EUA-Irã: História oculta do fracasso de Bush e Rice

Washington, 14/06/2006 – Estados Unidos, França e Grã-Bretanha pretendem esconder que já fracassaram suas gestões pela imposição de sanções ao Irã em razão de seu programa de desenvolvimento nuclear. Sem o aval de China e Rússia, todas suas pressões têm dado em nada. Os três países não conseguiram que Moscou e Pequim dessem seus consentimentos no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para uma dura resolução contra a negativa iraniana de suspender suas atividades de enriquecimento de urânio. Entretanto, os detalhes da proposta final e as subseqüentes declarações da Rússia confirmam que Washington teve de aceitar um pacote que excluía a ameaça de ações por parte do Conselho de Segurança com o qual contava.

A lista de "possíveis medidas no caso de Teerã não cooperar", sobre as quais informou a agência de notícias Reuters no último dia 9, inclui 13 medidas econômicas e dissuasivas de aplicação progressiva, cuja implementação dependerá da atitude do Irã. Mas o documento não faz referência à possibilidade de o Conselho impor a esse país uma obrigação cujo descumprimento pudesse servir ao governo de George W. Bush para justificar um possível ataque militar ao Irã.

Ao começar no início do mês as negociações decisivas sobre o programa nuclear iraniano, entre Estados Unidos e as outras cinco potências (Alemanha, China, França, Grã-Bretanha e Rússia), o governo Bush considerou chave uma ação coercitiva por parte do Conselho de Segurança para elevar a pressão sobre esse país. Funcionários norte-americanos descreveram um plano de Condoleezza Rice, secretária de Estado, para conseguir apoio a uma resolução do Conselho, obrigando Teerã a cessar seu enriquecimento de urânio mencionando o parágrafo VII da Carta da ONU, informou o jornal The New York Times no dia 30 de abril. Este parágrafo autoriza o estabelecimento de sanções e, em caso de não se ter resultado, permite recorrer à força militar.

Fica claro que Rice esperava contar com o consentimento das outras cinco potências ao se oferecer para participar das conversações entre os três países europeus (Alemanha, França e Grã-Bretanha) e o Irã, algo que durante meses sofreu a oposição da Casa Branca. Depois, altos funcionários do Departamento de Estado informaram ao The New York Times que Rice havia confiado aos seus assessores durante a viagem à Nova York, onde realizaria a reunião com representantes das outras cinco potências, nos dias 8 e 9 passados, seu plano de comunicar tais concessões às outras partes. Os Estados Unidos queriam, em troca, que esses países concordassem em votar sanções com base no parágrafo VII. Mas os russos e os chineses tinham seus próprios planos.

Antes da reunião em Nova York, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, conseguiu que Moscou e Pequim assegurassem que não apoiariam nenhuma resolução do Conselho de Segurança que incluísse a imposição de sanções e obrigações. No dia 2 de maio, Mottaki assegurou ao jornal conservador Kayhan que "o que estes dois países nos disseram oficialmente e fizeram saber em negociações diplomáticas foi que se opunham a sanções e ataques militares". O ministro iraniano se mostrou confiante de que "nenhuma sanção ou algo semelhante estaria na agenda do Conselho de Segurança".

Nem o chanceler russo, Sergei Lavrov, nem seu colega chinês, Li Zhaoxing, se comoveram pela surpreendente mudança de atitude dos Estados Unidos de participar de negociações multilaterais com o Irã. A Reuters informou nessa mesma noite que "a China deixou claro que qualquer referência a possíveis sanções ou guerra deveriam ser eliminados de uma resolução da ONU destinada a limitar o programa nuclear do Irã. Tanto Moscou quanto Pequim se opuseram mencionando o parágrafo VII". Steve Weisman, do The New York Times, confirmou no dia 19 que Lavrov havia anunciado na reunião de Nova York que a Rússia não iria aderir a nenhuma resolução do Conselho que estabelecesse a obrigatoriedade de cumprimento pelo Irã.

Os europeus que participaram da reunião, mais realistas, apenas esperavam que Moscou aceitasse ameaçar com sanções à margem do parágrafo VII, acrescentou o chanceler. A verdadeira história por trás do espetacular anúncio de 31 de maio e a proposta anunciada em silêncio no dia seguinte em Viena é que os Estados Unidos voltaram atrás e aceitaram um pacote que não incluísse a ameaça de sanções que Rice e Bush tanto ansiavam antes do encontro de Nova York. Foi um duro golpe que tanto Rice quanto outros funcionários do governo rapidamente começaram a esconder.

No dia depois da funesta reunião, Rice apenas admitiu "algumas diferenças táticas sobre como expressá-lo no Conselho de Segurança" e sugeriu que todas as discordâncias ficariam resolvidas "em duas semanas". Nesse mesmo dia, o subsecretário de Estado, Robert Zoellick, garantiu a legisladores que Pequim estava "de acordo, em princípio", com os planos de Washington de estabelecer sanções para o Irã, algo que seguramente já sabia que não era verdade.Embora uma leitura cuidadosa de seu discurso tivesse revelado sua clara intenção de pressionar a China assinalando que as relações desse país com os Estados Unidos ficariam "determinadas por sua ação diante da questão nuclear iraniana".

Durante as três semanas seguintes, Rice continuou com suas manobras junto a França e Grã-Bretanha para conseguir um acordo. A agência de notícias Associated Press informava em 20 de maio que os três governos haviam chegado a um acordo em um rascunho que dizia: "Quando for o caso, essas medidas serão adotadas sob o parágrafo VII, artigo 41 da Carta da ONU".

O desespero de Washington em conseguir o apoio de russos e chineses fica claro no telefonema do presidente Bush ao seu colega russo, Vladimir Putin, no dia 30 de maio, sobre o qual informou o jornal Los Angeles Times no dia 1º de junho. Bush não conseguiu que Putin mudasse de opinião. O chanceler russo disse que seu país apoiaria as "medidas" do Conselho de Segurança contra o Irã somente se esse país "conmeçasse a agir contra suas obrigações previstas no Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP), segundo a agência russa de notícias RIA Novosti informou no último dia 8.

O programa iraniano de enriquecimento de urânio por si só não é uma violação ao TNP, por mais que desagrade aos Estados Unidos, que propuseram mudanças para que tais atividades passassem a ser ilegais. Rice evitou a pergunta se havia conseguido o aval da China e da Rússia a respeito das sanções durante sua conferência de imprensa no dia 31 de maio, e respondeu: "Creio que há um entendimento e acordo substancial sobre a clara opção do Irã". A falida tentativa de Washington em conseguir o apoio das principais potências para ameaçar com ações militares não significa que o governo Bush tenha desistido de declarar uma guerra. Mas tem a tarefa dificultada, dando outra dimensão ao que Rice disse, que "o Irã não é o Iraque".

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. "Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra o Vietnã", seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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