Energia: Existe urânio para mais de um século, afirma AIEA e OCDE

Paris, 12/06/2006 – As reservas de urânio existentes no planeta são suficientes para garantir o fornecimento de energia nuclear durante 150 anos, assegura um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Ativistas contra a produção nuclear de eletricidade desacreditam a certeza do estudo da AIEA e da OCDE, que tem entre seus 30 membros todos os do Norte industrial. Os autores do relatório calcularam que nos próximos 85 anos será possível extrair 4,7 milhões de toneladas de urânio a pouco mais que seu preço atual, de US$ 130 por quilo. Mas sugerem que no planeta há mais urânio, cuja extração será mais cara. "Com base na evidência geológica e no conhecimento sobre urânio em fosfatos, mais de 35 milhões de toneladas estão disponíveis para a exploração", diz o documento.

O informe, intituloado "Urânio 2005: Recursos, produção e demanda", foi apresentado no último dia 1º em Paris por Luis E. Echávarri, diretor da Agência de Energia Nuclear da OCDE, e Yuri Solokov, subdiretor-geral da AIEA. Echávarri disse que os países produtores de urânio (entre eles Brasil, Níver, Austrália e Namíbia) informaram sobre novos depósitos desse material. "Provavelmente, há urânio suficiente para alimentar centrais nucleares durante os próximos 150 anos", disse Echávarri. "Em outras palavras, se qualquer país queiser iniciar um novo programa de energia nuclear para contar com outra fonte segura de energia ou por preocupações ligadas à mudança climática, os recursos de urânio não serão um fator limitante", acrescentou o especialista.

A energia nuclear é motivo de intensa controvérsia. Alemanha e Suécia decidiram eliminar paulatinamente suas centrais atômica, mas China, Estados Unidos, Finlândia, França, Grã-Bretanha e Índia, entre outros países, constroem, ou planejam construir, novos reatores. O relatório da AIEA/OCDE, também conhecido como "Livro vermelho" da evolução do mercado de urânio, afirma que "os contínuos avanços tecnológicos permitirão melhorar substancialmente os recursos de urânio. Estão sendo desenvolvidos e testados projetos de reatores capazes de extrair do urânio mais de 30 vezes a energia que os reatores atuais conseguem extrair", garante o informe.

Para que essas expectativas sejam atendidas, é necessário "um mercado de urânio contínuo e forte e preços elevados e sustentados". Isso significa que a construção de novos reatores é essencial para que se cumpra o prognóstico das agências. Os que se opõem à energia nuclear desprezam estes argumentos, os quais consideram mera propaganda para incentivar a construção de novos reatores. Stéphane Lhomme, da rede francesa não-governamental Sortir du Nucléaire (Sair do Nuclear), disse à IPS que "afirmações semelhantes foram feitas durante décadas".

Os técnicos que as difundiram tinham "a esperança de que os avanços tecnológicos em energia nuclear, como os denominados 'reatores rápidos realimentados?, proporcionariam urânio eternamente", disse Lhomme. Supõe-se que tais reatores produzem mais urânio do que consomem. Por isso, além de produzirem eletricidade, fornecem, proporcionam, teoricamente, um fornecimento prolongado de combustível nuclear. Mas também necessitam de um meio de refrigeração especial, que no momento ainda não foi desenvolvido. Até agora, segundo Lhomme, estes avanços técnicos foram um fiasco. "Embora a tecnologia de reatores rápidos realimentados tenha estado em uso durante décadas, nenhum reator deste tipo funciona regularmente hoje em dia", afirmou.

Reatores desta classe operam na Rússia, mas os custos de funcionamento os impedem de serem mais rentáveis. O reator rápido realimentado francês Sperphénix foi desligado em 1996 depois de mais de 10 anos de testes, vários acidentes importantes e sem ter produzido jamais um watt utilizável, assegurou Lhomme. Foi oficialmente fechado em 1998. Segundo dados oficiais, o reator custou mais de US$ 11 bilhões. Também deixou uma forte herança radioativa que ainda não foi eliminada, afirmam ativistas. Lhomme disse que estimativas independentes sobre as reservas de urânio variam de 50 anos a 150 anos. "Mas, se a produção de energia nuclear aumentar, digamos, 20%, os recursos de urânio durariam apenas duas décadas". Silva Herrmann, pesquisadora da organização ambiental austríaca Global 2000, disse que tais estimativas se baseiam em muitas projeções para serem precisas. "Se assumimos que a energia nuclear crescerá de modo linear a partir de 2010, os reatores nucleares do mundo que estiverem operando até 2030 terão consumido cerca de 4,5 milhões de toneladas de urânio. Isso representaria as reservas totais, hoje estimadas no Livro vermelho da AIEA/OCDE", afirmou.

Em semelhantes cenários, os reatores nucleares construídos depois de 2010 não seriam rentáveis. 'Ficarão sem combustível aproximadamente uma década antes da amortização do investimento necessário para sua construção", disse Herrmann. Além disso, acrescentou,a extração de urânio está associada a enormes riscos ambientais e sanitários. "Para obter 33 toneladas de urânio explorável como combustível nuclear devem ser extraídas 440 mil toneladas de mineral de urânio. No final do processo de mineração e transformação, pode-se usar menos de um por cento da quantidade total extraída originalmente. Mais de 99% do material extraído primeiro é lixo tóxico".

As conseqüências sanitárias deste exercício podem ser sérias, assegurou. "Como efeito colateral, a extração e o processamento de urânio produzem radônio, um gás cancerígeno". A presença média de radônio em países da Europa ocidental, como Alemanha, é de, aproximadamente 50 becquerels (unidade de atividade radioativa) por metro cúbico de ar, explicou Herrmann. "Em lugares onde há minas de urânio, a concentração de radônio chega a cerca de três mil becquerels por metro cúbico, indo, às vezes, até a cem mil", acrescentou. Na República Democrática Alemã, reunificada com a parte ocidental da Alemanha em 1991, onde as minas de urânio foram exploradas entre 1946 e 1990, mais de sete mil mineiros morreram de câncer de pulmão por contaminação com radônio, afirmou. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *