França: Invasão de gafanhotos italianos e outras pragas

Paris, 08/10/2006 – A Borgonha já não é sinônimo de vinhos e paisagem colorida para os agricultores desta região da França, agora devastada pelo gafanhoto Calliptamus italicus. Mas esta praga não é a única conseqüência da mudança climática que afeta o país. A origem deste gafanhoto é italiana, mas agora a França seria sua residência de verão, este ano mais do que outros. “Neste verão o gafanhoto italiano atacou todo o verde que existe na Borgonha, e, também, flores, milharal e até urtigas”, disse à IPS o diretor Bernard Lacour da federação regional de agricultores. O diretor da agência para a proteção de vegetais, Jean-Claude Richard, disse que os produtores observam uma “proliferação espetacular de Calliptamus italicus em várias áreas da Borgonha e a conseqüente destruição em massa de jardins, pradarias e campos”.

Os ambientalistas asseguram que o aquecimento global é responsável pelo movimento do gafanhoto para o norte, da Itália para a França, e mais ao sul. A praga italiana se deslocou para a Borgonha “devido ao calor extremo, os verões secos e os invernos longos e frios que tivemos nos últimos anos”, disse à IPS a entomologista Monique Prost, do Museu Cientifico de Dijon, no centro da Borgonha. “Este ano, já na primavera, as temperaturas foram mais quentes que o normal e a larva do gafanhoto pôde se desenvolver bem”, explicou. O clima “reduziu a mortalidade normal da larva, produzindo uma explosão demográfica de insetos”, acrescentou. O especialista em ortópteros Jean-François Duranton, do Centro de Cooperação Internacional de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, com sede em Montpellier, confirmou a análise de Prost.

“Esta praga é um bom indicador do desequilíbrio ecológico causado pelo aquecimento global. Temo que veremos com maior freqüência no futuro este tipo de proliferação devido ao clima mais quente e seco”, afirmou Duranton, para quem o risco de proliferação do gafanhoto e sua migração em busca de um novo habitat apresenta três aspectos. “Enquanto essa praga se expande por todo o mundo, os especialistas afirmam que os gafanhotos e grilos são espécies em perigo de extinção. Em terceiro lugar, a pesquisa ecológica em assuntos relacionados a estes fenômenos não á uma prioridade na agenda internacional”, afirmou.

O especialista explicou que a praga do gafanhoto do deserto atingiu muitos países no período 1998-1999 e novamente em 2004, a partir do Marrocos, da Mauritânia e do Senegal, na África ocidental, para Egito e Arábia Saudita, mais a leste. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informou que o valor dos cultivos destruídos por estes insetos chega a cerca de US$ 3 bilhões. Atualmente, os agricultores franceses enfrentam muitas outras pragas incomuns, além do gafanhoto italiano. Na região da Bretanha, na costa atlântica, as algas marinhas locais “goémon” (em francês, pertencentes aos gêneros Fucus e Ascophyllum) estão desaparecendo. Estas plantas são consideradas vitais para o ecossistema marinho da região.

“As rochas da costa, onde as algas costumam ser abundantes, estão lisas”, disse à IPS Auguste Le Roux, pesquisador aposentado que trabalhou na estação de pesquisa marinha e biológica situada na ilha Bailleron, no golfo de Morbihan. Por sua vez, o biólogo Sylvain Chauvaud utilizou imagens obtidas via satélite para mostrar como as algas desaparecem. Ele descobriu que “em muitos pontos desapareceram mais de 65% das goémon”, disse à IPS. Por outro lado, o biólogo marinho Patrick Le Mao, do Instituto de Pesquisa Marinha Francês, afirmou que o aquecimento global está por trás desta mudança. “A água do mar agora está mais quente do que há dois anos, e isso mata as algas Fucus e Ascophyllum”, afirmou.

A temperatura maior da água também estimula o surgimento de outra flora marinha que reduz a luz, essencial para o desenvolvimento da goémon. “Também crescem mais do que antes alguns moluscos que se alimentam de flora marinha, e o esse consumo maior provoca seu desaparecimento”, disse Mao. O desaparecimento da goémon representa um perigo para a biodiversidade marinha local porque são algas fundamentais para a complexa cadeia alimentícia, que envolve um grande número de espécies sobre as quais existe um grande interesse econômico, explicou o biólogo. “Mesmo assim, é difícil estabelecer um vínculo claro entre os dois fenômenos, existe uma longa cadeia de mudanças que afetam o meio ambiente da Bretanha”, ressaltou.

Também causam preocupação as mudanças observadas nas florestas francesas. O clima quente dos últimos anos provocou a decomposição de árvores como álamo, carvalho e haya, segundo o departamento florestal do Ministério da Agricultura da França. Jean-Luc Dupouey, diretor do Laboratório de Ecologia e Fisiologia Florestal, do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas (Inra), da França, disse que as árvores podem se adaptar às mudanças climáticas, mas somente até certo ponto. “Em época de seca, as árvores podem regular seu consumo de água fechando seus estomas para reduzir o intercâmbio com o ambiente, ou perder prematuramente suas folhas”, explicou Dupouey à IPS.

“Este tipo de adaptação permite que as árvores tolerem as dificuldades impostas pelo clima e, assim, prolonguem sua vida”. Mas não podem resistir se as crises são muito freqüentes, acrescentou. “Se as secas se repetem todos os anos, as árvores gastam suas reservas de carbono e, a longo prazo, morrem porque esgotam seu próprio capital biológico que não se renova todos os anos”, ressaltou Dupouey. Além disso, esse tipo de adaptação às mudanças ambientais tem conseqüências globais a longo prazo. “Ao fechar seus estomas, as árvores reduzem seu consumo de carvão e, assim, diminuem sua captação de gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono”, ressaltou o especialista. O Ministério da Agricultura informou que as florestas francesas reduziram sua captação de gases que causam o efeito estufa em mais de 30% nos últimos anos. (IPS/Envolverde)

Legenda: gafanhoto italiano, Calliptamus italicus

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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