Jerusalém, 16/06/2006 – O pedido de asilo a Israel de aproximadamente 200 refugiados sudaneses que cruzaram a fronteira desde o Egito para fugir do genocídio em Darfur cria um espinhoso problema moral para o Estado judeu, fundado por pessoas que fugiam do Holocausto nazista. No momento, as autoridades israelenses não ouvem os pedidos de asilo, mas isso é temporário. Destacadas figuras insistem em que o Israel não pode ignorar a difícil situação dos perseguidos no Sudão. Refugiados sudaneses, entre eles sobreviventes da carnificina que devastou a região de Darfur, foram presos nos últimos seis meses. Alguns tiveram sorte, sendo libertados e alojados em um kibbutz (fazendas coletivas), mas outros estão há meses em detenção administrativa, à espera de um julgamento.
Organizações israelenses de direitos humanos se encarregam de sua defesa, contudo o destino de todos eles, dos que estão nas prisões e nos kibbutz, ainda é incerto. Muitos dos refugiados que conseguiram cruzar a fronteira foram devolvidos ao Egito. Segundo a política de Israel de "retorno precipitado", esse é o destino de quem entrou no país há menos de 24 horas e esteja a menos de 50 quilômetros da fronteira. Os que não são devolvidos são detidos por entrar em Israel de maneira ilegal.
Os acusadores alegam que os sudaneses supõem uma ameaça por serem cidadãos de uma nação muçulmana que carece de relações diplomáticas com Israel e onde também operam células da rede terrorista Al Qaeda. Mas os tribunais descartam o argumento e por isso alguns foram libertados e levados a kibbutz até que surja uma solução alternativa. Os refugiados que não tiveram essa sorte permanecem na prisão sem serem julgados. A Suprema Corte de Justiça, a pedido de organizações de direitos humanos israelenses, determinou que o Estado deve encontrar uma solução que assegure aos presos o devido processo.
A Linha Direta para Trabalhadores Imigrantes, organização de ajuda a estrangeiros, e o Consultório Jurídico para os Refugiados da Faculdade de Direito da Universidade de Telavive pediram ao promotor-geral que declare ilegal a política de "retorno precipitado". Segundo estas instituições, tal política viola a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados da Organização das Nações Unidas, assinada por Israel. "O problema é que não existe cooperação com os egípcios", enfatizou há alguns dias o ministro do Interior, Ron Bar-On, perante o parlamento. "Houve casos em que devolvíamos e eles os enviavam novamente a Israel. Existe uma verdadeira queda de braço na fronteira", acrescentou.
Bar-On advertiu que Israel deve frear a onda de refugiados sudaneses iniciada há meses porque, do contrário, o país será inundado por asilados. Organizações de direitos humanos e destacadas figuras judias procuram fazer com que Israel trate com compaixão os refugiados sudaneses e lhes ofereça um lar, ainda que temporário. Avner Shalev, presidente do Museu do Holocausto Yad Vashem, enviou uma carta ao primeiro-ministro, Ehud Olmert, na qual lhe pede "que demonstre solidariedade" aos refugiados de Darfur. "Enquanto integrantes do povo judeu, para os quais a lembrança do Holocausto é um assunto candente, não podemos voltar as costas quando refugiados do genocídio de Darfur batem à nossa porta", escreveu.
Yehuda Bauer, estudioso do Holocausto que assinou uma petição levada à Suprema Corte de Justiça, disse que os refugiados deveriam se beneficiar do direito de asilo temporário até que lhes seja proporcionado alojamento em Israel ou outro país. Ao ser referir ao argumento de "país inimigo", Bauer lembrou que os judeus alemães que fugiam dos nazistas às vezes eram considerados "cidadãos inimigos" pelos países aliados na luta contra o regime de Adolf Hitler. O prêmio Nobel e sobrevivente do Holocausto, Elie Wiesel, pediu que Israel acolha os refugiados de Darfur. "Enquanto judeus, estamos obrigados a ajudar não somente os judeus", disse ao jornal Haaretz.
"Fui um refugiado e, portanto, sou favorável a recebê-los, considerei muito louvável que Israel tenha sido o primeiro país a aceitar "balseiros" vietnamitas. A história sempre escolhe uma capital para o sofrimento humano, e hoje Darfur é esta capital. Israel deve admitir os refugiados de Darfur, mesmo que em um quantidade simbólica" de pessoas, acrescentou. No final dos anos 70, o então primeiro-ministro Menachem Begin acolheu um grupo de 250 vietnamitas náufragos. Um barco israelense os resgatou depois de terem sido ignorados por navios da Alemanha Oriental, Japão, Noruega e Panamá. Ao conceder-lhes a cidadania, Begin recordou a difícil situação pela qual haviam passado os judeus que fugiam da Europa nazista.
O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) em Israel, Michael Bavly, declarou que sua agência trabalha junto às autoridades israelenses para encontrar uma resposta. "A primeira solução é que sejam realojados em um terceiro país. Posso dizer que a devolução ao Sudão é a única coisa que não vai acontecer", declarou Bavly. O legislador Haim Oron, do esquerdista e opositor partido Meretz, afirmou à IPS que não cederá em sua defesa dos refugiados até que recebam a permissão de entrar em Israel, "pelo menos até que a situação em Darfur se estabilize. De um ponto de vista moral, temos de ser especialmente sensíveis diante deste assunto. Trata-se de refugiados fugindo de um genocídio", acrescentou. (IPS/Envolverde)

