Washington, 01/06/2006 – Maio foi um mês ruim para os Estados Unidos no Afeganistão, de qualquer ponto de vista. Começou com a advertência de um comerciante do sul afegão ao comandante das forças norte-americanas, general Karl Eikenberry, registrada pelo jornal The New York Times: "O Talibã e a Al Qaeda estão por todo lado". Nas últimas semanas, quase 400 pessoas morreram em uma ofensiva sem precedentes, projetada pelo Talibã, segundo o especialista em assuntos afegãos, Ahmed Rashid, para impedir o envio de seis mil soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Esses efetivos deveriam substituir cerca de três mil efetivos dos Estados Unidos no sul do Afeganistão no próximo verão boreal.
Os combatentes talibãs sofreram as maiores baixas, em particular pelos ataques aéreos norte-americanos que também provocaram "danos colaterais": a morte de muitos civis. Isso obrigou o presidente afegão, Hamid Karzai, a reiterar suas exortações às forças estrangeiras no sentido de serem cautelosas. O mês terminou com os piores episódios de violência em Cabul desde a invasão liderada pelos Estados Unidos no final de 2001, em boa parte contra tropas desse país e seus aliados. Pelo menos 11 pessoas morreram em enfrentamentos de forças estrangeiras e afegãos com quem participavam de protestos pelo choque de um caminhão do exército dos Estados Unidos contra uma fila de automóveis em Cabul, acidente que fez cinco vítimas.
Washington atribuiu o acidente à falhas no freio do caminhão e se comprometeu a indenizar as vítimas e suas famílias, o que não impediu a reação violenta de centenas de pessoas que apedrejaram os soldados norte-americanos e saquearam lojas, hotéis e escritórios de organizações internacionais de assistência. Esses incidentes confirmaram que os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram ganhar a adesão de uma parte importante da população afegã. "Há um grande bolsão de descontentamento, e as pessoas procuram desculpas para manifestar sua ira", disse um diplomata ocidental em Cabul ao jornal norte-americano Christian Science Monitor.
"Há uma fúria subjacente no Afeganistão", disse Mark Schneider, diretor em Washington do centro acadêmico Grupo Internacional de Crise (ICG). Os estrangeiros neste país da Ásia central não conseguiram "por fim à insurgência, nem dar à população sinais de uma melhoria em suas vidas. Há muita gente insatisfeita por muitos motivos diferentes", acrescentou Schneider. Particularmente frustrante são a ampla brecha entre pobres e ricos (especialmente os que aproveitam o auge do narcotráfico), a persistente corrupção e a contínua insegurança, especialmente no sul do Afeganistão, onde os velhos senhores da guerra controlam a situação com a aquiescência dos governo de Karzai.
O fato de o governo central não ter conseguido desarmar ou desmobilizar as milícias dos senhores da guerra também pode ter incentivado o ressurgimento do Talibã, o movimento islâmico que controlou o país com mão de ferro entre 1996 até a invasão de 2001. O Talibã selou, segundo diversas versões, uma aliança com narcotraficantes que enfrentou durante seu regime, o que permitiu melhorar sua situação financeira e seu arsenal. Mas a "questão-chave", segundo Schneider, é o apoio paquistanês aos talibãs. "A razão principal pela qual a insurgência se mantém é que conta com um lugar para se reagrupar, descansar e reabastecer antes de se infiltrar novamente no Afeganistão", disse o especialista do ICG à IPS. Os bastiões do Talibã parecem estar em Quetta, cidade sob controle das forças armadas paquistanesas na província de Balochistão, acrescentou.
O Talibã conseguiu reunir várias brigadas de combate de até 300 homens e uma freqüência sem precedentes de atentados contra objetivos norte-americanos mediante ataques suicidas e artefatos explosivos improvisados. O ressurgimento islâmico parece ter forçado o governo de George W. Bush a rever seus planos de retirada do Afeganistão, segundo os quais as tropas norte-americanas deveriam ser reduzidas dos cerca de 20 mil soldados nos dois últimos anos para aproximadamente 16.500. Mas o envolvimento da Otan no Afeganistão também é motivo de controvérsia nos países de origem das futuras tropas.
O Talibã e a rede terrorista Al Qaeda "seguem de perto os debates nos parlamentos de toda a Europa sobre a presença de tropas no Afeganistão", afirmou Ahmed. "Consideram que infringir algumas poucas baixas e forçar o envio de cadáveres para capitais européias desatará uma escalada de protestos contra a retirada", acrescentou. Assim, a presença militar norte-americana no Afeganistão aumentou de 19 mil para 23 mil desde março. Qualquer redução das tropas dos Estados Unidos será vista como um sinal de fraqueza ou como o primeiro sinal de uma retirada total que deixará à própria sorte o governo de Karzai, segundo funcionários e especialistas em Washington.
"Fizemos grandes avanços no Afeganistão, e ninguém quer colocá-los em risco para atender algum prazo ou agenda externos", disse um "alto funcionário do governo" ao jornal The New York Times na semana passada. Como se não bastasse, eventuais avanços do Talibã nas próximas semanas poderão deixar em má posição o governo, já sacudido nas pesquisas de opinião pública, feitas nos Estados Unidos, por causa de uma avaliação negativa de sua eficácia no Iraque. "O Afeganistão é uma grande vitória da guerra contra o terror", disse à IPS um diplomata norte-americano aposentado. "Se esta vitória também ruir, as conseqüências políticas para Bush e seu Partido Republicano serão devastadoras. Enfrentemos: estamos bloqueados", disse.
Para Schneider e vários analistas em Washington, a chave para o governo é pressionar seriamente o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, para que feche as bases do Talibã no território de seu país. Os talibãs talvez tenham certo apoio militar entre os conservadores religiosos da etnia pashtun (patana), porém "não creio que a maioria deles queira ver a restauração de seu regime", no Afeganistão, disse o especialista. Porém, Rashid considerou que, para Musharraf e o exército paquistanês, "o Talibã seja uma força aliada de longo prazo no Afeganistão", sendo, por isso, improvável que o impeçam de operar em território paquistanês. (IPS/Envolverde)

