México: Crise em Oaxaca aumenta após violenta ação policial

México, 31/10/2006 – O governo do México defende a repressão das forças de segurança federais contra o protesto social na capital do Estado de Oaxaca, no domingo, pois isso permitiu recuperar “a paz e a tranqüilidade públicas’. Mas, a evidência indica o contrário. “A situação piorou. Somo objeto de uma violenta e inaceitável repressão, que no domingo deixou três mortos, mais de 50 feridos, vários desaparecidos e alguns casos de tortura’, disse á IPS Florentino López, porta-voz da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO).

Flavio Sosa, outro dirigente dessa organização, alertou que as negociações políticas ficarão paralisadas enquanto permanecerem em Oaxaca as forças policiais federais, que a seu ver estão integradas por “criminosos e violadores”. Mas, o presidente Vicente Fox, que em dezembro encerra seu mandato de seis anos, vê outro panorama. “Hoje, em Oaxaca foi recuperada a paz social”, disse ontem. “Em Oaxaca se pode somar o diálogo e a busca de acordos com a implantação da ordem e do respeito à lei. O valor do diálogo foi fundamental para que hoje tivéssemos o regresso da paz e da tranqüilidade”, afirmou.

Na tarde de domingo, milhares de policiais, veículos antimontins e grandes tratores entraram em Oaxaca, capital do Estado de mesmo nome. A golpes e empurrões, mais uso de gás lacrimogêneo e jatos de água, os agentes policiais desalojaram os acampamentos e as barricadas nas ruas e parques que a APPO mantinha na cidade. Os rebeldes, que em sua maioria não ofereceram resistência e preferiram se entricheirar nos prédios da estatal Universidade Autônoma Benito Juarez, fizeram ontem uma marcha pela cidade exigindo a saída da política e a imediata renúncia do governo do Estado, Ulises Ruiz.

O conflito nesse distrito, iniciado dia 22 de maio com protestos de professores exigindo melhores salários, atingiu um nível mais alto em meio a negociações frustradas entre governo e APPO e sem que as autoridades locais e os legisladores conseguissem chegar a uma solução. A principal demanda hoje dos manifestantes é a renúncia de Ruiz, a quem acusam de corrupto e opressor. Mas, o governador, do histórico Partido Revolucionário Institucional (PRI), se nega a tomar esse caminho, apesar de também ser pressionado por correligionários e pelo governo de Fox.

Ontem, segunda-feira, os deputados do governante Partido Ação Nacional e do esquerdista Partido da Revolução Democrática aprovaram, sem apoio do PRI, um “ponto de acordo” no qual exortam publicamente Ruiz a renunciar. Por sua vez, Emilio Gamboa, coordenador do PRI na Câmara dos Deputados, pediu ao governador para “fazer um ato de consciência a fim de analisar sua permanência no cargo”. Segundo López, da APPO, a ação policial da véspera deixou mais de 50 presos e vários desaparecidos que foram levados para instalações militares onde estariam sendo torturados. Além disso, assegurou que houve três mortes.

Entretanto, porta-vozes do governo nacional negaram essas versões, mas, reconhecendo que a atuação policiai de domingo deixou saldo de 23 detenções e um morto, que seria um jovem ferido por um petardo feito com pólvora que ele mesmo manipulava. A estatal mas independnete Comissão Nacional de Direitos Humanos, que enviou 18 observadores para Oaxaca, concorda que a ação policial registrou morto, o mesmo jovem de que fala o governo. Segundo sua versão, morreu ao ser atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo.

O dialogo com a APPO se mantém aberto e os professores sindicalizados de Oaxaca, que são o motor central da revolta social nesse Estado, suspenderam a paralisação de suas atividades e voltaram à sala de aula nesta segunda-feira, disse o porta-voz presidencial, Rubén Aguilar. Mas, a entidade negou que vai dialogar com o governo se a polícia não deixar Oaxaca, e as aulas não foram anunciadas. Nas principais ruas e parques da cidade a polícia manteve-se vigilante no dia de ontem, mas, em outras, simpatizantes da APPO voltaram a montar barricadas. Por outro lado, as atividades comerciais e turísticas nessa cidade se mantiveram à meia força.

O ministro da Segurança, Eduardo Medina, explicou que a decisão de usar a força em Oaxaca partiu da tese de que não se podia permitir que a violência e a desordem continuassem imperando nesse Estado. “O uso da força não é a solução de um conflito social e político. Mas, foi necessária e agora o que vem é o diálogo e a negociação pelos caminhos institucionais”, afirmou. Medina rechaçou a tese da APPO de que a decisão de usar a polícia visou respaldar o questionado governador Ruiz. Foi uma ação dirigida exclusivamente ao restabelecimento da ordem, enfatizou.

A chegada da polícia aconteceu um dia depois de violentos choques entre membros da APPO e grupos contrários ligados às autoridades estaduais, os mais graves desde o início do conflito social em maio. Nesses choques foram usadas armas de fogo pelos dois lados, segundo se constatou pelas imagens feitas por um cinegrafista e fotógrafos, com saldo de quatro mortos, entre elas o norte-americano Bradley Roland Will, colaborador do grupo jornalístico independente Indymedia, fato que provocou um protesto da embaixada dos Estados Unidos no México. Os assassinos são homens armados, vestidos de civil e identificados como policiais e autoridades municipais ligadas ao PRI.

Diversos grupos humanitários denunciam que os membros da APPO foram atacados em diversas ocasiões por esses grupos e aparentes sicários. A grande maioria dos 15 mortos deste conflito em Oaxaca contabilizados pelas autoridades faziam parte dessa organização. Para o acadêmico e especialista político do Colégio do México, Sergio Aguayo, a ação policial não resolveu o conflito, mas o agravou. Semelhante opinião expressou o historiador Lorenzo Meyer, para quem pesou na decisão de usar a força pressões da embaixada dos Estados Unidos depois da morte de Roland Will. Miguel Granados, colunista do jornal Reforma e do semanário Processo, advertiu que, se o conflito não encontrar um caminho político imediato, a polícia que ocupa Oaxaca pode acabar sendo atacada pela população. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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