México, 08/10/2006 – No Estado mexicano de Oaxaca professoras lideram uma greve de quatro meses, ativistas encapuzados e armados de garrotes ocupam à força meios de comunicação, enquanto policiais disparam contra a multidão, prendem e torturam. “A situação ficou dramática e pode derivar em uma rebelião civil armada”, disse em entrevista à IPS Adrián Ramírez, presidente da não-governamental Liga Mexicana pela Defesa dos Direitos Humanos (Limeddeh), que segue bem de perto o conflito. O protesto do magistério de Oaxaca, reunido na chamada Seção 22 do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação, um dos mais combativos do país, começou com reivindicação de melhores salários.
Mas com o passar das semanas, a mobilização se radicalizou somando a Assembléia Popular do Povo de Oaxaca (APPO), que reúne diversas organizações sociais e de esquerda, e agora pede a destituição do governo, Ulises Ruiz, acusado de malversação de fundos, entre outras acusações, e a instalação de um novo governo de caráter popular. O movimento se diz solidário com as reclamações do candidato presidencial da esquerda, Andrés López Obrador, que afirma que houve fraude nas eleições de 2 de julho em favor do oficialista e conservador Felipe Calderón, que teve diferença de apenas 0,58% dos votos, segundo a contagem oficial.
Na segunda-feira e terça-feira aconteceram em Oaxaca vários fatos violentos, talvez os mais graves até agora na capital do Estado de mesmo nome, centro do conflito. Depois que homens armados, aparentemente policiais, chegaram a destruir as antenas de uma emissora de televisão e rádio estatais que há 20 dias estão em mãos da APPO, os membros dessa organização ampliaram o acampamento que mantêm no centro da cidade de Oaxaca. Essa região se converteu em território fortemente protegido por barricadas, arame farpado, caminhões e homens, vários deles encapuzados e portando pedras e garrotes, que incendiaram, pelo menos, dois ônibus.
Além disso, os manifestantes ocuparam à força 12 emissoras privadas de rádio para transmitirem seus proclamas e insultaram comunicadores que, do seu ponto de vista, não dizem a verdade sobre o conflito. As ações, que também incluíram o fechamento de várias estradas de acesso a Oaxaca, foram repelidas na noite de segunda-feira e madrugada de terça-feira por centenas de policiais que saíram às ruas em uma operação denominada “limpeza”, dispararam contra os grevistas, matando um, e contra repórteres e cinegrafistas.
“ Se o governo do presidente Vicente Fox não intervir para promover o diálogo e a solução do conflito em Oaxaca, a situação, que já é dramática, ficará muito violenta”, disse o presidente da Limeddeeh. Essa organização, junto com outras 50 de caráter humanitário e social, pediu a intervenção do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e reclamou do governo Fox ações contundentes para evitar a violência. O presidente da Limeddeh recordou que em Oaxaca existem alguns grupos guerrilheiros de cunho marxista, como o Exército Popular Revolucionário, que poderiam decidir a agir.
Essa guerrilha teve presença marginal nos últimos anos, apenas com atos de propaganda, e os serviços de inteligência do Estado lhe atribuem escasso poder de ação. Na semana passada, a Federação Internacional de Direitos Humanos expressou através de um comunicado sua “preocupação pela escalada de violência em Oaxaca que incluiu assassinatos, atos de tortura e de violência, detenções arbitrárias, ameaças e repressão do protesto social”. Depois dos últimos acontecimentos, voltaram a se ativar as tentativas de diversos setores para estabelecer um processo de diálogo em Oaxaca, até agora sem sucesso.
O governo Fox afirma que a solução está nas mãos das autoridades estaduais. Segundo grupos humanitários, o conflito já deixou, pelo menos, seis mortos, mais de uma dezenas de ativistas presos, além de abusos e torturas contra os professores, cuja greve mantém sem aula 1,3 milhão de crianças e jovens do ensino médio. O governo não quer pôr as mãos em Oaxaca, mas tampouco quer permitir que um grupo violento derrube um governador, pois isso representaria um incentivo para Obrador e seu movimento de protesto, disse a especialista em política, Denise Dresser, do Instituto Tecnológico Autônomo do México.
O que Fox faz é esperar que os tribunais resolvam o problema das eleições presidenciais e que a rebelião em Oaxaca acabe com o tempo, disse Dresser. No final deste mês o Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação deverá dar sua decisão sobre a validade das eleições de julho e a proclamação do novo presidente. Obrador apresentou denúncias legais de fraude e advertiu que, se sua derrota não for revista, manterá por tempo indefinido ações de resistência civil, como o acampamento que seus seguidores armaram no final de julho em ruas centrais da capital mexicana.
Oaxaca é hoje um dos espelhos onde se olham e avaliam tanto o governo Fox quanto a esquerda, disse à IPS o consultor político Alberto González. Nas eleições presidenciais de julho venceu com ampla maioria nesse Estado o candidato da esquerda, com 45,9% dos votos, segundo o Instituto Federal Eleitoral. Para González, a situação em Oaxaca se complicou pela inépcia do governo estadual nas mãos do Partido Revolucionário Institucional (PRI), mas também porque na APPO há grupos radicais “anti-sistema” que não estão dispostos a negociar.
Para a procuradora-geral de Oaxaca, Lizbeth Caña, que determinou junto a autoridades policias a operação “limpeza”, a APPO age como uma “guerrilha urbana”. Organizações de direitos humanos consideram que os incidentes dos últimos meses são uma reação ao padrão de conduta dos governos desse Estado, controlados pelo PRI há mais de 70 anos. Nesse distrito, onde a pobreza afeta a maioria de seus 3,2 milhões de habitantes, são cometidas violações sistemáticas de direitos humanos, não se respeita a liberdade de expressão e os poderes Legislativo e Judicial estão à mercê do Executivo estadual, afirmam essas organizações. ((IPS/Envolverde))

