Iraque: Há mais massacres ocultos

Bagdá, 07/06/2006 – Um médico iraquiano que presenciou, no ano passado, a matança cometida por soldados dos Estados Unidos na localidade de Haditha assegurou que esse caso não é o único. Vários massacres semelhantes ainda não vieram a público, afirmou. O Departamento de Estado reconheceu na semana passada que fuzileiros navais assassinaram 24 civis – incluindo uma mulher de 66 anos e um menino de 4 – em Haditha, no ocidente do Iraque. Os porta-vozes militares haviam garantido antes da admissão pelo Pentágono que os civis foram vítimas da detonação de um explosivo colocado em uma estrada.

"Há muitos, muitos, muitos casos como o de Haditha ainda não revelados", disse à IPS o doutor Salam Ishmael, gerente de projetos da organização Médicos para o Iraque e ex-chefe de internos do hospital da Cidade Médica de Bagdá. Na própria Haditha – contou – militares norte-americanos cortaram a eletricidade e a água de toda a cidade, atacaram o hospital e incendiaram sua farmácia. "O hospital sofreu três ataques. Em novembro passado foi ocupado durante sete dias pelos norte-americanos e o exército iraquiano, o que constitui uma grave violação das convenções de Genebra", disse o médico.

As Convenções de Genebra, base do direito internacional humanitário, regem o tratamento a prisioneiros de guerra e a defesa da população civil em circunstâncias de conflito, e seu cumprimento é vigiado pela Federação Internacional da Cruze Vermelha e da Meia Lua Vermelha. "Em uma dessas ocasiões, soldados dos Estados Unidos usaram armas de fogo dentro do hospital. Algemaram todos os médicos e destruíram todo material que havia no depósito. Tudo acabou com o assassinato de um paciente que estava em sua cama", afirmou Ishmael. A Meia Lua Vermelha do Iraque assegurou, na oportunidade, que quase mil famílias foram obrigadas a fugir de suas casas em Haditha por causa da operação dirigida pelos militares norte-americanos.

O Pentágono respondeu às acusações de massacre em Haditha com a retirada dos soldados envolvidos do Iraque e uma investigação criminal. Também anunciaram o lançamento de um novo "treinamento ético" para soldados a serem enviados em missões no exterior. O soldado norte-americano Joseph Hatcher trabalhou no povoado iraquiano de Dawr entre fevereiro de 2004 e março de 2005. Seu treinamento sobre as características culturais do país onde operaria consistiu, segundo contou, em três horas de aula e a entrega de um folheto. "Só o que nos ensinaram sobre o idioma árabe foi 'de joelhos e mãos no chão? e 'não resista?. Não aprendemos a iniciar nenhum tipo de conversação", disse Hatcher à IPS.

Nos 13 meses que permaneceu no Iraque, Hatcher participou de muitas operações casa por casa semelhantes que culminaram com o massacre de Haditha. Mas nenhum dos membros de sua unidade falava árabe e freqüentemente faziam seu trabalho sem um intérprete. "Falávamos pouco nessas operações. Apontávamos a pistola para alguém e o empurrávamos para o chão. Era o habitual. Não havia maneira de saber se estava capturando alguém importante. Só se revistava arbitrariamente um quarteirão inteiro". Salam al-Amidi trabalhou como intérprete para militares norte-americanos na cidade de Mosul, no Curdistão, controlada pelos rebeldes durante mais de um ano. Al-Amidi garantiu que era o único tradutor para mais de cinco mil soldados.

Os militares dos Estados Unidos dependem, em grande parte, de informantes que são pagos por seu serviço para dizer quais casas revistar, afirmou o intérprete. "Talvez um informante queira se vingar de uma família e para isso nos dizia que os viu vendendo armas. Íamos à essa casa às três da madrugada, arrombávamos a porta e quebrávamos tudo que havia dentro", contou. O jornal The Washington Post informou na segunda-feira que fuzileiros entraram na casa de um deficiente iraquiano de 52 anos, o arrastaram para fora e atiraram quatro vezes contra seu rosto.

Como no caso de Haditha, os oito fuzileiros envolvidos foram submetidos a investigação criminal. Todos foram enviados do Iraque para o quartel Camp Pendleton, na Califórnia. De qualquer maneira, cresce o clamor entre os dirigentes políticos norte-americanos sobre a insuficiência da justiça militar para considerar estas atrocidades. O Pentágono e o governo, em geral, deveriam "ver estes incidentes como parte de um grande problema sistemático" e não como "pequenos compartimentos", advertiu o senador Jack Reed, do opositor Partido Republicano. (IPS/Envolverde)

Aaron Glantz

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