Bangcoc, 01/06/2006 – A líder pró-democrática birmanesa Aung San Suu Kyi, prisioneira da ditadura em seu país, não aceitou uma oferta dos militares para recuperar sua liberdade, sem direito a retomar a atividade política. Diante desta resposta, a junta militar prolongou novamente sua prisão domiciliar, lançando por terra as esperanças de uma abertura que criara este mês na comunidade internacional. As expectativas haviam aumentado, especialmente depois da visita a Rangun, na semana passada, do subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas para Assuntos Políticos, Ibrahim Gambari, que teve permissão para conversar por uma hora com a ativista e prêmio Nobel da Paz. Foi o primeiro contato de Suu Kyi com um visitante estrangeiro nos últimos dois anos.
Segundo uma fonte com conhecimento dos procedimentos de Rangun, os militares agiram diferente desta vez, ao informar à líder, no dia 26, que continuaria detida. A reunião com Suu Kyi "foi mais longa do que o usual", explicou a fonte, que pediu para não ser identificada. "Normalmente, demora uns poucos minutos, pois os oficiais apenas lêem a declaração. Porém, desta vez, algo mais foi falado", acrescentou. Nos últimos dias, outros birmaneses com ligações dentro desse país asiático puderam reconstruir a mensagem que a junta deu a Suu Kyi, líder do principal partido de oposição, a Liga Nacional pela Democracia (NLD).
O motivo da "discussão de sexta-feira passada entre Suu Kyi e o Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento (nome oficial da junta militar) foi que lhe ofereceram liberdade parcial", explicou Thaun Htun, representante junto à ONU do governo birmanês, democraticamente eleito no exílio. "O Conselho quer impedir que ela viaje pelo país, que visite a sede da NLD e que regresse à política ativa. O Conselho não se sente seguro com uma nova onda política que sua libertação desataria. Os militares não estão prontos para libertá-la de maneira incondicional", acrescentou.
Entretanto, Suu Kyi não cedeu. "Não aceitou as condições porque eram irracionais devido ao seu papel", disse à IPS o presidente da organização não-governamental birmanesa no exílio Rede para a Democracia e o Desenvolvimento, Khin Omar. A atual ditadura, que mudou o nome oficial do país para Myanmar, é parte de uma sucessão de regimes militares que governaram o país desde um golpe de Estado em 1962. Às vésperas do sábado, quando terminou o último período de prisão de Suu Kyi, havia esperanças de que seria deixada em liberdade.
No contexto da visita de Gambari a Rangun, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, fez um chamado ao homem forte da ditadura birmanesa, general Than Shwe. "Aproveito esta oportunidade para pedir ao general Than Shwe e ao governo que a liberte. Deixo em suas mãos a responsabilidade de fazer o correto", afirmou. Entretanto, na terça-feira, Annan lamentou a decisão de Rangun de prolongar a prisão domiciliar de Suu Kyi. "Estou desiludido porque o governo não decidiu libertá-la. Continuarei trabalhando com meus sócios na região, como terão notado, alguns dos quais fizeram declarações pedindo sua libertação", disse Annan aos jornalistas.
Na terça-feira, completou três anos desde que começou o atual período de confinamento de Suu Kyi, presa após um ataque contra ela e outros membros da NLD, no dia 30 de maio de 2003, por homens ligados à junta militar. A ativista permanece detida segundo uma lei de "detenção preventiva", de 1875, quando a Birmânia era colônia britânica. Suu Kyi passou mais de dez dos últimos 17 anos sob sucessivos períodos de detenção, sendo o último o mais severo, já que a junta reduziu todos os contatos que tinha com o exterior, incluindo as visitas de seu médico pessoal, que agora só pode vê-la a cada oito semanas.
O prolongamento de sua detenção seguramente acrescentará pressão internacional contra o regime militar, criticado pelos Estados Unidos e pela União Européia. Washington lidera uma campanha para impor sanções econômicas contra a Birmânia e levar seu caso ao Conselho de Segurança da ONU. O regime militar, que desesperadamente tenta impedir uma censura nas Nações Unidas, é acusado de bloquear uma prometida reforma política para poder permanecer no poder. Também é acusado de violações dos direitos humanos. Houve denúncias de casos de trabalho forçado, recrutamento de meninos e meninas como soldados, sistemáticas violações de mulheres, ataques contra as minorias étnicas, detenção de mais de 1,1 mil ativistas pró-democráticos e a imposição de uma severa censura.
A NLD obteve uma vitória esmagadora nas eleições gerais de 1990, conquistando 392 das 485 cadeiras no Parlamento, mas os militares se negaram a reconhecer o resultado. O Partido de Unidade Nacional, que representou a junta nas eleições, conseguiu apenas dez cadeiras. Esta semana ficou claro que os militares estão decididos a manter o controle político do país. O chanceler birmanês disse, na segunda-feira, durante reunião na Malásia do Movimento dos Não-Alinhados, que a libertação de Suu Kyi "não era um assunto internacional", mas um caso de política interna.
Por outro lado, aumentam os temores de que a ativista corra risco de morte se for libertada, sobretudo diante do crescente poder da Associação pela União, a Solidariedade e o Desenvolvimento, considerada por opositores como uma milícia civil. De fato, alguns de seus membros estiveram envolvidos no ataque contra Suu Kyi em 2003. "Estamos preocupados com sua segurança. A junta tem um plano para tomar medidas contra ela mesmo depois de libertada", disse o ativista político Khin Omar. (IPS/Envolverde)
Imagem: BBC

