Monróvia, 08/10/2006 – Ellen Johnson-Sirleaf, economista formada pela universidade de Harvard, venceu as eleições realizadas em janeiro deste ano na Libéria, as primeiras desde que em 2003 terminou uma guerra civil de 15 anos somada a conflitos armados com países vizinhos e a sanções da Organização das Nações Unidas. É a primeira mulher que chega à presidência de um país africano. Como resultado da guerra civil, a Libéria é hoje um dos países mais pobres do mundo, com expectativa de vida de 42 anos e renda anual per capita de US$ 130.
À frente do governo da república mais antiga da África, fundada em 1847 por escravos libertados dos Estados Unidos e do Caribe, Johnson-Sirleaf fala com franqueza, nesta entrevista exclusiva, dos desafios que enfrenta: um país armado até os dentes, na ruína econômica, com escassez de alimentos, água e eletricidade e com milhares de crianças-soldado.
Quais as suas prioridades mais urgentes? Neste momento tentamos consolidar o processo de paz e colocar nossas finanças e nossa casa em ordem para que a máquina governamental possa operar com eficiência. Formulamos uma agenda muito ambiciosa para o desenvolvimento, a fim de restaurar as infra-estruturas, redes viárias, escolas, hospitais etc. Consideramos prioritária a educação, já que muitos de nossos jovens não puderam ir à escola durante anos por causa do conflito. Ao mesmo tempo, nos esforçamos para recuperar nossa imagem internacional, de modo que a Libéria não continue sendo vista como um lugar de morte e destruição, mas como um país confiável, tanto em relação aos nossos vizinhos quanto em nível internacional. Trabalhamos com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional para nos dotarmos dos instrumentos para resolver nossos principais problemas.
Em quais áreas considera que a cooperação internacional é mais necessária? A cooperação internacional é vital para nós já que, por mais que nos esforcemos, nossos recursos continuam muito limitados. Serão necessários anos de sacrifícios para que nossa economia cresça novamente, para sermos capazes de satisfazer todas nossas necessidades. Em particular, nos interessa receber ajuda nas áreas de infra-estrutura e reconstrução do sistema educacional, especificamente para as escolas técnicas e vocacionais, já que temos muitos jovens que foram afetados pela guerra, como combatentes ou vítimas, que estão desempregados… agora mesmo nas ruas. De fato, o desemprego é um de nossos maiores desafios: 85% da força de trabalho atual está desempregada. Nosso setor privado havia deixado de funcionar, já que a maioria das companhias que operavam na Libéria partiram.
São muitos os doadores que tendem a reagir, quase sempre, diante de situações de emergências, em lugar de seguir uma política de cooperação para o desenvolvimento a longo prazo, mas, agora prevalece a idéia que se torna chave para o desenvolvimento dos países. A senhora acredita em uma aliança Norte-Sul para esse propósito?
Certamente. Mas pensamos que a cooperação para o desenvolvimento tem de mudar de enfoque. A ajuda humanitária e os recursos destinados para a manutenção da paz onde surgem conflitos custam mais do que a prevenção desses conflitos, do que utilizar esse dinheiro para criar postos de trabalho e abrir escolas nesses países. Queremos ver na África nossas próprias fábricas produzindo e gerando empregos. Se um país muito pobre não é ajudado adequadamente, as pessoas o abandonam em busca de oportunidades em outro lugar. Não se pode deter os que desejam encontrar meios para sua própria sobrevivência. Assim sendo, a melhor solução é trabalhar com esses países para que as pessoas possam viver e trabalhar em seu entorno imediato. Digo aos nossos interlocutores do Norte: não queremos que os dêem bolsas de estudos em suas escolas; ajudem-nos a construirmos nossas próprias escolas. Devemos mudar nossas formas de pensar sobre o desenvolvimento!
Uma aliança para o desenvolvimento implica um desafio fundamental: o acesso das exportações dos países em desenvolvimento aos mercados das nações industrializadas através da supressão do protecionismo. A Rodada de Doha lidou com essa questão durante quase cinco anos, sem resultados. É possível impulsionar o desenvolvimento no Sul e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio através da redução do protecionismo? Nós dizemos “comércio, não ajuda”. Pensamos que a ajuda pode diminuir na medida em que nossas economias se fortaleçam mediante a obtenção de mercados para suas exportações. Este é o caminho para um desenvolvimento sustentável. Necessitamos que nossos sócios do Norte façam o possível para que nossos países, com base em nossas vantagens comparativas, tenham acesso aos seus mercados e, dessa maneira, consigamos divisas para financiar as importações de produtos e meios de produção que precisamos. Mas não queremos perpetuar nossa condição de meros exportadores de matérias-primas. Também desejamos agregar valor às nossas matérias-primas, de modo a conseguir um intercâmbio comercial equilibrado.
Já foi gasto mais de um terço do prazo previsto para que sejam alcançados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Como a senhora avalia os resultados obtidos até agora pela Libéria, e, também, o que a comunidade internacional deve fazer para atingir a tempo essas metas? No caso da Libéria, estamos muito atrasados por causa de nossa situação, da guerra, da sucessão de governos transitórios e outros fatores negativos. Mas a Libéria vai se erguer um dia. Não estou certa se seremos capazes de cumprir todas as metas até 2015, porque só nos restam nove anos para terminar o prazo. Mas vamos acelerar o ritmo. Agora, por que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio não estão sendo cumpridos em tantos países? Porque é fácil estabelecer as metas, mas os recursos necessários para cumpri-las não são suficientes. Porque acelerar o ritmo do desenvolvimento para chegar a 2015 com os resultados prometidos requer muito mais dinheiro do que o disponível, que os recursos sejam cuidadosamente calculados em relação aos objetivos e distribuídos a tempo. (IPS/Envolverde)

