Havana, 08/10/2006 – A XIV Cúpula do Movimento de Países Não-Alinhados (Noal) poderá ser o primeiro encontro internacional de destaque a acontecer em Havana sem a participação ativa do mandatário Fidel Castro, defensor desse bloco de nações em desenvolvimento que presidiu há um quarto de século. O presidente cubano foi submetido a uma delicada cirurgia abdominal que o obrigou a “várias semanas de repouso” e adiar até 2 de dezembro os festejos previstos por personalidades internacionais para o último domingo, 13 de agosto, quando Fidel completou 80 anos, segundo seu próprio anúncio feito no dia 31 de julho.
A cúpula do Noal “deverá receber a maior atenção do Estado e da Nação cubana para ter o máximo de brilho na data estabelecida”, disse Castro no comunicado que divulgou informando que delegava provisoriamente seus cargos ao irmão Raúl, de 75 anos, primeiro vice-presidente do Conselho de Estado. Os não-alinhados, agora 116 países da África, Ásia, América Latina e do Caribe, prevêem se reunir em Havana entre 11 e 16 de setembro próximo, num cenário internacional diametralmente oposto aos de 25 anos atrás, por ocasião da VI Cúpula, também na capital cubana.
“Como todas as agrupações e organizações internacionais, o Noal não é mais do que um reflexo do mundo real, que, logicamente, é bem diferente do de 1979”, quando Cuba foi sede, disse em entrevista à IPS o vice-chanceler cubano, Abelardo Moreno. O vice-ministro recordou que “aquela foi uma época de um mundo bipolar, quando havia pelo menos duas forças que se compensavam mutuamente”, numa referência à Guerra Fria entre o bloco comunista, liderado pela União Soviética, e o mundo ocidental, liderado pelos Estados Unidos e pela Europa. Nesse contexto, os não-alinhados buscaram marcar uma “terceira posição”.
A dissolução da União Soviética em 1991 e o desaparecimento do campo socialista marcaram o fim dessa era. “Agora, estamos em um mundo unipolar, no qual impera o uso da força, o desrespeito à soberania e ao direito dos Estados à sua independência”, afirmou Moreno. Em sua opinião, um dos desafios do Noal é trabalhar com suas “características e posições de hoje” nesse contexto internacional diferente e se converter em “uma agrupação vital, que realmente tenha a influência que lhe corresponde”;
O Noal constitui atualmente quase dois terços dos países-membros da Organização das Nações Unidas, o que, para o vice-ministro constitui uma força com um potencial real. “A ONU é um dos fóruns de atuação fundamental dos Noal e deve continuar sendo”, acrescentou. Por regiões, integram o Noal 53 nações da África, 38 da Ásia, 24 da América Latina e Caribe e uma da Europa (Bielorússia). “Em termos globais, nossa impressão até agora é que da cúpula participarão, pelo menos, 50 chefes de Estado ou governo”, acrescentou.
Alguns acreditam que uma das fraquezas do movimento é a diversidade de culturas, crenças e posturas filosóficas de seus membros. “É verdade que existem países com características diversas, mas definitivamente, são mais os problemas comuns dos países do Terceiro Mundo do que as diferenças”, ressaltou Moreno. Entretanto, admitiu que um dos maiores desafios do movimento nos próximos três anos é procurar “fazer a um lado características e interesses nacionais e trabalhar com um espírito de solidariedade, unidade e coesão”, em benefício de todos.
“Me pergunto se uma posição comum do Noal a respeito do problema da dívida externa não seria benéfica para aqueles países da América Latina que consideram que o endividamento é um dos grandes obstáculos para seu desenvolvimento”, afirmou o vice-ministro. O Noal, criado em 1961 – em plena Guerra Fria – teve uma fase de florescimento desde a cúpula da Argélia, em 1973, até a de Belgrado, em 1989, para cair em anos posteriores. “Vale a pena trabalhar com esforço para que este movimento não fuja de nossas mãos, porque é o mecanismo político que os países do Terceiro Mundo possuem. Não podemos, nem devemos, abandoná-lo”, afirmou Moreno.
O movimento deve ter suas próprias iniciativas e mecanismos de cooperação, porque um dos maiores problemas do passado é sua pouca ação própria. “Acreditamos que o Noal deve ser no futuro mais ativo, rico em iniciativas, idéias e projetos”, disse o vice-ministro. Nesse sentido, Cuba, que assumirá por três anos a presidência do grupo a partir da XIV Cúpula, tem propostas concretas de colaboração na luta contra o analfabetismo, para formação de recursos humanos no setor da saúde e no uso eficiente das fontes de energia.
A iniciativa inclui a criação dentro do Noal de um órgão de colaboração que transforme as idéias em projetos concretos e busque os recursos e a forma de levá-los adiante. “Queremos que seja um esforço conjunto daqueles países que têm maior capacidade, a favor de outros que têm dificuldades”, disse Moreno. O vice-chanceler assegurou que o papel fundamental dos não-alinhados é trabalhar para rebater tudo o que vai contra os interesses do Terceiro Mundo, propiciar o desenvolvimento, promover a independência, a soberania, a igualdade. “Essa é sua missão, esse é seu trabalho. Para isso existe e deve continuar existindo”, afirmou. (IPS/Envolverde)

