Cuba: A “transição” de Castro

Havana, 06/10/2006 – O presidente de Cuba, Fidel Castro, dedicou seu discurso mais esperado de cada ano a contrapor os êxitos dos programas sociais de seu governo às propostas de transição para a ilha aprovadas por seu colega dos Estados Unidos, George W. Bush. Avançar para “um mundo mais justo”, com uma base educacional sólida, é a única “transição” possível para Castro que, 18 dias antes de completar 80 anos, evitou os ataques encarniçados contra Washington pela última posição rígida de sua política em relação à Cuba.Castro falou por mais de duas horas na manhã desta quarta-feira, no ato central pelo Dia da Rebeldia Nacional. Todo 26 de julho o governo cubano recorda o ataque ao quartel Moncada, marco do início do movimento de insurreição que desembocou no triunfo da Revolução Cubana, em 1º de janeiro de 1959. Granma, a província-sede dos festejos deste ano, localizada no extremo leste do país, “não precisa de nenhum plano de transição ianque para alfabetizar, vacinar e cuidar da saúde da população”, afirmou o presidente, convencido de que Cuba possui hoje “o que mais de 40 milhões de norte-americanos não têm”.

Conhecido também como “o plano Bush”, o programa de Washington para uma transição política na ilha de regime socialista data de maio de 2004 e foi complementado no último dia 10 deste mês por um novo informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre. Entre suas propostas mais polêmicas está a criação de um fundo de US$ 80 milhões para apoiar a sociedade civil cubana nos próximos dois anos. A esse primeiro aporte, destinado exclusivamente a organizações de oposição, pretende-se somar não menos de US$ 20 milhões anuais até a “queda” do atual regime liderado por Castro.

O texto propõe rastrear o destino de exportações cubanas, proibir o envio de remessas por terceiros países, limitar as viagens de setores religiosos e revisar as regras de exportação de equipamentos médicos norte-americanos para a ilha a fim de não serem usados nos programas cubanos de saúde em outros países. Além disso, o plano dos Estados Unidos sugere criar um fundo de trabalho para garantir melhor aplicação das sanções econômicas, impostas à Havana há mais de quatro décadas, formar uma coalizão de países para fomentar a transição em Cuba e contatar nações doadoras e instituições multilaterais de crédito para criar um “fundo multimilionário” de apoio a um futuro governo democrático.

As novas medidas se somam a um amplo pacote aprovado em 2004, que incluiu a redução significativa dos contatos entre imigrantes cubanos nos Estados Unidos e suas famílias na ilha, maior controle sobre as viagens de norte-americanos à Cuba e a nomeação de um Coordenador de Transição em Cuba, no Departamento de Estado em Washington. Na prática, os dois primeiros anos do planos Bush afetaram, sobretudo, a família cubana, que sofreu severamente o impacto da redução das remessas de dinheiro e de uma taxa imposta ao câmbio do dólar na ilha, com resposta a essas medidas dos EUA.

Agora, setores da sociedade civil, como o Conselho de Igrejas de Cuba (CIC), vêem ameaçadas as possibilidades de receber ajuda humanitária de entidades afins radicadas em território norte-americano por serem considerados no novo informe como “controlados pelo Estado”. Dizer que o CIC é controlado pelo governo de Castro “é um desconhecimento intencional do histórico trabalho das igrejas cubanas e do Conselho”, disse à IPS a reverenda Rhode González, presidente dessa instituição religiosa e pastora da Igreja Cristã Pentecostal.

Contra isso também se pronunciaram representantes dos setores moderados da oposição cubana, como Manuel Cuesta Morúa, do Arco Progressista, para quem a oferta de US$ 80 milhões dá razões para que o governo cubano afirme que todos os dissidentes estão financiados pelos Estados Unidos. Sem aprofundar nesta questão no conflito que separa Havana de Washington desde 1959, Castro enumerou alguns indicadores que mostram o nível de vida alcançado nas últimas décadas pela população da ilha, de mais de 11,2 milhões de habitantes, sobretudo na área da saúde.

Segundo o presidente, 99,% dos partos são atendidos em instituições de saúde, a mortalidade infantil continua caindo abaixo de seis mortes para cada mil nascidos vivos, a expectativa de vida ao nascer chega a 77 anos e cada vez mais há pessoas com idade centenária. “Que os vizinhos do norte não se preocupem, porque não pretendo exercer meu cargo até os cem anos”, brincou Castro. “Falta, sem dúvida, uma transição”, acrescentou, o mesmo tom. “Não se pode suportar” que a esperança de vida em uma “ilhota bloqueada” economicamente pelos Estados Unidos há mais de quatro décadas seja 1,2 ano maior do que a média dos países industrializados, disse o presidente cubano. (IPS/Envolverde) * Com a colaboração de Orlando Matos.

Correspondentes da IPS

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