Palestina: Frustração em Gaza

Jerusalém, 03/05/2006 – A explosiva faixa de Gaza se transformou em foco de frustração palestina, diante da incapacidade do governo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) em pagar os salários dos funcionários públicos. Muitos se queixam porque não recebem o pagamento desde março. Nas últimas semanas, policiais descontentes com o atraso assumiram o controle, brevemente, de vários edifícios públicos e ameaçaram com futuros ataques. Estes acontecimentos contrastaram com as declarações recentes do primeiro-ministro palestino, Ismail Haniyeh, que em abril disse ao jornal The Jerusalem Post que o povo palestino estaria disposto a sobreviver a "azeitonas e sal".

Diante deste cenário, está o crescente enfrentamento entre o Hamas e seu antecessor no governo, o secular partido Al Fatah, cuja direção passou, desde a morte do líder histórico Yasser Arafat, para o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas. Mesmo depois do arrasador triunfo eleitoral do Hamas em janeiro, esse movimento e o Al Fatah mantêm a luta pelo poder e a popularidade. Abbas, ainda em controle de certos assuntos de governo, prometeu que não haveria uma guerra civil em Gaza e na Cisjordânia. Mas na semana passada houve um dos piores incidentes entre os dois grupos, quando integrantes de ambos partidos trocaram tiros, pedras e coquetel molotov.

Por outro lado, células da rede terrorista Al Qaeda que operam em Gaza ameaçaram matar altos dirigentes da Al Fatah, segundo a imprensa israelense. Estes incidentes demonstraram como a ANP, além de enfrentar a realidade diária dos ataques militares israelenses também peleja internamente. "Algumas pessoas esperam que estes atos aumentem, mas a maioria da opinião pública da Palestina está contra isto", disse à IPS o analista Naseef Muallem, diretor do Centro Palestino para a Paz e a Democracia, na cidade de Ramalá, na Cisjordânia.

Na raiz do problema orçamentário está a negativa de Israel em transferir entre US$ 50 milhões e US$ 55 milhões em impostos mensais que coleta em nome da ANP. Por outro lado, países e organizações doadoras suspenderam a ajuda financeira à Palestina até que o Hamas renuncie às armas. Estados Unidos e União Européia doavam no total US$ 1 bilhão anuais à ANP. Muitos governos ocidentais prometeram apoiar projetos humanitários somente através de organizações locais, pois cortaram a ajuda direta ao governo por causa da negativa do Hamas em reconhecer a existência do Estado de Israel e em abandonar a luta armada.

Toda esta situação prejudica cerca de 150 mil professores, trabalhadores da saúde, membros das forças de segurança e suas famílias. Arábia Saudita, Irã, Qatar, Rússia e a Liga Árabe prometeram este mês doar US$ 200 milhões para ajudar a aliviar o déficit fiscal, mas o governo pede desesperadamente mais recursos. As autoridades disseram aos funcionários públicos que a suspensão da ajuda internacional é um obstáculo maior inclusive do que os impostos pelos Estados Unidos, país que ameaçou adotar sanções ao apresentar demandas legais contra os bancos que tenham negócios com o Hamas.

Haniyeh examina uma proposta do presidente francês Jacques Chirac para criar um fundo no Banco Mundial destinado a pagar os salários atrasados. Os palestinos, em certo grau, responsabilizam o Hamas pela insegurança e instabilidade financeira, mas "o maior pesadelo sobre nossa cabeça são os israelenses", disse Muallem. Os israelenses demolem casas palestinas, instalam um número considerável de postos de segurança que tornam viagens curtas desnecessariamente longas e matam civis inocentes em suas represálias contra os militantes de Gaza e Cisjordânia, somente justificando ainda mais a posição radical do Hamas, afirmou.

Apesar do crescente mal-estar na sociedade palestina, é pouco provável que a oposição possa ganhar pontos nos territórios, já que a visão geral é que a Al Fatah está confabulando com a comunidade internacional para sufocar o Hamas, disse à IPS Ghassim Khatib, diretor do Centro de Comunicações e Meios de Comunicação de Jerusalém e co-editor do boletim Bitter Lemons. Tudo isto, por outro lado, impulsionará a popularidade do Hamas a longo prazo, acrescentou. A crescente tensão entre Hamas e Al Fatah será resolvida, segundo Khatib, através de meios legais, constitucionais e políticos, e não necessariamente derivará em uma guerra civil, como alguns estão pregando. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *