Nova York, 16/06/2006 – O sítio arqueológico de Khinnis, no norte do Iraque, que abriga os monumentos mais importantes da antiga civilização assíria, requer imediata proteção, afirmam especialistas. O lugar foi aberto sem restrições ao turismo e está sofrendo estragos, concluiu uma expedição realizada pelo Projeto para uma Democracia Sustentável no Iraque (ISDP, sigla em inglês), com sede em Washington, destinada a avaliar a situação social, econômica e cultural do povo assírio e de outras minorias do Iraque. "Quando chegamos ao sítio, havia pessoas e excursionistas subindo por todos os lados, como se fosse uma trepadeira. Para nós, é patrimônio universal, nos diz quem somos, nos lembra de onde viemos e qual é nosso lugar na história", disse à IPS o diretor do ISDP, Michael Yousah.
O ISDP é um projeto especial da Sociedade Acadêmica Assíria, dos Estados Unidos, com membros em todo o mundo. o sítio arqueológico, também conhecido como Bavian, tem quase 2.700 anos de antiguidade e fica a nordeste da antiga cidade de Nínive, agora chamada Mosul, na margem oriental do rio Tigre. Khinnis é um ponto geográfico onde começaram os impressionantes progressos em engenharia dos assírios, cuja cultura remonta ao início da civilização na Mesopotâmia e que ainda sobrevive em parte em seus descendentes. Atualmente, existe uma minoria assíria no Iraque que pratica a religião cristã.
O atual sítio arqueológico foi parte de uma gigantesca construção ordenada pelo rei Sennacherib, que fundou a capital de seu império em Nínive no ano 706 antes de Cristo. A obra incluía um aqueduto pelo qual se irrigava o campo e a cidade. Um enorme relevo feito sobre a rocha do rei Sennacherib domina o rio Gomel. Nas laterais estão gravados numerosos símbolos antigos e inscrições cuneiformes que descrevem a vida cotidiana dos assírios e seu estreito vínculo com a água.
A delegação do ISDP não só constatou danos causados pelos turistas, que, entre outras coisas, arrancaram partes das esculturas, bem como buracos feitos por balas que, segundo os especialistas, demonstram que ali foi praticado tiro ao alvo. O ISDP também alertou que o sítio corre o risco de ser dinamitado. As autoridades locais curdas teriam ordenado a uma pequena empresa construtora utilizar dinamite para quebrar as rochas e criar abrigos do sol para os visitantes, segundo Firas Jatou, integrante da delegação.
O trabalho foi aprovado por Jarjis Hasan Khnnis, membro do comitê central do Partido Democrático do Curdistão, cujo principal dirigente é o presidente dessa região autônoma no Iraque, Massoud Barzani, disse Jatou. "Um dos empregados nos disse que, simplesmente, estava frazendo seu trabalho, que foi contratado para explodir a lateral da elevação para fazer sombra. Para eles, é um projeto público e não um genocídio cultural", disse Youash. "Este é outro exemplo de que nos consideram cidadãos de segunda classe. Destruir o sítio é mais um passo na limpeza étnica no norte do Iraque, nosso território ancestral", acrescentou.
Desde que a coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu o Iraque em 2003, os assírios cristãos que, em sua maioria vivem no norte do país, são alvo de ataques étnicos e religiosos. Várias fontes estimam que havia um milhão de assírios antes de seu êxodo para o estrangeiro em busca de segurança. "O Khinnis é um lugar belo e queremos que todo o mundo possa vir aqui e desfrutá-lo, mas merece o maior respeito. É impensável que não se proteja nem se conserve este patrimônio mundial", enfatizou Yoush.
"Os relevos têm um grande valor cultural e histórico, que testemunha como os assírios se relacionavam com Deus e com a natureza, e nos ilustra a relação que tinham com a humanidade e a água", disse à IPS o cientista McGuire Gibson, uma autoridade em arqueologia mesopotâmica do Instituto Oriental da Universidade de Chicago. Antes da guerra, o Iraque era um dos países onde mais se protegia e conservava as antiguidades em todo o mundo, disse Gibson. Até agora, o norte havia permanecido a salvo de saqueadores, em comparação aos sítios localizados no sul que foram bastante castigados, especialmente depois da invasão do Iraque.
"Centenas de sítios arqueológicos foram virtualmente destruídos por causa de escavações ilegais. Se forem eliminados os relevos de Khinnis, que permaneceram por milhares de anos, em nome do turismo ou de qualquer outra razão, será uma grande tragédia", alertou Gibson. A conservação destes locais no Iraque está a cargo da Junta Estatal de Antiguidades e Patrimônio, que deve ter sido consultada sobre as atividades em Khinnis. Na semana passada, Muzahim Mahmud e sua equipe do escritório da Junta em Mosul visitaram Khinnis para verificar a situação.
A delegação informou que o local foi dinamitado, mas as esculturas não sofreram danos, e, ainda, que os trabalhos se limitaram à construção de um caminho próximo em lugar de criar abrigo para excursionistas, disse o presidente da Junta, Donny George. Entretanto, "até onde sei, e pelo que vi em imagens, seguramente houve novas explosões, porque havia mais resíduos nas esculturas", disse George, concordando que as autoridades curdas deveriam tomar medidas urgentes. A nova Constituição do Iraque e a Lei de Antiguidades e Patrimônio de 2002 estipulam que os sítios arqueológicos e outras relíquias do Iraque são parte da riqueza do país e, portanto, responsabilidade do governo central, em colaboração com as províncias.
"É nosso dever proteger o patrimônio cultural do povo iraquiano, que também é patrimônio da humanidade para as próximas gerações. Mas não está funcionando a cooperação com as autoridades curdas que controlam a região norte. "Não respondem às nossas preocupações, e por isso queremos reordenar nossa relação", afirmou George. A melhor maneira de evitar que o sítio de Khinnis e as esculturas continuem sendo danificadas é colocar guardas, afirmou. Para isto "necessitamos que uma delegação maior se dirija ao norte, para impedir ações contra as antiguidades neste sítio e em outros da zona", acrescentou.
Entretant devido á delicada situação de segurança em Bagdá, é muito difícil neste momento proteger de saqueadores, atentados e qualquer outro tipo de danos os sítios arqueológicos, tanto do norte quanto do sul, reconheceu George. "A polícia especial da Junta também tem dificuldades em cumprir seu trabalho por carecer de veículos e sistemas de comunicação. É muito importante que a comunidade internacional apóie o Iraque, ao menos fornecendo automóveis e ajudando a melhorar a infra-estrutura petrolífera e de comunicações em todo o país", acrescentou. (IPS/Envolverde)

