Costa do Marfim: A Água como arma

Bouake, Costa do Marfim, 13/06/2006 – A torneira secou há dois meses na casa de Namizata Timite. O povoado de Bouake, no centro da Costa do Marfim, carece de água para beber e cozinhar. Todos os dias, antes do amanhecer, Timite e suas filhas caminham um quilômetro com latas na cabeça para pegar água em um poço perto do povoado, onde fica a base central das Forces Nouvelles (Novas Forças, em francês), grupo rebelde que controla a metade setentrional do país. A Costa do Marfim, principal produtor de cacau do mundo, dividiu-se em dois há quase quatro anos. A crise eclodiu em 19 de setembro de 2002, depois de um falido golpe de Estado. Os insurgentes pegaram em armas para desafiar a discriminação contra a população setentrional, área que desde então ocupam.

"Quando pego água, deixou que assente por algum tempo, para que germes, folhas e plantas fiquem no fundo. Então a filtro e a utilizo. É a única maneira que tenho para manter meu restaurante: A torneira e os tanques secaram. Não tenho alternativa", disse Timite à IPS. A companhia de água cortou o serviço nas zonas rebeldes porque, segundo disseram, não pagam a conta desde que o conflito começou. "Acumularam contas de aproximadamente sete bilhões de francos CFA (cerca de US$ 14 milhões). As enviamos depois das negociações com funcionários das Forces Nouvelles e consideramos que não estão pagas", disse Marcel Zadi Kessi, diretor da companhia. "Precisamos desse dinheiro para manter nossas instalações em vários povoados do norte e oeste do país", sob controle rebelde, acrescentou.

Porém a escassez de água potável se converteu em uma ameaça sanitária. O Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas alertou que a ingestão de água contaminada causou em fevereiro 12 casos conhecidos (incluindo os de três mulheres e cinco menores de 5 anos) de diarréia acompanhada de vômitos no ocidente do país, mas sem mortes. Em 2004, pouco antes de uma operação militar com a qual o exército tentou recuperar o norte, no começo do mês sagrado do Ramadã (período de jejum), as cidades sob controle rebelde sofreram um corte total de energia elétrica e outro de duas semanas no serviço de água.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância exigiu que as autoridades "religuem imediatamente os dois serviços. Sem eles, a saúde da população ficará extremamente vulnerável e pode se deteriorar seriamente em pouco tempo, talvez em questão de dias", disse Rima Salah, diretora regional do Unicef para a África ocidental e central. O governo poderia estar usando a água para exercer pressão sobre as Forces Nouvelles a fim de conseguir seu pronto desarmamento, para o qual ainda não há acordo. Os rebeldes também estão submetidos à pressão da população local. "Removem todas as comodidades, começando pela água, para que os rebeldes deixem as armas o mais rápido possível", disse o jornal Soir-Info este mês.

A companhia de água e eletricidade da Costa do Marfim, CIE-SODECI, pertence ao poderoso conglomerado francês Bouygues, cujo contrato terminou em dezembro. O governo do presidente Laurent Gbagbo, ao que parece, prefere não renová-lo e destinar a tarefa a uma empresa sul-africana, mas a Bouygues se aproveita do conflito para manter sua posição, segundo analistas em Abidjã, centro financeiro do país. "Estamos tratando com uma empresa privada que, de fato, funcionou durante quatro anos como se fosse uma agência humanitária, fornecendo água e eletricidade de graça", disse Gerard Dago Lezou, professor de filosofia da Universidade de Cocody, em Abdjã. "Agora querem receber o que lhe é devido. Faremos isso ou, por acaso, pretendemos que continuem operando no prejuízo"?, perguntou.

Para minimizar a crise da água, funcionários locais do norte do país planejam abrir 215 poços, com ajuda de organizações não-governamentais e do Banco Islâmico de Desenvolvimento, informou à IPS o chefe do conselho de Korhogo, N?Golo Coulibaly. Entretanto, a população doas localidades controladas pelas Forces Nouvelles advertem que estão à beira do colapso, e preferem negociar diretamente com a companhia de água. Sidiki Konate, porta-voz das Forces Nouvelles, disse a uma emissora de rádio local que parte da população conseguiu o restabelecimento do serviço de água no começo do mês,.mas ainda falta muito para o pleno funcionamento. (IPS/Envolverde)

Fulgence Zamblé

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