Amã, 06/06/2006 – É quase impossível entrar na cidade iraquiana de Ramadi. A IPS recebeu informação segundo a qual franco-atiradores norte-americanos assassinam civis, após prender os moradores nas casas e se colocarem nos telhados. "Junto à rua principal se pode ver edifícios destruídos com tendas militares para os franco-atiradores. Tenha cuidado se ouvir algum conflito… Saia do caminho, estacione seu carro ali mesmo e vá se esconder em qualquer casa, porque atiram em tudo que se move, mesmo se os enfrentamentos são em outro lugar", afirmou uma testemunha.
A IPS entrevistou em Amã, capital da Jordânia, uma pessoa que pediu para ser identificada apenas como "um amigo iraquiano", que contou como está a situação em Ramadi, 100 quilômetros a oeste de Bagdá, da qual foi testemunha direta. "Para entrar na cidade é preciso cruzar a ponte sobre o rio Eufrates. A usina elétrica de Ramadi está ocupada pelo exército dos Estados Unidos. O posto de controle fica ali, e muito próximo também tem uma fábrica de vidro com franco-atiradores norte-americanos", contou o informante. "Ali inspecionam os automóveis. São necessárias mais quatro horas para chegar ao outro lado", acrescentou.
Muito pouca informação se teve desde essa cidade nos últimos meses, e sua divulgação sempre cabe a jornalistas próximos ao exército dos Estados Unidos que patrulha essa região. Porém as testemunhas ouvidas pela IPS em Amã descreveram uma situação muito diferente da perspectiva militar dos correspondentes de guerra. Seus relatos indicam que alguém, qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento, sem aviso nem sinal.
O xeque Majeed al-Ga?oud, morador na aldeia Wajah al-Iraque, nos arredores de Ramadi, visita a cidade com freqüência. Ele também descreveu a presença de franco-atiradores disparando indiscriminadamente. "Os franco-atiradores norte-americanos não fazem nenhuma distinção entre civis e combatentes. Atiram imediatamente em tudo o que se move. Isto é uma coisa muito suja… Estão matando muitos civis que não são rebeldes". O "amigo iraquiano" afirmou que muitos morrem na cidades simplesmente porque agora não sabem por onde não podem circular".
Não se deve andar ou dirigir pela rua principal de Ramadi além do primeiro semáforo, onde se deve entrar à esquerda ou à direita. "O caminho está bloqueado, não por blocos de concreto, mas por franco-atiradores. Qualquer um que prosseguir morrerá. Não existe nenhuma indicação de que é proibido circular, mas os que vivem ali sabem que é. Enquanto isso, muitas pessoas que vivem em Bagdá ignoram essa situação, caminham uns poucos metros e são mortos". O xeque Majeed, que esteve em Ramadi poucos dias antes de conversar com a IPS em Amã, descreveu uma cidade onde os combatentes dominam a situação, apesar das medidas de segurança das forças norte-americanas.
"Os rebeldes controlam o terreno e têm muita confiança. Nem mesmo escondem o rosto. Os norte-americanos fogem deles. Não podem ganhar uma guerra de infantaria contra eles, por isso começaram a bombardeá-los maciçamente com aviões". Enquanto esteve em Ramadi, o xeque viu muitas casas destruídas e diz que os serviços públicos não funcionam. "Pode-se ver que bombardearam as usinas de energia, a unidade de tratamento de água e os encanamentos. Uma casa está destruída. A outra também. Verá pobreza por todo lado. As coisas mais simples que qualquer ser humano deve ter, ali não existem", acrescentou.
O "amigo iraquiano" contou uma situação semelhante. "Visitei quatro casas até agora, mas não vi Ramadi, que é uma cidade grande. Também há casas destruídas nas propriedades rurais, visitei algumas". Ramadi encontra-se hoje isolada do resto do Iraque. Às vezes a eletricidade funciona, e algumas casas têm gerador. Mas o serviço telefônico local está completamente destruído. "A central telefônica foi atacada pelo exército dos Estados Unidos e agora até o edifício ficou totalmente destruído. O mesmo aconteceu com a estação de trem, 100% destruída, dia após dia pelos bombardeios dos aviões F16".
A vida em Ramadi nem sempre foi tão difícil. Quando Bagdá caiu, e posteriormente foi sacudida pela desordem e roubos, essa cidade ainda não havia entrado em guerra. "Era uma cidade bastante tranqüila. Apesar das diferentes tribos e da tensão existente entre elas, havia ordem. Se respeitava e se acatava a lei", disse o xeque Majeed. O "amigo iraquiano" considerou que, nos primeiros momentos da invasão norte-americana de 2003, Ramadi permaneceu em calma sem sofrer os embates da ocupação e da insurgência. Para ele, os Estados Unidos "haviam acertado com as tribos de não entrar na cidade. Mas os partidos políticos puseram tudo a perder".
"Como queriam controlar Ramadi, proporcionaram informação falsa aos norte-americanos. Houve uma pequena manifestação, não de seguidores de Saddam Hussein. Tratava-se de um ato pacífico contra a ocupação", afirmou. Depois dessa manifestação, da qual participaram apenas 30 pessoas, o trato foi quebrado e os militares norte-americanos entraram na cidade. Muitos iraquianos morreram e, de acordo com as práticas tribais de vingança, começou um ciclo de violência. Um morador de Ramadi, Qasem Dulaimi, disse á IPS que sua casa foi ocupada em maio por soldados norte-americanos e iraquianos. "Destruíram a entrada principal e entraram na casa. Sai do quarto e disse em inglês que éramos uma família pacífica… que estava tudo bem. Mas nos fecharam em um pequeno aposento da parte de baixo. De tempos em tempos ouvíamos disparos feitos do telhado. Utilizaram nossa casa e nosso teto para matar", contou. Finalmente, sua família foi libertada e os soldados foram embora de sua casa.
O "amigo iraquiano" foi testemunha do assassinato de uma criança. "Estava a caminho da escola, e isso às oito da manhã, cruzando a rua e carregando seus livros. De repente caiu. Pensei que fosse um problema na perna, mas ficou caído um longo tempo. Soube, ou senti, que um franco-atirador havia disparado contra ele. Haithem, um dos irmãos do garoto ferido, tentou chegar até ele e deu dois passos. Os franco-atiradores também dispararam contra ele e, mesmo eles errando os tiros, não voltou a tentar salvar o irmão, que ficou no chão quatro horas sagrando. Haviam acertado sua cabeça". (IPS/Envolverde)

