Afeganistão: Cinco anos depois do 11 de setembro, o Taibã retorna

Londres, 08/10/2006 – As milícias islâmicas Talibã recuperaram o controle sobre a metade meridional do território do Afeganistão e sua vanguarda avança dia a dia, informou na capital britânica o Conselho Senlis, uma instituição acadêmica especializada nesse país asiático. Um relatório dessa organização sobre a reconstrução do Afeganistão divulgado nesta terça-feira, às vésperas do quinto aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, inclui um amplo estudo de campo nas províncias de Helmand, Kandahar, Herat e Nangarhar.

Os atentados atribuídos à rede terrorista Al Qaeda, que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington, deram lugar, em outubro de 2001, à invasão do Afeganistão por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos. Nessa época o Talibã controlava, desde 1996, a maior parte do território afegão, e dava refúgio ao líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. “A linha do front do Talibã divide em dois o território do país e domina todas as províncias do sul”, disse o Conselho, que conta com escritórios em Cabul, Londres, Paris e Bruxelas e que realizou numerosos estudos sobre o Afeganistão nos últimos anos.

O relatório também alerta que a região dominada pelo Talibã sofre “uma crise humanitária de fome e pobreza”, situação que atribui “às falidas políticas antidrogas e militaristas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. O conseqüente aumento da pobreza extrema criou um crescente apoio para o Talibã, que respondeu às necessidades da população local”, diz o documento do Conselho Senlis. “Presenciamos um desastre humanitário”, disse á IPS o diretor-executivo da instituição. Emmanuel Reinert. “Agora, há nas cercanias de Kandahar acampamentos com pessoas que morrem de fome todos os dias, incluindo crianças, e isso, obviamente, é utilizado pelo Talibã para recuperar a confiança do público e o controle do país”, afirmou o especialista.

O programa de erradicação de cultivos da papoula, insumo do ópio, da morfina e da heroína, foi um desastre, segundo Reinert. “Foi um ataque direto ao modo de sobrevivência dos camponeses. A ligação entre o programa de erradicação e da crise humanitária é clara”, afirmou. “Tudo isso é utilizado pelo Talibã para dizer que quando eles governavam podiam ser duros e cruéis, mas era possível alimentar uma família. Além disso, cada vez dão mais apoio e serviços à população local”, assegurou. Os esforços pela reconstrução, encabeçados pelos Estados Unidos, fracassaram devido às políticas “ineficazes e inflamáveis” contra as drogas, segundo o informe.

“Ao mesmo tempo, houve uma dramática falta de financiamento dos programas de assistência”, diz o documento. Essas políticas teriam gerado um caldo de cultivo para o recrudescimento do terrorismo que os Estados Unidos tentavam erradicar, afirma o estudo. “As políticas norte-americanas no Afeganistão recriaram o refúgio seguro para os terroristas que a invasão de 2001 tentou destruir”, disse Reinert. “A razão pela qual a força internacional esteve no país nos últimos cinco anos era garantir que o Afeganistão nunca mais fosse um abrigo para o terrorismo internacional”, acrescentou. De todo modo, prosseguiu, o retorno do Talibã ainda não implica uma restauração das redes terroristas internacionais no Afeganistão. “Agora não se vê muitos elementos estrangeiros no país. Vemos, basicamente, talibãs e os chamados neo-talibãs. De certo modo, isto é uma guerra civil”, ressaltou.

A fome leva à ira, afirmou o especialista. A falta de financiamento pela comunidade internacional deixa o governo afegão e o Programa Mundial de Alimentação incapazes de atender a crise, segundo o documento. “Apesar dos pedidos de ajuda, a comunidade internacional, dirigida pelos Estados Unidos, continua destinando a maior parte da ajuda a operações militares e de segurança”, diz o informe. “Cinco anos depois do 11 de setembro, o Afeganistão ainda é um dos países mais pobres do mundo, e a fome assola o frágil sul do país”, disse Reinert. “É de se destacar que esta crise foi subestimada no financiamento” da reconstrução do país. “Assim, a comunidade internacional perdeu a batalha pelos corações e mentes do povo afegão”, disse o especialista.

O informe adverte sobre as difíceis condições de vida em “acampamentos de refugiados não registrados”, para onde vão civis afetados pelos programas de erradicação de drogas e pelos bombardeios, entre eles muitas crianças famintas. Alguns estão ali porque suas casas foram destruídas por intervenções da coalizão internacional em sua “guerra contra o terror” e pela escalada de operações contra-insurgentes, segundo o estudo do Conselho Senlis. “Desde 2001, as prioridades da comunidade internacional no Afeganistão, dirigida por Washington, não estiveram em acordo com as necessidades da população. É um erro militar clássico: não identificaram adequadamente o inimigo”, disse Reinert.

Os gastos militares desde 2002 multiplicaram multiplicam por nove os de desenvolvimento e reconstrução: US$ 82,5 bilhoes contra US$ 7,3 bilhoes, segundo o Conselho Senlis. No ressentimento e na desconfiança da população afegã também influem as baixas civis. Somente em julho foram 104. Os Estados Unidos e a comunidade internacional deveriam mudar radicalmente seu enfoque para o Afeganistão, alerta o documento. “A ajuda de emergência para a pobreza de ver da máxima prioridade. Somente depois poderemos falar de reconstrução”, disse Reinert. O crescimento do Talibã é acelerado, acrescentou. “Não se pode seguir o ritmo do Talibã. Devemos atacar as causas de raiz do crescente poder de suas milícias: pobreza e política antidrogas”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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