Irã: Em um jogo de médico e monstro

Teerã, 08/10/2006 – Nada pode ser mais enganoso do que a imagem da vida no Irã projetada pela imprensa ocidental, de homens barbados que atiram pedras contra embaixadas e de mulheres encobertas por pesados véus negros. De perto, a vida no Irã oferece um panorama muito mais colorido e vívido, embora o establishment religioso faça de tudo para que a nação coincida com a imagem predominante no estrangeiro. “Em um regime autoritário que tenta controlar os ambientes mais íntimos, as pessoas têm uma vida dupla. Usam máscaras em público, mas no privado vivem a vida que querem viver”, disse um analista que pediu para não ter sua identidade revelada por medo de possíveis represálias. “O Estado islâmico dominado pelo setor conservador e de linha dura quer controlar cada aspecto da vida em que as pessoas acreditam ou o que pensam, as relações pessoas, o que olham ou lêem, tudo deve ser aprovado pelo Estado”, disse o informante.

Existe uma razão histórica, muito enraizada no credo xiita – ramo do Islã praticado pela maioria dos iranianos e que é a religião oficial desde a revolução de 1979 – para a “dupla vida” a que se refere o analista. “O xiísmo, muito combatido pela autoridade ao longo da historia, sempre pregou que em tempos de repressão, quando a prática da fé implica um perigo pessoal, as pessoas podem ocultar suas crenças e fingir que aderem à religião oficial”, explicou a fonte.”Este argumento ajuda a justificar o divórcio mental entre o que é público e o que é privado. Mas aparentemente os mais jovens estão cansados da dupla vida e querem deixá-la para trás”, acrescentou.

“Os jovens querem ser indivíduos, em lugar de sumir na multidão. Procuram exibir suas diferenças. É uma reação diante da pressão para que se amoldem à imagem obrigatória. E não se conformam mais em viver livres dentro dos limites do lar, com as gerações anteriores”, disse um ativista estudantil. Durante o governo anterior, liderado pelo moderado presidente Mohammad Khatami, foi aliviada a pressão sobre a vida privada. Os centros culturais municipais eram palco freqüente de concertos musicais e exposições artísticas. Os jornais e as revistas privadas eram exibidos na via pública e houve aumento entre usuários de televisão via satélite e Internet. Foram levantadas as proibições que havia sobre determinados filmes e livros. Várias organizações não-governamentais foram criadas, incentivadas pelo próprio governo.

Ao mesmo tempo, a população deixou de levar em conta o rígido código de vestimenta. Os cybercafés e bares para o público jovem, antes reprimidos pelos religiosos por considerá-los uma corruptora influência ocidental, surgiram como fungos. Com o retorno ao poder da direita religiosa, em junho de 2005, renasceu a pressão de clérigos e militantes. Corrigir o comportamento do público é uma das prioridades dos poderes do Estado e da polícia. As autoridades lançaram vários embates contra as liberdades pessoais: campanha contra a TV via satélite, rígido controle dos códigos de vestimenta, negar autorização para impressão de livros, proibir filmes e obras teatrais, além de filtros aplicados à Internet são alguns exemplos.

“A televisão estatal está cheia de programas com mulás (clérigos) que pregam o uso do chador negro para as mulheres. Não são nada interessantes. Gostaria de ser livre para escolher o que assistir, o que vestir, o que ler”, lamentou um técnico de 19 anos que disse chamar-se Arash e preferiu não dar o sobrenome. “As coisas voltam gradualmente ao estado em que estavam nos velhos tempos. Ainda não se nota muito. Meus pais dizem que nos primeiros dias da Revolução Islâmica só eram permitidas música clássica e canções revolucionárias”, contou Arash. “Passaram-s uns poucos anos para que a música pop se tornasse aceitável para o establishment. Agora, vamos pelo mesmo caminho, mas, ao contrário, e creio que chegaremos ao ponto de partida”, acrescentou.

O código de vestimenta sempre foi o sinal mais óbvio e visível de “conformidade”, e os conservadores reclamam que a polícia e outras forças de segurança cuidam para que ele seja cumprido. Nas universidades e escolas, seu cumprimento é mais rígido, depois de muitos anos de tolerância. O verão começou em Teerã com chamados de alerta para as mulheres. Policiais femininas que vestem amplos véus negros sobre seu uniforme colocaram-se em algumas das avenidas mais movimentadas para convidar as mulheres a destacarem a virtude. Os fabricantes e vendedores de roupa feminina foram advertidos sobre roupa justa e as saias curtas e, inclusive, foram organizados dois “desfiles de moda islâmica” para indicar ao público o limite do aceitável.

“No mês passado, 63 mil pessoas receberam ‘assessoramento corretivo' e assinaram compromissos de acatar o código de vestimenta. Mais de 1,1 mil veículos foram apreendidos por uso de equipamentos de música em volume alto ou por darem fazerem sinais a mulheres vestidas de maneira imprópria. Os automóveis permanecerão apreendidos por um a três meses”, disse um alto funcionário policiai ao jornal reformista Etemad Melli, do dia 28 de agosto. Mas a propaganda estatal e os controles não são muito efetivos, pelo menos com relação à vestimenta. Em Teerã e na maioria das cidades, se vê menos “conformistas” do que “inconformistas”. A situação é muito diferente em Qom, a capital religiosa do Irã, onde homens em mangas de camisa ou mulheres sem véu são impedidos de entrar em muitos lugares. Mas as moças com roupa colorida e usando maquiagem são uma paisagem habitual das grandes cidades, dos centros turísticos e, em menor medida, nos pequenos povoados.

Homens jovens de barba feita ou cabelo comprido não são difíceis de encontrar em lugares como o centro comercial Golestan, em Teerã. E também é pouco comum serem presos por isso. Quase 70% da população iraniana tem menos de 30 anos. E mais de 60% dos estudantes universitários são formados por mulheres, quando eram apenas 34% antes da Revolução Islâmica de 1979. Muitos conservadores estão a par da demanda de liberdade pelos mais jovens. Em sua campanha eleitoral, o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que seu governo não iria interferir na vida privada ou na vestimenta.

Ao assumir o cargo, tentou melhorar sua imagem permitindo às mulheres entrar em espetáculos esportivos, embora em lugares separados do público masculino. Um dia depois, teve de anular seu próprio decreto: clérigos de Qom advertiram que a presença de mulheres nas partidas de futebol era inapropriada e corruptora. “Nenhum governo deveria intervir deste modo na vida das pessoas”, disse Elnaz, uma secretária de 23 anos. “Do mesmo modo que há grande variedade de gostos em matéria de música, livros e televisão, deveria haver liberdade para escolher a roupa. Por que não fazer uma consulta a respeito através das urnas?”, perguntou.

Um analista, que também pediu reserva de seu nome, afirmou que “a repressão social acrescenta uma nova dimensão aos problemas já existentes”, que ocupam “o regime em várias frentes externas e internas. Mas a história do Irã nos mostra que estes enfrentamentos não passam de uma guerra de desgaste e que, no fim das contas, o Estado cede à pressão popular. O Estado islâmico não pode forçar uma mudança para a qual as pessoas não estão genuinamente preparadas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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