Mercosul: Um nó mais político do que comercial

São Paulo, 08/10/2006 – Os ministros da Economia dos cinco países que formam o Mercosul se reúnem nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, para discutir, entre outros assuntos, uma moeda regional comum para substituir o dólar no comércio transfronteiriço. Soa como debater o sexo dos anjos. No final, o Mercosul atravessa há tempos a mais grave crise de seus 15 anos de vida, e se não consegue nem mesmo acertar diferenças muito mais simples entre seus membros, como pensar em uma aventura tão complexa como uma moeda comum que os europeus, por exemplo, demoraram 50 anos para concretizar e que nem mesmo vale para os 25 países que formam esse bloco?

Entretanto, precisamente na ousadia da aventura está a saída – talvez, única – que o bloco do Sul tem se não quer ver se desfazer a construção que, nesses 15 anos conseguiu multiplicar por oito a corrente de comércio (importações mais exportações) entre seus quatro sócios originais (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) elevando-a de US$ 8,2 bilhões para US$ 32,2 bilhões entre 1990 e 2004. O Mercosul (Mercado Comum do Sul) também conseguiu agregar uma nova sócia, a Venezuela, e atrair Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador como associados, mas não membros plenos. No entanto, a crise dos últimos tempos não é conseqüência das dores do crescimento. Ao contrário. É conseqüência das dores da paralisação, primeiro no Brasil, depois na Argentina.

Quando o Brasil desvalorizou o real em 1999, os argentinos estavam entrando na recessão que desembocaria no fim do câmbio fixo (a conversibilidade) junto a uma brutal crise econômica, financeira e social. As duas crises causaram medidas defensivas, de um e outro lado, que não têm nada a ver com o comércio livre, que, no final das contas, é o motor da integração regional. Até hoje, por exemplo, a importação de calçados e produtos da linha branca (eletrodomésticos) sofre restrições na Argentina, o que causa profunda irritação nos setores empresariais brasileiros. Brasília tenta acalmar os ânimos com uma defesa filosófico-política do bloco: “O Mercosul é nosso destino. Não teremos um país tranqüilo se não houver uma região tranqüila”, já disse o chanceler Celso Amorim.

Para os empresários, a filosofia não basta. Querem negócios e, também acreditam que o Mercosul acaba sendo um peso nas negociações com os Estados Unidos (no contexto da Área de Livre Comércio das Américas-Alca) e com a União Européia, justamente os dois maiores mercados do mundo. Por sua vez, os argentinos dizem – e com razão – que as restrições são indispensáveis para permitir ao país recuperar sua indústria, devastada pelos anos de câmbio fixo e apontam o saldo comercial, que hoje é muito favorável ao Brasil (US$ 9,9 bilhões de exportações brasileiras contra US$ 6,2 bilhões de exportações argentinas em 2005). Como, então, a moeda comum pode ser favorável à solução dos conflitos?

Para o ministro do Desenvolvimento, Comércio Exterior e Indústria, Luiz Fernando Furlan, somente políticas macro-econômicas convergentes eliminariam, por definição, problemas como o desajuste cambiário, as diferenças entre as taxas de juros etc. Os países-membros não necessitariam, então, de medidas defensivas de uns contra outros. Teoricamente, é correto. Mas como acertar as divergências tão agudas como as que separam Argentina e Uruguai por causa das fábricas de celulose? Nesse caso, a única saída seria a construção de instituições regionais sólidas e confiáveis para todos os sócios, o que, por sua vez, supõe um grau de confiança entre seus dirigentes, que hoje é quase nulo entre Tabaré Vázquez, presidente do Uruguai, e seu colega argentino, Nestor Kirchner.

Soa como um círculo de ferro intransponível, inclusive porque o Brasil, líder natural por seu peso econômico, territorial e populacional, esta semiparalisado pelos escândalos de corrupção, em primeiro lugar, e, depois, pelo processo eleitoral que terminará em outubro. Além disso, o Brasil agora tem sérias desconfianças junto aos governantes da Venezuela e da Bolívia, por causa da nacionalização do gás boliviano, ação da qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi informado com antecedência. Hugo Chávez foi, mas não transmitiu a informação à Brasília.

É de se notar que Lula quer manter as melhores relações com os Estados Unidos, o que pode ser dificultado pela retórica incendiária de Chávez em relação ao governo de George W. Bush. Portanto, as dificuldades políticas são muito mais complexas do que os desafios econômico-comerciais. E chegar à moeda comum é uma aventura sobretudo política. Como desatar este nó é uma questão para a qual não há resposta à vista. Talvez, comece a ser tentada a partir da reunião desta quinta-feira no Rio. (IPS/Envolverde)

(*) Clovis Rossi é jornalista, colunista do jornal Folha de S. Paulo, autor de livros e várias vezes premiado.

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