México, 24/10/2006 – As diferenças políticas que cruzam os governos da América Latina e do Caribe emergem por trás do processo de eleição, até agora frustrado, de um de seus representantes não-permanentes no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Guatemala e Venezuela querem o posto, que em janeiro será deixado vago pela Argentina. Os dois governos protagonizam uma encarniçada luta, iniciada na semana passada perante os 192 membros da Assembléia Geral. Após três dias e 35 rodadas de votações sem conseguir eleger nenhum dos dois candidatos, os membros da Assembléia Geral voltarão a se reunir amanhã na sede da ONU em Nova York para nova tentativa.
Até agora, a Guatemala é o país mais votado, mas nunca conseguiu alcançar o mínimo necessário de dois terços dos votos dos delegados presentes sem contar as abstenções. O governo guatemalteco considera “lógico” a Venezuela renunciar à vaga, pois afirma que está em jogo sua luta “contra o império” (os Estados Unidos) que apóia a Guatemala. As divisões latino-americanas perante fóruns mundiais ficam evidentes com especial clareza desde 2005, quando houve uma dura disputa entre México e Chile pela secretaria-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), com cinco rodadas de votação empatadas.
No caso da OEA, o México, que era apoiado por Washington, declinou finalmente de sua candidatura e deu lugar a um consenso em favor do governo de centro-esquerda do Chile, que era acompanhado por países com autoridades dessa tendência ideológica e de esquerda. As diferenças voltaram a surgir em novembro passado na Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata, onde o ponto de discórdia foi o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), impulsionado pelos Estados Unidos e que nesse encontro teve praticamente seu enterro definitivo.
A região da América Latina e do Caribe “está muito longe de ter uma única e forte voz no contexto internacional”, explicou à IPS Liliana Iglesias, especialista em assuntos latino-americanos e da Universidade Nacional Autônoma do México. Interesses políticos, questões internas e fobias a respeito dos Estados Unidos mantêm está situação, que contrasta com o que ocorre em outras regiões como Europa e Ásia, onde os consensos e o pragmatismo são mais comuns, acrescentou está professora de relações internacionais. Durante o fim de semana houve intensos diálogos entre vários países latino-americanos com a intenção de destravar a situação diante da eleição para a vaga no Conselho de Segurança, mas não houve maiores avanços.
Foi o que disseram à IPS fontes diplomáticas mexicanas, que apóiam a Guatemala e lutam para que a Venezuela abandone sua candidatura. Segundo o embaixador do México na ONU, Enrique Berruga, a tradição diplomática mostra que a Venezuela, que menos apoios recebe, depois de tantas votações, é que deve renunciar. Essa postura é rejeitada por Caracas, que considera sua candidatura como uma luta contra os interesses e o poder dos Estados Unidos. O presidente Hugo Chávez disse no final de semana que, mesmo se seu país não conseguir um lugar no Conselho de Segurança, a luta que trava já “prejudicou o império” (os EUA).
Berruga discorda da idéia de que Washington impôs a Guatemala como sua candidata, como alega Chávez, e exortou Caracas a resolver seus problemas com o governo norte-americano no contexto bilateral. “Se Venezuela e Estados Unidos têm um problema entre eles, que acertem entre eles, mas não bloqueiem a dinâmica do grupo”, disse o diplomata. A falta de acordo na América Latina para apresentar um candidato único diante do Conselho de Segurança manteve em suspenso na semana passada grande parte do trabalho da Assembléia Geral da ONU. Por isso, vários delegados de governos de outras regiões se mostraram descontentes e chamaram os latino-americanos a resolverem a situação.
A área da América Latina e do Caribe tem direito a duas vagas com duração de dois anos no Conselho. A Argentina encerra sua gestão em dezembro e o Peru no final de 2007. Não havendo consenso, o Chile sugere a renúncia das duas candidaturas latino-americanas e a busca de uma nova; o México pede que a Venezuela se retire, e Peru e Equador são pressionados para que abandonem seu persistente abstencionismo e optem por um dos candidatos. Por sua vez, o Uruguai diz que estaria disposto a apresentar sua candidatura, desde que ocorram as renúncias, os demais peçam e haja acordo regional.
Na região, os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), Bolívia e Estados do Caribe apóiam a candidatura da Venezuela, enquanto a América Central, México e Colômbia estão com a Guatemala. Fora da região, os apoios à Venezuela vêm de China, Rússia, Irã, Vietnã, Malásia, Indonésia, alguns Estados árabes e outros da África subsaariana, enquanto a Guatemala é apoiada por Canadá, Estados Unidos, a maior parte da União Européia e aliados das potências ocidentais na Ásia, África e Oceania. As votações, secretas, flutuaram em favor da Guatemala entre 93 e 116 votos, enquanto a Venezuela recebeu entre 70 e 93 votos. (IPS/Envolverde)

