Imigrantes: O muro de Pádua

Pádua, Itália, 08/10/2006 – “Parem o muro”, diz um cartaz sobre os painéis de metal de três metros de altura que isolam um complexo de moradias habitado por imigrantes, na rua Anelli, na cidade de Pádua, no rico norte italiano. Os cartazes, aparentemente, funcionaram. No final deste mês o muro instalado nesta cidade industrial terá atingido 80 metros de comprimento. Mas, sua construção não prosseguirá. Não é muito grande, apenas o suficiente para separar este complexo do resto dos bairros residenciais, dos centros comerciais e dos edifícios de escritórios de Pádua. Em um dos lados do bairro fechado há o muro, e no restante apenas uma cerca.

Os prédios verdes, de quatro andares, são o lar de aproximadamente 700 imigrantes, a maioria procedente do Marrocos e da Nigéria. A entrada do complexo conta com um controle policial constante. “Ninguém quer alugar um apartamento para uma família negra”, disse à IPS o nigeriano Alphonsus Iroh, que vive ali. “É difícil conseguir casa fora de Anelli”, acrescentou. Iroh vive com a mulher e dois filhos em um apartamento de 28 metros quadrados. O preço do aluguel no complexo varia de US$ 640 a US$ 1.280 ao mês, muito mais do que o preço de mercado. Na semana passada, 80 pessoas se reuniram em um espaço aberto do complexo para fazer churrasco e ouvir música em alto volume. Cerca de dez policiais observavam à distância.

O complexo não é lindo nem confortável. A maioria dos apartamentos carece de calefação. Há entulho por todo lado e as paredes vermelho-escuro estão grafitadas. A rua Anelli é conhecida como “o Bronx de Pádua”, em referência ao bairro novaiorquino de predomínio negro. “Este nome simboliza a segregação dos imigrantes, a droga e a prostituição”, disse Daniella Ruffini, responsável por políticas migratórias do governo local de centro-esquerda. No complexo também existe uma violência como a que costuma ser atribuída ao Bronx. No final de julho, uma disputa entre grupos enfureceu os vizinhos, que pediram a construção do muro.

“O que fizemos foi substituir uma cerca que havia sido arrancada por vendedores de drogas. O pedido foi de vizinhos e policiais, pois a maioria dos traficantes evita os controles enveredando pela vizinhança”, disse Ruffini à IPS. A velha cerca era uma malha de arame. A nova, mais alta e grossa, foi comparada com o muro que cerca a Cisjordânia, e, inclusive, com as que separam a base naval norte-americana de Guantânamo do resto do território cubano. O jornal alemão Süddeutsche Zeitung a considerou uma lembrança do Muro de Berlim. Talvez, a nova barreira permaneça, mas a separação que a originou está predestinada a acabar.

Organizações da sociedade civil protestaram do lado de fora do complexo e exigiram que as autoridades derrubem o muro. “Não se leva em conta a dignidade de quem vive ali”, disse a organização esquerdista Projeto Global. O muro é “um modelo perigoso para outras cidades”, advertiu a entidade em uma declaração. “Só se pode reforçar o racismo já presente na área”. A associação Razzismo Stop, que dá ajuda material e legal a imigrantes, ameaçou “remover o muro através de uma série de ações a partir das bases”. Mas alguns dos moradores do complexo aplaudem sua construção.

“Isto é maravilhoso. Agora os vendedores de droga não poderão ir e vir o tempo todo. Haverá mais controle”, disse Iroh, que, entretanto, acusou a polícia de “não fazer o suficiente para proteger os que ficam fora do tráfico”. O complexo será fechado no próximo ano. Três dos seis edifícios foram evacuados em 2005 e as autoridades de Pádua destinaram novas casas a 327 pessoas. Outro prédio será desalojado em outubro, e outros dois no final de 2007. “O objetivo é acabar com este gueto que nos envergonha”, disse Ruffini. “Pádua conta com mais de 19 mil imigrantes legais, bem integrados à sociedade. Há outros que não encontraram alternativas, e trabalhamos para que possam tê-las”, acrescentou.

Pádua tem 205 mil habitantes, e um em cada três recém-nascidos nos hospitais locais tem origem estrangeira, segundo dados oficiais. A província tem uma população imigrante de 70 mil, a maioria dos quais trabalhando em fábricas. “Os imigrantes da rua Anelli e seus vizinhos sofrem as ameaças de grupos de delinqüentes que podem se esconder com facilidade em uma zona tão degradada”, afirmou Ruffini. “A municipalidade trabalha sem descanso para encontrar novas moradias, mas a legislação não ajuda”, ressaltou. A lei de imigrantes em vigor tem o nome dos ex-ministros direitistas que promoveram sua aprovação em 2004, Umberto Bossi e Gianfranco Fini.

Essa lei admite a residência de imigrantes apenas se possuem contrato de trabalho, mesmo assim apenas por dois anos, e tipifica a permanência além desse prazo como crime. “Esta lei tem o objetivo de controlar a explorar a força de trabalho, não o de integrar os que vêm aqui para trabalhar. É uma ofensa à dignidade humana”, disse Ruffini. Os imigrantes constituem 4,8% dos 56 milhões de habitantes da Itália, segundo a organização humanitária Caritas. E 59% deles estão radicados no norte, a área mais industrializada do país. (IPS/Envolverde)

Stefania Milan

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *