Londres, 08/06/2006 – O movimento fundamentalista Talibã recupera poder e influência no sul do Afeganistão, segundo o Conselho Senlis, organização independente que coopera com agricultores desse país. O Talibã, que dirigiu o Afeganistão com mão-de-ferro entre 1996 e 2001, também enfrenta cada vez com mais dureza as forças do governo e da coalizão militar que se encontra no país com a pretensão de estabilizá-lo, diz o informe apresentado pela entidade, em Londres, nesta terça-feira.
"O que presenciamos nos últimos meses é um aumento no nível dos ataques dos rebeldes e do Talibã e uma sofisticação nas técnicas terroristas usadas", disse à IPS o diretor-executivo do Conselho Senlis, Emmanuel Reinert. "A percepção da população local também mudou, pois agora vêem o Talibã com aceitável. Assim, na realidade este movimento está por ganhar a batalha pelos corações e mentes da população", acrescentou Reinert. A expressão "ganhar corações e mentes" foi utilizada pelos Estados Unidos para assinalar suas aspirações a respeito da população local do Afeganistão e Iraque, países onde conta com enorme presença militar.
Por outro lado, a organização Talibã melhorou, segundo Reinert. "Estamos falando de ataques diários e de um aumento dos ataques suicidas, de cinco em 2004 para 21 somente no primeiro semestre deste ano", explicou. "Estamos falando de uma sofisticação das técnicas terroristas, por exemplo, nos artefatos explosivos utilizados. Assim, definitivamente, existe uma mudança na maneira como os insurgentes organizam suas operações", acrescentou. O Talibã poderia ganhar mais força ainda com apoio paquistanês, apenas cruzando a fronteira, disse Reinart. "O Talibã e outras organizações estão se reagrupando na fronteira, em particular no Paquistão, onde encontraram um refúfio seguro e onde podem organizar ataques contra as forças de Cabul nas áreas de Helmand e Kandahar", afirmou.
Nestas circunstâncias, as tropas britânicas enviadas ao sul do Afeganistão para substituir as norte-americanas em Helmand têm uma dura tarefa pela frente, disse Reinert à imprensa. "Segundo nosso informe, cerca de 80% da população de Helmand apóia o Talibã. As tropas britânicas necessitarão recuperar o controle, e para isto precisarão de um enfoque diferente. Terão de ouvir o povo e atender suas necessidades", ressaltou. Até agora, a agressiva intervenção militar dos Estados Unidos e dos que o apóiam significou a perda de apoio das forças da coalizão entre a população, que ganhou pouco com a ocupação, disse Reinart. "Muito foi prometido e pouco foi dado", afirmou.
O informe do Conselho Senlis indica que a erradicação de cultivos de papoula, insumo para o ópio, a morfina e heroína), que afeta os meios de vida de agricultores locais, bem como a morte de civis em operações militares, incluídas crianças e mulheres, e o sentimento de abandono e exclusão levam a uma completa crise de confiança e de apoio às forças internacionais. A erradicação em grande escala de cultivos de papoula, forçada agressivamente em Helmand e dirigida pelos Estados Unidos, redundou em um significativo descontentamento da população local, segundo o estudo.
"Plantei papoula por 27 anos, sempre pacificamente. Cultivava somente de dois a três jeribs (entre 4 mil e 6 mil metros quadrados), apenas para sobreviver. Eles erradicaram tudo o que eu tinha. Não sobrou nada. Todos viram", disse, segundo o informe, o agricultor Sher Moahmmad, do distrito de Sharwale, em Helmand. Apesar das campanhas de erradicação realizadas nos últimos meses, espera-se que a colheita aumente muito este ano em relação a 2006, pois muitos agricultores que haviam deixado a papoula de lado voltam a cultivá-la, diz o estudo.
Os camponeses interromperam o cultivo acatando a proibição decretada pelo presidente Hamid Karzai ou porque receberam a promessa de ajuda de programas de meios de vida alternativos financiados pela comunidade internacional. Helmand já tem a maior área de cultivo de papoula do Afeganistão, que em 2005 representou 25% da superfície total do país. O Conselho Senlis também prevê para 2006 aumento de 50% no cultivo de ópio, até chegar a 40 mil hectares. A organização disse que existe uma ligação direta entre a negligência com relação aos interesses dos cultivadores e o fracasso em abordar a pobreza extrema, e o atual estado de guerra em Helmand.
Muitos fatores que levaram à desintegração da confiança na comunidade internacional e no governo central. Um deles é o modo como são vistas as tropas estrangeiros, como pouco cuidadosas quanto ao valor das vidas dos afegãos, com uma quantidade cada vez maior de mortes e feridos civis pelas forças da coalizão. Além disso, o bombardeio unilateral dos Estados Unidos sobre Kandahar minou o apoio da população civil ao governo de Karzai, diz o documento. Também afirma que os distúrbios recentes em Cabul foram um exemplo da crescente hostilidade do povo afegão com a comunidade internacional. "Helmand é uma ameaça antecipada que prenuncia em que pode se transformar todo o Afeganistão se não for adotado um enfoque radicalmente diferente nos próximos meses", assegurou Reinert.

