou o temor de uma terceira intifada (insurreição popular contra a ocupação). A primeira aconteceu entre 1987 e 1993, e a segunda, mais intensa, entre 2000 e 2005. O governo de Israel advertiu que, antes de considerar qualquer reocupação de Gaza, continuará disparando contra objetivos-chave desse território, entre eles fábricas de explosivos.

O governo israelense também manterá sua política de "assassinato seletivo" de dirigentes da resistência, revogarão o direito de residência em Jerusalém dos legisladores palestinos que ali vivem e garantirá os controles para impedir a entrada de palestinos em território de Israel. O país já fez duas breves incursões em Gaza em busca de explosivos. A opinião dos funcionários do governo do primeiro-ministro Ehud Olmert diferente muito da predominante entre os militares, disse à IPS Hisham Ahmed, professor de ciências políticas da Universidade Birzeit, na cidade de Ramalá, na Cisjordânia. "O governo israelense ainda não está plenamente formado", explicou Ahmed. Olmert "não quer fazer algo contra os palestinos sem contar com um pleno mandato", explicou.

O analista destacou que o primeiro-ministro, vencedor das eleições gerais de 28 de março, prestou juramento no mesmo dia em que ocorreu o ataque suicida contra Telavive e terminou na semana passada a formação de seu governo de coalizão. O centrista Partido Kadima de Olmert (fundado por Sharon, que está em coma após sofrer uma série de derrames cerebrais desde dezembro) está especialmente interessado em manter o apoio do Partido Trabalhista (centro-esquerda), que prefere a não-violência para resolver o longo conflito com os palestinos. Olmert reserva o ministério da Defesa para o líder trabalhista, Amir Peretz, um sindicalista sem maior experiência militar.

Mobilizar a opinião pública a favor de uma invasão maciça em Gaza e de um possível ataque contra a Cisjordânia seria um grande desafio para Olmert, disse Ahmed. Mas apesar de o governo parecer evitar no imediato uma ofensiva militar contra Gaza, "nada pode ser descartado", alertou. O analista palestino disse que o governo israelense deve decidir entre tomar o total controle de Gaza novamente ou realizar uma incursão breve e efetiva. Mas de todo modo, "se abriria uma lata de vermes". Ahmed alertou sobre o perigo de uma operação militar israelense se estender a territórios da Síria ou do Irã. Israel acusou estes dois países de apoiar organizações radicais palestinas.

Neste momento, as forças de Israel desenvolvem uma forte campanha nas fronteiras com a finalidade de impedir a entrada de armas que possam ser usadas por grupos islâmicos contra assentamentos judeus. Israel teme, em particular, que foguetes Katyusha procedentes do Irã acabem em mãos de radicais palestinos. No primeiro dia das eleições israelenses, um destes projéteis foi disparado desde Gaza. Entretanto, Mordechai Kedar, professor do Departamento Árabe da Universidade Bar-Ilan, na cidade israelense de Ramat Gan, descarta a possibilidade de uma grande operação militar em Gaza. "O povo israelense está contra isso. Não queremos enterrar nossos jovens depois de uma invasão como essa. O governo pensará muito antes de se dirigir a Gaza", explicou a IPS. Kedar disse também que o governo teme uma reação da imprensa e da cidadania israelense se os militares dispararem contra áreas povoadas. "Nós, como judeus, temos um problema com isso", afirmou. (IPS/Envolverde)

Fawzia Sheik

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