Política: Ajuda dos EUA não impede que Estados fracassem

Washington, 04/05/2006 – Os US$ 8 bilhões em apoio econômico e militar que receberam mensalmente no ano passado não livraram o Afeganistão nem o Iraque de figurarem entre os 10 Estados mais débeis do mundo, segundo o índice elaborado por especialistas norte-americanos. O "Índice de Estados fracassados" identifica os países nos quais "o governo não tem controle efetivo do território, não é visto como legítimo por uma porção significativa de sua população, não dá segurança interna ou serviços públicos básicos aos seus cidadãos e carece de monopólio para uso da força".

O Índice foi criado pelos especialistas da revista Foreign Policy e do não-governamental Fundo para a Paz para estabelecer o risco de conflito violento e outras formas de colapso do Estado, mais do que colapso real. Na segunda edição anual do Índice, correspondente a 2006 e divulgado esta semana em Washington, o Iraque está em quarto lugar (igual no Índice de 2005), atrás de Sudão, República Democrática do Congo e Costa do Marfim. Mas as avaliações do Índice foram concluídas antes da escalada de violência sectária desatada depois do ataque com explosivos no dia 22 de fevereiro contra a Mesquita Dourada, santuário xiita na cidade iraquiana de Samarra. Para muitos observadores, o Iraque está, desde então, à beira de uma guerra civil generalizada.

Já o Afeganistão passou do 11º para o 10º posto, logo atrás do vizinho Paquistão – que conta com forte apoio dos Estados Unidos – e do Haiti, outro país com forte presença militar norte-americana e receptor de grande quantidade de ajuda financeira de Washington nos últimos anos. Entre os lugares cinco e sete, o estudo coloca três nações subsaarianas: Zimbábue, que o ano passado estava em 15º; Chade, cujo governo está ameaçado por uma rebelião militar e incursões de milícias árabes apoiadas pelo Sudão e pela Somália, que ainda carece de um governo central em funções 12 anos depois da retirada das forças de paz da Organização das Nações Unidas.

Seis dos 10 Estados mais vulneráveis e 11 dos 20 mais "críticos" estão na África subsaariana. Com exceção do Haiti, o resto está esparramado na Eurásia: Iraque e Iêmen no Oriente Médio; Afeganistão, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Birmânia na Ásia central e meridional, e Coréia do Norte na Ásia oriental. O Índice, que se baseia em uma dezena de indicadores sociais, econômicos e políticos, está projetado em parte como alerta à comunidade internacional sobre Estados que correm risco de fracassar, se é que já não o fizeram, como a Somália.

Para cada indicador, os países recebem uma pontuação entre 1 (para melhor desempenho) e 10 (para o pior). O Sudão, por exemplo, recebeu 7,5 pontos para seu crescimento econômico, mas teve mais de nove em cada um dos outros parâmetros, o que lhe rendeu um total de 112,3 pontos. O estudo deste ano inclui 138 Estados. Os 40 mais vulneráveis foram divididos em duas categorias: "críticos" e "em perigo". Os seguintes, que incluem boa parte do mundo em desenvolvimento, Rússia e China, foram situados "no limite", enquanto o restante se dividiu em "estáveis" e "os mais estáveis".

Em um achado, talvez, inesperado, os Estados Unidos e boa parte da Europa foram situados na categoria "estáveis", bem como Costa Rica, Panamá, Argentina, Chile, Uruguai, África do Sul, Omã, Coréia do Sul e Mongólia. O desempenho relativamente pobre dos Estados Unidos e da Europa se baseou principalmente na existência de "bolsões de fracasso" dentro de seus territórios. Para ilustrar esses casos, o estudo menciona a área afeada pelo furacão Katrina, que no final de agosto passado atingiu a costa do golfo do México, no sul dos Estados Unidos, matando 1.400 pessoas e causando prejuízos de US$ 200 bilhões. Nessa oportunidade, "a superpotência do mundo deixou milhares de seus cidadãos em má situação durante dias".

A análise do Índice publicado na Foreign Policy também menciona os distúrbios protagonizados pelas comunidades de imigrantes na França no outono passado. Entre os países "mais seguros" estão Canadá, Japão, Austrália, Suíça, Áustria, Irlanda, Holanda, Bélgica e as quatro nações escandinavas (Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia). Esta edição do Índice semeia dúvidas sobre princípios básicos de política externa do governo George W. Bush. Por exemplo, que eleições democráticas necessariamente reafirmem a estabilidade do Estado.

Embora tanto no Iraque quanto no Afeganistão tenham sido realizadas eleições "com êxito", a estabilidade parece ter se deteriorado nos dois países, segundo a análise do Foreign Policy. Como ocorreu em Sri Lanka em novembro, as eleições no Iraque parecem ter exacerbado a tensão entre comunidades religiosas, diz a análise. Mas os especialistas enfatizaram que as principais razões do mau desempenho do Iraque em 2005 foi a deterioração da classe profissional do país, bem como a intensificação dos conflitos religiosos. Em geral, o Iraque obteve 109 pontos este ano, significativamente pior do que os 103,2 do ano passado.

Entre os países com maior diferença na avaliação entre um ano e outro figuraram Zimbábue (14 pontos a mais, pulando do 15º para o 5º lugar) e Paquistão, que passou do 34º para o 15º lugar, principalmente pelo impacto do terremoto de 8 de outubro, pela crescente "tensão étnica" na província do Baluchistão e "pela incapacidade do governo para controlar áreas tribais na fronteira afegã". Entre países mais estáveis, o aumento de conflitos civis na Nigéria e na China representou 10 pontos a mais para ambos, o que lhes valeu subir na escala.

A Nigéria, que estava em 54º lugar no ano passado, ficou em 22º e se aproxima do ponto mais alto da categoria "em perigo" este ano. A China, que em 2005 ficou em 75º lugar, subiu para o posto 57º, principalmente devido à brecha cada vez maior entre ricos e pobres e pela tensão resultante. O maior progresso rumo à estabilidade foi atingido pela Venezuela, que passou do 22º lugar na categoria "em perigo" em 2005 para o 64º lugar na categoria "no limite".

"Embora as políticas econômicas do presidente Hugo Chávez possam não ter beneficiado a maioria dos venezuelanos, sua apaixonada retórica antinorte-americana combinada com os elevados preços do petróleo o ajudaram a consolidar o poder e estabilizar o país, pelo menos no curto prazo", segundo a análise da Foreign Policy, que, significativamente, é editada por Moisés Naim, ex-ministro de Comércio e Indústria da Venezuela e manifesto crítico de Chávez.

Outros países que melhoraram notoriamente seu desempenho no ano passado foram República Dominicana, Guatemala e Bósnia-Herzegovina. Enquanto o Haiti caiu para a zona "crítica", a Colômbia foi o único país latino-americano classificado "em perigo". Mas também melhorou sua posição. No ano passado estava em 14º lugar e este ano passou para o 27º. Além de Colômbia, Bósnia-Herzegovina e Nigéria, outros países "em perigo" incluíram Uzbequistão e Tajiquistão, na Ásia central; Laos, Sri Lanka e Indonésia, na Ásia meridional e sudeste; Egito e Síria no mundo árabe; Angola, Camarões e Burkina Faso na África ocidental, e Etiópia, Quênia e Uganda na África oriental.

Os indicadores sociais usados pelo Índice incluíram estatísticas sobre densidade populacional em relação aos recursos vitais, o deslocamento forçado de grandes setores da população e a existência, intensidade e legado de divisões comunitárias. Os indicadores econômicos incluíram crescimento (ou queda) da renda por habitante e a proporção em que se beneficiam do eventual crescimento dos diferentes setores da população. Os indicadores políticos, por sua vez, consideraram parâmetros de governabilidade, como o alcance da corrupção, a eficiência dos serviços públicos, o regime de direito, a fragmentação das elites governantes por linhas grupais, o controle civil sobre as forças de segurança e a intervenção de Estados estrangeiros ou outras forças. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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