Alimentação: Fome ameaça palestinos

Londres, 05/06/2006 – A falta de fundos do Programa Mundial de Alimentos (PMA) dificulta a tarefa que esta agência da Organização das Nações Unidas enfrentará em julho: aumentar em 25% a quantidade de palestinos que não têm outra maneira de conseguir comida, até chegar ao total de 600 mil. E depois de julho o PMA ficará sem dinheiro e não poderá oferecer ajuda alimentar a ninguém. Numerosas crianças buscam em lixões alimentos jogados fora e, assim, conseguem sua única comida do dia. Muitas famílias esperam que as verduras à venda comecem a deteriorar para comprá-las a preço menor. Está e a realidade palestina, segundo o PMA.

"Houve redução dos fundos depois da retirada de pagamentos de impostos por parte de Israel", disse à IPS Kirstie Campbell, do PMA, por telefone desde Jerusalém. "Tampouco os doadores estão financiando a Autoridade Nacional Palestina", acrescentou. Os palestinos estão pagando o preço por elegerem nas urnas um governo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que chegou ao poder nas eleições de 25 de janeiro. E são os mais pobres que pagarão a conta mais alta.

"Existem três categorias de pessoas necessitadas", explicou Campbell. "São os pobres crônicos, em seguida os que estão internados em instituições, como idosos, órfãos e rejeitados pela sociedade, e, por fim, os novos pobres, afetados pela crise atual". A terceira desta categoria é a que tem mais probabilidades de encontrar ajuda, "porque os programas para eles são implementados por organizações não-governamentais", acrescentou.

O financiamento das duas primeiras procede do Ministério de Assuntos Sociais do governo palestino, que, provavelmente não consiga novos fundos. E há outros fatores que tornam a vida ainda pior para os palestinos mais pobres. "Das aproximadamente 2,2 milhões de aves domésticas que havia nessas regiões, cerca de 400 mil foram sacrificadas por causa da gripe aviária", explicou a Campbell. "E essa é a fonte protéica mais barata". Os habitantes de Gaza também sofrem as restrições pesqueiras, disse a funcionária do PMA.

"A pesca está permitida apenas entre seis e 10 milhas náuticas do mar" Mediterrâneo, a partir da costa. Mas essa não é uma zona onde se pode encontrar os peixes maiores. Os barcos saem e fazem pesca de arrastão na área de criação, juntando uma quantidade de peixes pequenos e dejetos", acrescentou Campbell. O fechamento da passagem de Karni, na fronteira entre Gaza e Israel, se somou às dificuldades, limitando a disponibilidade de bens e alimentos, embora esta semana algumas restrições tenham sido suspensas. Debaixo de tais pressões, a própria sobrevivência começa a entrar em colapso.

Os funcionários do PMA realizaram um estudo sobre diversidade da dieta de mil famílias, e vimos pessoas afetadas de várias maneiras pela pobreza e pelo desemprego", disse Campbell. "As famílias não têm dinheiro para comprar comida, e algumas vivem apenas à base de pão e verduras". Logo, isto poderá ter consequências na saúde da população. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) vai fazer uma pesquisa sobre o aspecto nutricional do problema alimentar nos territórios palestinos, com uma população combinada de aproximadamente 3,5 milhões de pessoas, entre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

O começo do estudo está previsto para julho, quando centenas de milhares de palestinos vislumbrarem uma perspectiva sem absolutamente nenhum alimento. Em vista desta crise, "definitivamente vemos sinais de mal-estar", disse a funcionária do PMA. "Isso fica claro em muitos relatórios sobre a região que as pessoas desconhecem". Os compromissos e as contribuições não bastam para cobrir os US$ 103 milhões que o PMA precisa para o período de dois anos iniciado em setembro de 2005. O programa conta apenas com 29% dos recursos necessários para cobrir as necessidades da população projetadas em razão da situação, que piora rapidamente.

Até agora, entre os principais doadores figuram a Comissão Européia (US$ 13,9 milhões), Estados Unidos (US$, 7,9 milhões), Japão (US$ 1,4 milhão), França (US$ 1,2 milhão), Noruega (US$ 1,1 milhão) e Suíça (US$ 1 milhão). No ano passado, o orçamento mundial anual do PMA foi de US$ 3,1 bilhões, e em 2004 a agência havia chegado a 113 milhões de pessoas em 80 países. O que se deu aos palestinos é uma pequena fração do orçamento total, e o que agora se oferece de adicional é seletivo e condicional.

Segundo recente estudo feito pelo PMA junto com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), quase dois milhões de palestinos – mais da metade da população – são incapazes de satisfazer suas necessidades alimentares diárias se não recebem assistência. "A situação está arrastando a exausta população para uma pobreza e uma dívida mais profundas", afirmou em uma declaração escrita Arnold Vercken, diretor do PMA para a Palestina.

A perda de ganhos e o crescente desemprego, junto com os elevados preços do mercado, estão paralisando o setor mais pobre da sociedade, levando a um crescente desespero. Em Gaza, vemos mais pessoas, especialmente crianças, mendigando nas ruas. Estamos em uma corrida contra o relógio para levar aos mais vulneráveis ajuda alimentar e para evitar uma escalada desta crise. Uma assistência urgente agora realmente pode marcar uma diferença", ressaltou Vercken. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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