Havana, 08/10/2006 – Os atabaques da religiosidade de origem africana soaram mais do que de costume nos últimos dias em Cuba, entrecruzando com as orações de católicos, evangélicos e protestantes. O pedido unânime é preservar a paz e a tranqüilidade no país, depois do afastamento temporário, em 31 de julho, do presidente Fidel Castro, que, segundo informações de pessoas próximas a ele, se restabelece “satisfatoriamente” da operação a que foi submetido por causa de uma hemorragia intestinal, conforme as escassas informações oficiais.
“Muitas pessoas religiosas têm medo pelo futuro. Se preocupam e vêm perguntar ao padrinho: O que vai acontecer? O que se vai fazer?”, disse à IPS Victor Betancourt, “babalaô”, sacerdote da religião afro-cubana conhecida como Culto de Ifá, de grande apego popular entre os 11,2 milhões de habitantes da ilha. E o que você responde?, perguntei. “Respondo que não há alteração de nenhum tipo, tudo está tranqüilo e nada vai acontecer com eles, mas de todo modo vamos nos precaver. Só o que temos para nos proteger são nossas divindades”, afirmou.
O homem garantiu ter muitos “afilhados” e conhecer de perto “a opinião” de muitas pessoas. “Em ninguém existe a intenção de violência nem alteração. Isso se nota em nossas casas religiosas. O que há é um sentimento de dúvida, preocupação pela situação crítica deste momento diante da doença do presidente”, acrescentou. Por trás de sua voz, os atabaques clamavam Obatalá – divindade do culto yorubá que representa Olodumaré (o Supremo) na Terra – que mantenha a tranqüilidade e a estabilidade. Da cerimônia participam cerca de 20 babalôs. “Buscamos a força da invocação, por isso trabalhos de forma coletiva”, explicou Betancourt.
No domingo também houve rezas em todos os templos católicos do país, e na noite de segunda-feira, uma semana depois do anúncio da doença de Castro, as orações inundaram a Catedral da Santíssima Trinidade, da Igreja Episcopal de Cuba, à qual se uniram crentes de diferentes denominações protestantes. Entretanto, o país continua sem ter conhecimento de novos boletins médicos sobre a evolução de saúde de Fidel Castro, e seu irmão mais novo, Raúl, de 75 anos, que recebeu do presidente, provisoriamente, sues principais cargos e funções, continua sem abandonar seu costume de permanecer nos bastidores e evitar aparições públicas.
“Raúl se dirigirá ao país quando julgar conveniente”, ressaltou o presidente da Casa das Américas, Roberto Fernández Retamar, ao apresentar na segunda-feira, junto com a socióloga belga François Houtart, uma carta na qual “intelectuais do mundo” exigem que “o governo dos Estados Unidos respeite a soberania de Cuba”. Castro declarou “segredo de Estado” as informações sobre sua saúde, embora o jornal oficial Granma tenha destacado na terça-feira, em primeira página, declarações feitas na Colômbia pelo vice-presidente Carlos Lage, segundo as quais o presidente “avança em uma recuperação positiva”.
Na segunda-feira, o mesmo jornal, órgão oficial do governante e único Partido Comunista de Cuba, deu a entender algo semelhante, embora em um elíptico informe de cinco parágrafos. “Há algumas horas, um amigo, após estar com o Comandante e impressionado com sua recuperação, nos disse ‘é um Caguairán!”, afirmou o Granma. No parágrafo seguinte, explicou que caguairán é uma árvore de madeira dura e resistente, a ponto de na região ocidental de Cuba ser conhecida como “quebra-machado”. No entanto, o jornal não disse quem era o “amigo”.
Mais além das rezas e das orações e sob um forte calor de agosto, a vida cotidiana transcorre em uma calma que alguns qualificam da mais normal do mundo, mas para outros é apenas aparente e cheia de expectativas quanto ao futuro. “Sinceramente, me parece que as pessoas se voltaram aos seus problemas diários de sobrevivência, procurando encontrar um meio de aumentar sua renda, porque o salário não é suficiente, ou como ir um dia que seja de férias à praia, apesar do deficiente transporte público”, disse uma jornalista cubana que pediu para não ser identificada.
Em sua opinião, a normalidade tem muito a ver com o fato de “dentre todos os cenários possíveis, o que se vive é o menos traumático”. Sua apreciação se relaciona com os sinais oficiais sobre a recuperação de Castro, mas também com a passagem ordenada e sem “surpresas” das rédeas do governo à equipe liderada por Raúl. De acordo com o artigo 94 da Constituição cubana, “Em caso de ausência, enfermidade ou morte do presidente, deve substituí-lo o primeiro-vice-presidente”, cargo que pertence a Raúl Castro, juntamente com o de segundo secretário (depois de Fidel) do Partido Comunista de Cuba (PCC) e ministro das Forças Armadas Revolucionárias.
Fidel Castro também designou tarefas consideradas estratégicas a um grupo de dirigentes que, de alguma maneira, representam diferentes gerações e confirmariam o conceito de direção coletiva que sucederia o presidente cubano, perto de completar 80 anos. “Foi um ensaio geral da sucessão com Fidel em vida. Foi assim que vi desde o princípio”, disse o professor Manuel Díaz. No entanto, para um antigo combatente da luta guerrilheira que levou Castro ao poder em 1959, “estes dias serviram para comprovar o dispositivo de defesa do país. Ninguém sabe o que poderia acontecer com os vizinhos do norte (Estados Unidos) tão interessados em uma transição à sua imagem e semelhança neste país”, afirmou a fonte.
Uma proposta de Washington para uma transição política do regime socialista cubano, ampliada no dia 10 de julho por um novo relatório da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, prevê a criação de um fundo de US$ 80 milhões para apoiar a sociedade civil cubana nos próximos dois anos, exclusivamente para aquelas organizações contrárias ao governo de Fidel Castro. A Casa Branca descartou de cheio uma intervenção militar em Cuba e exortou o povo cubano a “trabalhar por uma mudança democrática na ilha”. (IPS/Envolverde)

