Colômbia: Fumigação antidroga prejudica agricultura legal

Nova York, 08/10/2006 – Se não for suspensa imediatamente a fumigação aérea antidrogas na Colômbia, as comunidades indígenas locais pagarão um alto preço ambiental e econômico, alertou a Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente, dos Estados Unidos. Um informe de 23 páginas, elaborado por esta entidade, com sede em Oakland, na Califórnia, documenta numerosos casos de danos à saúde humana, destruição de plantações e contaminação da água em conseqüência de seis anos de fumigação aérea incentivada pelo governo norte-americano. Estas operações são parte do Plano Colômbia, um programa de assistência de Washington ao governo desse país dotado de milhares de milhões de dólares, que tem entre seus objetivos reduzir o consumo de drogas entre a população norte-americana.

Após lançar durante anos substâncias tóxicas sobre plantações de coca, os Estados Unidos e a Colômbia não conseguiram reduzir a produção dessa matéria-prima da cocaína, que se mantém relativamente estável, segundo o estudo “Estratégias de desenvolvimento alternativas: a necessidade de ir além da fumigação de plantações ilegais”. A área de cultivos de coca era estimada em cerca de 163 mil hectares em 2000. Hoje, são menos de 144 mil hectares, segundo pesquisadores que se basearam em fontes independentes e oficiais. “A fumigação aérea é completamente ineficaz e contraproducente”, disse á IPS Anna Cederstav, diretora de programa na Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente.

Os autores do estudo dizem que quase 90% das fazendas afetadas por esta prática se dedicavam à produção legal de frutas, vegetais e café orgânico, e não de coca. Até agora, nenhum agricultor foi compensado pelos prejuízos. Além disso, propriedades apoiadas pela Agência Internacional para os Desenvolvimento (Usaid), dos Estados Unidos, e pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (Unodc), através de programas de cultivos alternativos para os plantadores de coca, também foram prejudicadas pela fumigação indiscriminada. Em maio e junho do ano passado, por exemplo, a fumigação prejudicou agricultores legais que pagaram um alto preço por certificações de agricultura orgânica para exportação.

O estudo ressalta que, em muitos casos comunidades indígenas e negras não foram consultadas pelas autoridades responsáveis pela fumigação, embora as leis colombianas e internacionais assim exijam. Especialistas afirmam que comunidades indígenas apóiam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que enfrentam o governo e as milícias paramilitares de direita há 40 anos. Tanto as Farc quanto os paramilitares negam participar do comércio ilegal de coca e cocaína para os Estados Unidos e a Europa, como afirmam numerosos observadores.

O informe destaca a falta de resultados do programa de fumigações e os sucessos comprovados dos projetos de desenvolvimento comunitário. “Na Colômbia existem programas com bons resultados para erradicar cultivos ilícitos que não têm custo econômico, social, ambiental e sanitário tão alto quanto a fumigação”, disse Rafael Colmenares, diretor da Ecofondo, rede que representa mais de 130 organizações ambientais nacionais. Para ele, “são estes programas que deveriam ser apoiados, pois podem gerar uma solução real e duradoura para o problema”.

Entre os projetos alternativos sugeridos no estudo figuram um sistema sustentável de conservação e manejo ambiental baseado na participação comunitária e em programas voluntários de erradicação da coca apoiados pela Organização das Nações Unidas. O estudo faz um cálculo da relação custo-benefício das fumigações: entre 2000 e 2005 foram investidos US$ 1,2 bilhão para fumigar mais de 713 mil hectares de cultivos de coca e papoula, mas com isso só se conseguiu reduzir em 26 mil os hectares cultivados.

Por outro lado, no mesmo período foram gastos US$ 213 milhões em programas de desenvolvimento alternativo com os quais se conseguiu “proteger ou erradicar com sucesso cultivos ilícitos de 1,6 milhão de hectares”. O informe exorta os governos dos Estados Unidos e da Colômbia, bem como a ONU, a aumentar seu apoio a projetos alternativos para eliminar o cultivo de drogas ilícitas. “Estamos convencidos de que a implantação imediata de programas alternativos, sustentáveis e participativos podem gerar soluções reais ao complexo problema dos cultivos ilegais”, disse Astrid Puentes, diretora legal da Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente. “Continuar fumigando enquanto se ignora os programas que proporcionam alimentos e trabalho aos pobres das áreas rurais intensificará a crise colombiana e terá sérios impactos ambientais”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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