Nova Délhi, 08/10/2006 – Os chefes de governo do Brasil, da Índia e da África do Sul vão explorar no próximo mês, em Brasília, a possível cooperação nos setores da indústria aeroespacial e energia atômica, bem como a colaboração econômica Sul-Sul em geral. Os três países competem com diversos produtos e serviços nos mercados mundiais e o aumento do comércio entre eles é dificultado pelas distâncias, mas as oportunidades nessas duas áreas, de alto valor agregado, são muito boas, segundo analistas. Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Thabo Mbeki, da África do Sul, mais o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, tentarão chegar a um acordo trilateral de livre comércio no dia 13 de setembro.
O tratado também incluiria Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezula) e a União Aduaneira da África Austral (UAAA, formado por Botswana, Lesoto, Namíbia, África do Sul e Swazilândia). Os chanceleres de Brasil, Índia e África do Sul se reuniram em junho de 2003, em um encontro que se transformou em uma iniciativa formal, com instâncias cumpridas em Nova Délhi (2004), Cidade do Cabo (2005) e no Rio de Janeiro (2006). As expectativas de crescimento do comércio entre Índia, Mercosul e UAAA nos próximos anos são consideráveis.
O comércio entre Brasil, Índia e África do Sul equivale a apenas 2% da soma do intercâmbio entre os três países. Nenhum deles fica entre os 10 primeiros sócios comerciais dos outros dois. Mas, o comércio entre eles e seus respectivos blocos regionais aumentou muito nos últimos anos. O intercâmbio entre Índia e Mercosul mais do que duplicou entre 2001 e 2005, passando de menos de US$ 1 bilhão para US$ 2,3 bilhões. Além disso, o fluxo comercial entre Índia e África do Sul aumentou 133% no mesmo período, subindo de US$ 1,3 bilhão para US$ 3,1 bilhões. Especialistas calculam que o comércio entre os três países pode chegar a US$ 10 bilhões em 2007.
Representantes de quatro instituições acadêmicas e organizações governamentais dos três países concluíram em um encontro em Nova Délhi que obteriam grande proveito da cooperação mútua no setor da indústria aeroespacial. Da reunião participaram o Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (Saiia) e Negócios Unidos da África do Sul (Busa), Consumer Unity & Trust Societh (Cuts), da Índia, e Instituto de Estudos de Comércio e Negociações Internacionais (Icone), do Brasil. “A idéia original da colaboração entre os três países foi o desejo de reformar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, mas depois foi ampliado e se transformou em uma iniciativa econômica”, disse à IPS Peter Draper, diretor do programa Desenvolvimento Mediante o Comércio, do Saiia, com sede em Johannesburgo.
“Os três países têm democracias consolidadas, desenvolvimento comparável e enfrentam os mesmos problemas de pobreza”, disse o diplomata Mbulelo Rakwena, encarregado da ligação com a América Latina e o Caribe dentro do Ministério das Relações Exteriores da África do Sul. Devido aos “altos e baixos históricos na cooperação Sul-Sul”, Rakwena tem esperanças de que a iniciativa de Brasil, Índia e África do Sul “não degenere em uma conversa de lugares comuns” ou se transforme e um exercíio de “mero intercâmbio político vazio”.
O presidente da Busa, Jerry Vilakazi, disse que apesar das muitas declarações a favor da cooperação Sul-Sul, “os países em desenvolvimento se sentem muito mais cômodos comercializando com nações do Norte industrial, incluindo as antigas potências coloniais”. Um dos obstáculos para o intercâmbio comercial entre os três países é o alto custo do transporte, pois as cargas procedentes do Brasil, da Índia e da África do Sul devem, primeiro, seguir para a Europa, devido à escassez de tráfego. Além disso, é mais barato viajar da Índia para os Estados Unidos do que para o Brasil, apesar de este país estar mais perto.
Os três países são aliados nas negociações da Organização Mundial do Comércio, apesar de competirem pela exportação para os países industriais de couro, vestuário e produtos agrícolas, como algodão e açúcar. Ao mesmo tempo, estão em condições de cooperar nos setores biotecnológico, farmacêutico e nas operações de mineração e etanol, além da indústria aeroespacial. As relações de investimento entre os três países são escassas. A empresa farmacêutica indiana Ranbaxy está no Brasil e na África do Sul, e as montadoras Tata Motors e Mahindra Group investiram na África do Sul. Por sua vez, a Índia recebeu investimentos da maior empresa de diamantes sul-africana, a De Beers, e da principal companhia do ramo de bebidas, a SAB Miller.
Mas não existem empresas brasileiras na Índia ne na África do Sul. O Brasil é o segundo destinatário do investimento estrangeiro direto, atrás da China, por isso chama a atenção a ausência de Índia e África do Sul em território brasileiro. O idioma dificulta as relações econômicas entre os três – na Índia é difícil encontra tradutores de português, mas não de espanhol.A verdadeira barreira é a falta de conhecimento mútuo. Uma pesquisa da Saiia, Cuts e Icone deixou em evidência o desconhecimento por parte dos empresários das três nações sobre as iniciativas de cooperação.
Entretanto, existe consenso de que assim como a África do Sul é um centro comercial no continente africano e o Brasil é para a América Latina, a Índia também pode se constituir em um pólo de atração econômica e comercial para os sete países da Associação de Cooperação Regional da Ásia do Sul (Saarc). Esta entidade é formada por Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka. A indústria que melhor expressa a cooperação entre os três países, apesar das restrições logísticas, é a aeroespacial, disse à IPS o analista político Pranav Kumar, da Cuts. “A Índia tem uma sólida indústria aeronáutica de passageiros e a África do Sul os supera em conhecimentos de eletrônica aplicada à aviação”, disse Kumar.
Mario Marconini, da Icone, lembrou que os aviões figuram entre as principais exportações do Brasil, com faturamento de US$ 2 bilhões ao ano. “É necessário que especialistas dos três países se juntem para analisar a melhor forma de instrumentalizar a cooperação técnica”, afirmou. A colaboração nesse setor beneficiará muito os três países, pois a indústria internacional aeroespacial cresce 25% ao ano. Outra possível área de cooperação é a da energia nuclear civil, que terá grande impulso com o acordo assinato entre Estados Unidos e Índia. O Brasil e a África do Sul integram com outros 43 países, o Grupo de Fornecedores Nucleares (GPN) e apoiaram a eliminação de restrições ao fornecimento de combustível nuclear para a Índia, que não é signatária do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. (IPS/Envolverde)

