Pobreza: Chamado global não foi ouvido na América Latina

Buenos Aires, 23/10/2006 – Organizações civis da América Latina consideraram que houve pouca divulgação e pouca mobilização regional para a campanha global “Levante-se contra a Pobreza”, pois não foram consideradas prioridades e agendas próprias da região.

 - Unicef

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Na semana passada, concluída a campanha, foi realizada uma videoconferência com representantes de organizações do Brasil, Equador, Peru, Santo Domingo, Argentina e Uruguai, na qual todos concordaram com essa percepção, disse à IPS o argentino Jorge Carpio, diretor do Foco – Fórum Cidadão de Participação pela Justiça e os Direitos Humanos.

A mobilização, conduzida pelo Chamado Mundial à Ação contra a Pobreza (GCAP) se estendeu desde 16 de setembro e culminou nos últimos dias 15 e 16 com o slogan “Levante-se”. Fatores que contribuíram para a pouca repercussão da campanha na América Latina, segundo organizações sociais promotoras, foram a escolha do lema, o desconhecimento dos calendários nacionais e a falta de inserção nas agendas latino-americanas. Algumas organizações sociais latino-americanas consideraram que o debate na região é principalmente pela distribuição eqüitativa da riqueza. A América Latina é a região do mundo com maior desigualdade entre ricos e pobres.

“A luta contra a pobreza em nossos países pode encontrar a esquerda unida com a direita, mas se propomos o combate contra a desigualdade, então o lema é muito diferente e obtém distintas adesões”, afirmou Carpio. “Propusemos este eixo aos organizadores, mas no Norte isto não é bem entendido”, acrescentou. Carpio informou que em uma reunião em Beirute foi sugerida a idéia de mudar o lema para “Aliança pela igualdade”, mas não prosperou. Foco é o representante argentino do GCAP, uma rede que reúne dezenas de organizações sociais e não-governamentais em todo o mundo para protestar contra a pobreza.

Por outro lado, o brasileiro Jair Barbosa Júnior, do Instituto de Estudos Sócio-Econômicos (Inesc) disse à IPS que “houve inclusão do slogan nas plataformas da região e no GCAP internacional. Mas a campanha teve seus orçamentos aprovados somente no segundo semestre. Tudo isto causou atraso e críticas à forma com a articulação foi desenvolvida”, acrescentou Barbosa, explicando que somente podia falar em nome do Inesc, uma entidade não-governamental que exerce a secretaria-executiva do GCAP no Brasil. No ano passado, o GCAP convocou encontros de massa, como os concertos Live 8 e as manifestações em torno da cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, na cidade escocesa de Gleneagles.

Este ano conseguiu estabelecer um novo recordo no Guinness ao somar mais de 23 milhões de pessoas em pé protestando contra a pobreza em diversas partes do mundo no período de 24 horas, entre os dias 15 e 16 deste mês. O GCAP reúne 150 milhões de pessoas. Na Ásia aconteceram mobilizações maciças, com destaque para meio milhão de jovens em pé em Bangladesh, e centenas de milhares que ficaram em pé por um minuto durante o show musical contra a pobreza nos bairros periféricos de Mbare, em Harare, capital do Zimbábue. Entretanto, na América Latina as atividades de massa não foram realmente mobilizações, mas aproveitamento de multidões reunidas por ocasião de eventos futebolísticos.

O que aconteceu nessa região onde há 222 milhões de pobres em uma população total estimada em 500 milhões? Há indiferença diante dos 53 milhões de desnutridos? Nada mais longe disso, na América Latina há milhares de organizações cuja tarefa diária é o trabalho social contra a pobreza, com atividades para promover desde o acesso à moradia, à alimentação e à água, até a proteção dos direitos humanos, da mulher e dos menores. “O consenso sobre a necessidade de combater a pobreza é o mesmo em todo o mundo, mas na América Latina ainda não demos essa cultura de compartilhar uma ação global, nossa agenda nacional é mais forte”, afirmou Carpio.

O fato de a mobilização do GCAP ter se apresentado unida à campanha pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), impulsionada pelas agências da Organização das Nações Unidas, também parece ter influído negativamente na mobilização de organizações sociais de alguns países. “Para o Brasil, este foi um ponto central. Desde 2005, fazemos críticas ao vinculo do GCAP com os ODM, pois defendemos uma ampliação das metas estabelecias e acreditamos que, tal com estão, não são suficientes para superar os problemas nacionais”, afirmou Barbosa. Vários governos aproveitaram para promover atos sobre suas estratégias contra a pobreza sob o guarda-chuva das agendas nacionais do “Levante-se”.

Mas há outras razões que explicam a escassa adesão. “A dinâmica interna dos países latino-americanos é que impõe a agenda. Se a campanha de ação global não se inserir nesse contexto, dificilmente terá impacto”, resumiu o argentino Carpio, dando alguns exemplos do que está ocorrendo na região. Em seu país, no último dia 17, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, é uma data emblemática do governante Partido Justicialista. Este anos, os restos mortais do fundador e líder dessa coletividade, Jan Domingo Perón, foram levados do cemitério para um mausoléu.

“A data está ligada a outras iniciativas do campo popular, e uma proposta deste tipo sempre corre o risco de ser tergiversada ou também ignorada”, explicou Carpio. Também influiu a inatividade própria do feriado de 12 de outubro, data que comemora a chegada dos espanhóis na América em 1492, e no Brasil é o dia de sua padroeira. Além disso, no Brasil e no Equador, as respectivas campanhas para o segundo turno das eleições presidenciais “sufocaram qualquer outra proposta. Houve atos nesses países, mas passaram totalmente desapercebidos porque não foram realizados no contexto das campanhas proselitistas”, disse Carpio.

Barbosa, do Inesc, disse que “as datas foram estabelecidas sem considerar a agenda eleitora, e isto criou dificuldades para a articulação de acordos e veículos de comunicação. O mesmo ocorreu com os movimentos sociais, porque estavam envolvidos na campanha presidencial”, segundo o brasileiro, “houve dificuldades para envolver organizações e movimentos sociais. Nossa avaliação é que as camachas precisam ser mais abertas em sua construção para considerar as dinâmicas de cada continente e de países sem os quais não se pode ficar sem uma grande adesão”.

Um exemplo dado por Carpio de como um país latino-americano trabalha unido pelo desenvolvimento é a Frente Nacional contra a Pobreza formada no começo desta década entre organizações sociais e sindicais da Argentina. Seus membros elaboraram uma proposta especifica para erradicar a pobreza e a desigualdade e coletaram mais de quatro milhões de assinaturas em uma consulta popular convocada pela Frente. “Essa iniciativa prosperou porque foi feita dentro de uma campanha contra o governo do presidente Carlos Menem (1989-1999)”, assegurou.

Na Argentina também houve dificuldades de caráter local. Nas escolas era necessário que os sindicatos de professores – comprometidos com o GCAP – informassem os alunos e seus pais. “Não podíamos nos arriscar a lançar a campanha em todas as escolas e depois os pais nos acusassem de usar seus filhos para fins políticos”, disse Carpio. Por isso, neste caso, os organizadores propuseram que cada um organizasse o ato em seu local, fora da escola, em uma praça, e, assim, foram realizados 16 atos.

Mas o impacto na opinião pública, que era o objetivo do chamado, foi nulo. Nenhum meio de comunicação de massa se referiu à jornada na Argentina. “Ficamos sabendo ontem, quando chegaram os cartazes”, disse à IPS um porta-voz da Central de Trabalhadores Argentinos. “É o pessoal do CTERA (Confederação Geral de Trabalhadores da Educação) que cuidada desta campanha”, acrescentou. Mas, a IPS falou com os supostos encarregados e tampouco sabiam do GCAP.

* Com as colaborações de Ângela Castellanos e Diana Cariboni (Montevidéu).

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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