Afeganistão-Paquistão: Filmes são a nova arma do Talibã

Peshawar, Paquistão, 08/10/2006 – Vários filmes em DVD glorificando a guerra santa e os atentados suicidas são a nova arma de propaganda do Talibã, tanto no Afeganistão, país que este movimento islâmico governou com mão-de-ferro entre 1996 e 2001, no Paquistão. O terror e a agonia aparecem vívidos no rosto de dois homens acorrentados à carroceria de um veículo em movimento sendo arrastados por uma estrada de terra. O alívio chega com o punhal que corta suas gargantas, ao grito de Allah-o-Akbar (Deus é grande) ao fundo.

A seguir, a câmera se volta para um poste elétrico onde estão pendurados os corpos dos dois homens, enquanto a multidão observa comovida. A cena não saiu de um thriller de Hollywood: são fragmentos de uma execução pública real ao estilo Talibã que circulam em DVD nos mercados da cidade paquistanesa de Peshawar, na fronteira com o Afeganistão. As vítimas, dizia o filme, pagavam o preço de terem “roubado em público”.

O Talibã foi alijado do poder pelas forças de uma coalizão militar internacional liderada pelos Estados Unidos. As tropas estrangeiras ainda mantêm a pressão sobre os remanescentes do regime islâmico, o que levou seus membros a se refugiarem em abrigos nas montanhas ao longo da extensa fronteira entre Paquistão e Afeganstão. Mas com o apoio de sua etnia pashtun (patán), que habita os dois lados da fronteira, o movimento ressurgiu e agora trava uma exitosa guerra de guerrilha contra o governo do presidente Hamid Karzai, que é apoiado pela coalizão internacional e pelo exército paquistanês.

O ressurgimento do Talibã é evidente. Em 2005, seus membros assassinaram 1,6 mil soldados, funcionários do governo, empresários e técnicos estrangeiros que trabalhavam na reconstrução do país, trabalhadores sociais e pessoas comuns. Neste ano continuaram com ataques suicidas e ao estilo de guerrilha. Nos últimos tempos, o Talibã também intensificou uma campanha de propaganda para ganhar o apoio dos muçulmanos contra os Estados Unidos e seus aliados. Uma manifestação dessa campanha é a produção de DVDs com a intenção de elevar a moral de seus combatentes e também dissuadir os que apóiam Washington em sua “guerra contra o terrorismo”.

“Os DVDs são feitos para se contrapor à propaganda norte-americana contra o Talibã, para ganhar a simpatia do povo e garantir que ninguém se afaste” do caminho, disse Jabbar Khan, vendedor dessa mídia em um mercado próximo à fronteira. “As pessoas compram os DVDs – que têm preço simbólico – em pacotes. Em seguida, em 30 minutos são distribuídos a todo Paquistão e Afeganistão”, disse Haji Khudad Khan, colega de Jabbar.

Por esse meio é difundida a mensagem da jihad (guerra santa islâmica) contra as forças dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, apoiadas por versos do Corão. Entre 80 e 100 DVDs são vendidos por dia neste mercado. A maioria dos comprados é de jovens. “A polícia apreendeu milhares de DVDs. Não permitimos o comércio”, disse o chefe de polícia de Peshawar, Habibur Rehman. Mas acrescentou que, de qualquer modo, as pessoas os compram e assistem. “O DVD ilustra a opressão das forças dos Estados Unidos contra os muçulmanos no Afeganistão e Iraque de um modo a fazer chorar quem assiste”, afirmou o clérigo local Maulana Gohar.

O bombardeio de mesquitas e outros lugares sagrados pelos norte-americanos, bem como a humilhação dos muçulmanos, são o leit motiv destas produções, cheias de cadáveres de homens, mulheres e crianças assassinados pelas forças estrangeiras no Afeganistão. Alguns DVDs mais duros, feitos pelo estúdio Haqiqat ul Maut (Morte real), com sede na cidade afegã de Kandahar, mostra chamados aos muçulmanos para que se convertam em atacantes suicidas, “porque é a maneira mais fácil de matar os infiéis”.

“Seja um mártir. Vá para o paraíso. Que as vítimas vão para o inferno”, diz um ancião em um dos filmes. Ao fundo, após uma explosão, aparecem partes de corpos humanos, esparramados por todos os lados. Em seguida, um boletim informativo indica que 13 soldados norte-americanos morreram nesse ataque.

Na maioria, as cenas são tão horríveis que muitas vezes nem mesmo os espectadores mais curtidos conseguem assisti-las. Mostra como o Talibã mata e fere integrantes das forças dos Estados Unidos e de seus aliados”, contou Mohammad Shafi, universitário de 20 anos que passou um tempo no Afeganistão para lutar junto do Talibã contra as tropas norte-americanas. Os DVDs glorificam os atacantes suicidas e revelam as perdas que causam entre o pessoal militar dos Estados Unidos e aos paquistaneses e afegãos que os apóiam.

“Os DVDs são trabalho de especialistas. Contêm cenas montadas a partir de filmes de Hollywood, para atrair a atenção”, explicou um vendedor que exibia amostras com etiquetas que diziam “Ummat Studio” e “Kandahar Jihad Studio”, embora sua localização exata seja um mistério. Em urud, pashtun e árabe, alguns dos filmes produzidos pelo Islamic Media Front Studio e pelo Jundullah CD Centre mostram combatentes talibãs treinando e também o alistamento de novos recrutas.

“Primeiro costumava assistir a filmes indianos, mas agora vejo DVD da jihad porque são histórias reais”, disse Ishaq Khan, de 22 anos, que aplaudiu o Talibã por travar uma guerra pela mídia e não uma convencional. Em um DVD se vê o presidente George W. Bush dirigindo-se às forças aliadas em Cabul, mas a peculiar edição o mostra arrependido da intervenção norte-americana no Afeganistão e Iraque. Também são intercalados fragmentos tomados da cobertura da rede de televisão Al Jazeera sobre combatentes do Talibã em ação.

“Os DVDs são um claro sinal de que os fugitivos do Talibã e da Al-Qaeda estão se reagrupando. E possuem tanto a tecnologia quanto os conhecimentos para produzi-los”, disse Ashraf Ali, professor da Universidade de Peshawar e que pesquisava sobre Talibã. O professor considerou difícil eliminar esse movimento islâmico porque seus membros estão por todo Paquistão e Afeganistão. Qualquer religioso pode se converter em membro do Talibã a qualquer momento. “Os DVDs são uma ferramenta diferente mas efetiva adotada pelo Talibã para justificar sua guerra contra os Estados Unidos. Depois de assisti-los, até mesmo as pessoas mais instruídas e iluminadas acabam apoiando o Talibã’, assegurou Ali. (IPS/Envolverde)

Ashfaq Yusufzai

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