Buenos Aires, 08/10/2006 – O uso de drogas entre os jovens da América Latina é um problema real ou um fantasma? Existe uma brecha entre a percepção social do fenômeno e sua verdadeira magnitude? Não existirá um deslocamento do mal-estar social para as drogas e a juventude? Estas perguntas, provocadoras, foram feitas pelo filósofo chileno Martín Hopenhayn, pesquisador da divisão de Desenvolvimento Social da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) durante a IV Conferência Nacional sobre Políticas de Drogas, encerrada sexta-feira em Buenos Aires.
A prevalência do consumo “problemático” de drogas na região é muito baixa em contraste com a representação simbólica do problema, e essa superdimensão se transforma em um pré-julgamento que deve ser desfeito para que apareçam os problemas que encobre, afirmou Hopenhayn. A conferencia foi convocada pela organização não-governamental Intercâmbios (Associação Civil para o Estudo e Atenção com Problemas Relacionados com as Drogas) e reuniu durante dois dias, nas dependências do Congresso, funcionários, legisladores, pesquisadores e trabalhadores sociais de Argentina, Brasil, Canadá, Chile e Uruguai.
A exposição de Hopenhayn resumiu idéias presentes em painéis de especialistas sobre o aumento do consumo abusivo de álcool entre os jovens da região, a irrupção da pasta-base de cocaína na Argentina e no Uruguai, o uso naturalizado de drogas sintéticas em festas da classe média no Brasil ou na Argentina. Os expositores concordaram que o objetivo das políticas públicas de drogas não deve ser a de perseguir os consumidores, mas a informação que ajude a reduzir danos sem perder de vista que essas substancias são o emergente de problemas sociais profundos.
“A pasta-base é porta-voz de um mal-estar social. É apenas o pavio do estopim. Mas o problema principal em nossos países continua sendo a pobreza, a marginalidade e a carência de vínculo”, assegurou o psicólogo Milton Romani Gerner, secretário-geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai. O especialista apresentou um estudo feito em seu país sobre o uso de pasta-base, produto intermediário do processo de elaboração da cocaína a partir das folhas de coca. Gerner explicou que esta droga surgiu na Argentina e no Uruguai há pouco mais de cinco anos. “Seu consumo ocorre em diferentes setores sociais, mas os pobres são os mais vulneráveis e apresentam os maiores danos”, afirmou Gerner, alertando que diante da falta de oportunidades mais dignas, sua distribuição em redes familiares ou de vizinhos se representa uma “oportunidade de emprego” em setores marginais.
A argentina Victoria Rangugni, licenciada em trabalho social da Intercâmbios, concordou quanto à novidade deste consumo em seu país. Mas a especialista, que coordenou um trabalho semelhante no Uruguai sobre viciados em pasta-base, insistiu que “os mais pobres não são os usuários exclusivos”. Rangugni garantiu que pessoas da classe média fumam pasta-base com maior privacidade e autocontrole para minimizar os danos. “Esta modalidade leva a pensar que é necessária uma intervenção estatal que dê ferramentas para que os consumidores possam se cuidar”, ressaltou.
Embora não considerassem censurável seu consumo, participantes do Brasil, Uruguai e da Argentina expressaram preocupação pela maior freqüência de intoxicações por álcool entre os jovens e sua relação com a taxa ascendente de morbidade por acidentes ou violência em estado de embriaguês.”No Brasil, mudaram dramaticamente os padrões de consumo de álcool entre os jovens, disse à IPS Pedro Godinho Delgado, coordenador nacional do Programa de Saúde Mental do Ministério da Saúde. “O início é mais precoce e as intoxicações mais freqüentes”, insistiu. O consumo de maconha está estabilizado no Brasil, mas aumenta o de ecstasy e de crack (derivado da cocaína) nas cidades. “Os mais vulneráveis, os mais pobres, fumam crack, porque é mais barato”, acrescentou.
Para Hugo Míguez, doutor em psicologia da subsecretaria de atenção aos viciados da província argentina de Buenos Aires, o consumo de cerveja é crescente nessa zona e considerou que a maior disponibilidade unida à tolerância social frente ao produto leva ao consumo abusivo. “Se um professor ganha 300 pesos mensais (US$ 100) e um publicitário 15 mil pesos (US% 5 mil) não esperemos que os adolescentes tenham boa capacidade de julgamento crítico”, ressaltou. Míguez disse, ainda que pesquisas de 2005 feitas entre adolescentes de 15 a 17 anos de escolas secundárias indicam que 60% deles consumiam álcool. Desse total, 20% “se embebedaram” pelo menos uma vez nos últimos 15 dias anteriores à pesquisa.
Míguez, também exibiu propagandas de venda a domicílio de bebidas alcoólicas e energizantes, dois tipos em que não se recomenda a mistura. Vinte e seis por cento dos estudantes disseram que as misturam, ignorando que dessa forma aceleram o estado de intoxicação. “A proibição não é o caminho, o que preocupa é o abuso e a tolerância social sem que se perceba que este consumo está associado com a morte de 30 mil jovens por incidentes violentos ou acidentes graves”, disse o especialista.
Gerner relatou que no Uruguai um em cada quatro estudantes secundários admite uma intoxicação por álcool nos últimos 15 dias. “É o consumo que mais nos preocupa”, reconheceu. Finalmente, Ana Camarotti, da Argentina, socióloga e pesquisadora da Universidade de Buenos Aires, apresentou um estudo feito entre participantes de festas rave (danças ao som de música eletrônica) em que 61% do público pesquisado disse ter consumido ecstasy (metilenodioximetanfetamina) ou outras drogas sintéticas (vários tipos de mentafetaminas, LSD, lança-perfume).
Nessas festas prolongadas realizadas, em geral, em locais abertos, apenas 30% têm menos de 20 anos, acrescento Camarotti. Do total que participa das festas, 70% trabalham e 64% têm curso colegial ou universitário, completos e incompletos. “Uma mensagem de não às drogas não teria efeito neste setor onde, ao contrário do consumidor de pasta-base, se tem uma avaliação positiva de seus efeitos. Por outro lado, as políticas de redução de danos que são desenvolvidas na Holanda apresentam bons resultados”, afirmou a especialista. (IPS/Envolverde)

