Colombo, 13/06/2006 – O fracasso dos esforços noruegueses para reunir em uma mesa de diálogo o governo do Sri Lanka e os rebeldes Tigres para a Libertação da Pátria Tamil (LTTE) parece ter estimulado ainda mais a violência neste país da Ásia meridional. Pelo menos 10 pessoas foram mortas em diversos episódios no final de semana, entre elas um soldado e um alto membro dos Tigres. As duas partes se acusam pelos crimes cometidos contra civis. O LTTE, condenado por várias organizações internacionais, incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), por recrutar à força crianças, responsabiliza Colombo pelas últimas vítimas.
"A natureza medonha dos assassinatos de meninos e meninas dá arrepios na espinha a qualquer um, especialmente aos que expressaram sua preocupação pelo bem-estar dos menores" no conflito, disse a organização rebelde em um comunicado. Na segunda-feira, para fundamentar suas acusações, o LTTE divulgou em seu site na Internet fotografias de uma família de quatro membros, incluindo um menino de 7 anos e sua irmã de 9, supostamente assassinada na semana passada pelo exército de Sri Lanka em Vankalai, no distrito de Mannar. Os rebeldes também publicaram uma lista de 24 crianças mortas pelas forças de Colombo.
Entretanto, um porta-voz do Ministério da Defesa negou o envolvimento dos militares com esses crimes, e disse que se trata de falsas acusações do LTTE para desviar a atenção de seus próprios crimes, como o recrutamento forçado de menores. Os Tigres realizam uma campanha violenta desde meados dos anos 70 com o objetivo de criar um Estado separado para a minoria tamil no nordeste do país. Até agora, mais de 6,5 mil pessoas morreram na guerra civil e cerca de 300 apenas desde dezembro. Setenta e quatro por cento dos 19,2 milhões de habitantes do Sri Lanka são da etnia cingalesa, 18% são tamis, 7% de origem árabe e 1% de vedas e malaios.
Delegados do governo e dos Tigres tinham previsto se reunir em Oslo na semana passada para discutir o papel da missão estrangeira que controla o cumprimento do cessar-fogo entre os dois lados, estabelecido em fevereiro de 2002, a Missão Observadora do Sri Lanka (SLMM), integrada por especialistas de países escandinavos. Mas no último momento, os rebeldes que viajaram à capital da Noruega decidiram não se reunir com a delegação de Colombo dizendo que esta não tinha representação ministerial. Dois dias antes do início previsto das conversas, uma mina terrestre explodiu perto de uma base naval das forças do governo, nas proximidades de Colombo.
A crescente violência alimenta o temor de que o cessar-fogo entre em colapso e se propague a violência sectária em todo o país. "O país caiu em uma situação na qual deve garantir a segurança dos observadores, antes da população. A trégua foi violada várias vezes, mas é o único instrumento que mantém o país intacto", afirmou N. Ananth, um tamil da cidade de Jaffna. Os esforços de paz noruegueses foram em parte barrados pela decisão da União Européia de incluir os Tigres em sua lista de grupos terroristas.
"A UE e os co-presidentes (do fórum de países doadores do Sri Lanka) deram ao povo tamil uma mensagem política indireta na qual pedem que forme um Estado separado", disse a publicação oficial dos Tigres em seu editorial. O LTTE também divulgou um comunicado em Oslo reafirmando seu plano de dar certa autonomia à zona tamil no contexto de um sistema federal, mas as negociações sobre seus detalhes estão em ponto morto desde abril de 2003.
O governo do presidente Mahinda Rajapakse expressou sua insatisfação com a SLMM e rejeitou um informe apresentado em Oslo pelo grupo de observadores sobre a segurança no país desde as últimas conversações de paz em janeiro. "O clima inicial de progresso mudou rapidamente, já que o governo de Sri Lanka não esteve disposto a colocar em prática todos seus compromissos e impediu a simples presença dos grupos armados em suas áreas. Além disso, se mostrou reticente em aceitar os pedidos do LTTE destinados a normalizar a situação", disseram os observadores.
Colombo criticou o relatório e alertou que "esses comentários mal feitos, que beiram a especulação, no melhor dos casos, poderia, levar o LTTE à violência e produzir o resultado que (o chefe do SLMM), Ulf Henricsson, está especulando". Por outro lado, uma facção rebelde dissidente aumenta os ataques contra os Tigres nas áreas sob seu controle. Este grupo é liderado pelo ex-chefe militar rebelde, Vinayagamoorthi Muralitharan, ou "Karuna", que segundo o LTTE contaria com apoio de Colombo. (IPS/Envolverde)

