Migração-França: Expulsando crianças para salvar identidade nacional

Los Angeles, 25/05/2006 – Educadores, religiosos e autoridades municipais da França estão dispostos a desafiar o decreto que ordena a expulsão, antes de 30 de junho, de 30 mil crianças e jovens filhos de imigrantes ilegais. Mariama de 5 anos, vive e estuda na França, mas até o fim do mês poderá estar regressando ao Senegal, seu país de origem. Todos os filhos de imigrantes sem documentos deverão estar fora da França nessa data, em cumprimento à norma emitida em outubro passado. Mariama, filha de um casal senegalês, vive em Suresnes, 20 quilômetros ao norte de Paris. Ela é uma entre milhares de menores de idade aos quais a política francesa deverá ?escoltar até as fronteiras? – isto é, expulsar do país – por ordem do governo. Entretanto, autoridades escolares, eclesiásticas, municipais e cidadãos comuns se apressam a demonstrar sua resistência à expulsão. Educação Sem Fronteiras, uma rede de professores e trabalhadores do ensino público, lançou uma campanha para proteger as crianças imigrantes. Esta rede, que reúne mais de 130 associações de pais e professores, divulgou uma declaração intitulada ?Daremos abrigo e os alimentaremos? na qual pedem aos cidadãos franceses que se oponham à política de expulsão. ?Não permitiremos que as autoridades estatais cometam esta infâmia contra as crianças em nosso nome?, disse à IPS Hélène Dugros, professora na localidade de Blagnac, 800 quilômetros ao sul de Paris. Sete de seus 15 alunos pertencem a famílias de imigrantes. ?Protegerei tantos quanto puder?, afirmou.

O chamado conta com amplo apoio, embora o decreto de outubro de 2005 ameace com até cinco anos de prisão e multa de até 30 mil euros (US$ 37.000) quem ajudar as crianças imigrantes. ?Assumo o risco de infringir esta lei?, disse Pierre Labeyrie, deputado local pelo Partido Verde na cidade de Toulouse. ?Apoiarei as crianças imigrantes e seus pais, lhes darei abrigo em minha casa e me negarei toda cooperação com a polícia?, acrescentou. O professor Bruno Leroy, por sua vez, afirmou que os democratas franceses não terão outra opção a não ser violar a lei. ?Não permitiremos que as autoridades destruam a vida destas crianças. Elas são nossos alunos, os amigos de nossos filhos. Eles falam nosso idioma, aprendem em nossas escolas, têm as mesmas alegrias que nós e nossos filhos?, disse à IPS.

Leroy não aceita o argumento de que se deve respeitar o decreto porque foi promulgado por um governo democraticamente eleito. ?Se as pessoas sempre respeitassem leis equivocadas formuladas por governos democráticos, os negros dos Estados Unidos ainda estariam sofrendo um racismo oficialmente aprovado?, ressaltou. Leroy citou o caso da falecida ativista negra Rosa Parks, que em 1º de dezembro de 1955 se negou a obedecer as normas que a obrigavam a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco. Assim começou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Na França, várias celebridades assumiram esta luta. Entre eles, o cineasta Bertrand Tavernier, o músico pop Mano Solo, o desenhista Jacques Tardy e o pedagogo Philippe Mérieu. Algumas autoridades municipais se negam a cooperar com a polícia. O vice-prefeito de Paris e máximo funcionário encarregado das escolas da capital, Eric Ferrand, assegurou que o governo municipal não dará à polícia ?nenhuma ajuda para identificar? os filhos de imigrantes ilegais. Ferrand também pediu urgentemente a ?todos os atores da vida escolar em Paris que se neguem a cooperar? com a polícia. A perseguição de crianças imigrantes está se tornando embaraçosa para a polícia.

No mês passado, policiais chegaram logo pela manhã a um hotel em Lyon, 600 quilômetros ao sul de Paris, onde se refugiava um grupo de crianças imigrantes. Entre os menores a serem expulsos estava Azérie, de 7 anos, filha de pais armênios, e seus dois irmãos mais velhos. Quando a polícia chegou, Azérie simplesmente se escondeu debaixo da cama. Os policiais decidiram não arrastá-la para fora dali, e foram embora dizendo que, nesse caso, teriam de arrastar também a sua mãe. Governos franceses de todas as cores expulsaram dezenas de milhares de imigrantes ilegais nos últimos 15 anos. Em 2004 foram 16 mil. A quantidade aumentou para quase 20 mil no ano passado e se espera que chegue a 30 mil este ano.

A expulsão de crianças faz parte de uma política introduzida pelo ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que em 2007 sairá candidato à Presidência. Sarkozy apresentou este ano outro projeto de lei que endurece as condições de permanência para os estrangeiros que quiserem se estabelecer na França. A lei, que foi aprovada pelo parlamento no último dia 17, torna mais rígidos os controles dos casais formados por franceses e estrangeiros e as visitas de familiares a imigrantes na França. Também estabelece novos critérios para selecionar imigrantes. O ministro, que defendeu a lei dizendo que a França precisa ?escolher? os imigrantes, é acusado de cortejar os eleitores de direita, que representaram 15% do eleitorado nas últimas eleições.

Didier Fassin, presidente do comitê de médicos franceses que protegem os imigrantes, descreveu a nova lei como ?a mais restritiva desde a Segunda Guerra Mundial?, e acrescentou que ?terá graves conseqüências sociais e humanitárias?. Fassin explicou à IPS que o parlamento francês aprovou cinco leis sobre imigração em menos de 20 anos, uma mais severa do que a outra. Estas leis ?agravaram as condições de vida dos imigrantes, conduzindo a uma degradação de nosso tecido social?. O legislador socialista Bernard Roman acusou Sarkozy, no parlamento, de tentar ?seduzir o eleitorado reacionário?.

?A imigração é uma fonte de ansiedade entre nossos compatriotas, que temem por sua segurança, seu emprego e seu modo de vida?, disse Sarkozy à Assembléia Nacional. E acrescentou que a nova lei pretende dar forma ?à identidade da França em 30 anos?. Do ponto de vista de Sarkozy, Mariama não será parte dessa identidade nacional. A menos que aqueles que a apóiam a salvem da expulsão. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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