Washington, 08/10/2006 – Goran Habbeb acabava de sair de sua casa, no Curdistão iraquiano. Entrou em sua caminhonete com seu irmão e a filha Soleen, de 7 anos, quando homens armados abriram fogo. Sua família era o alvo. Os desconhecidos vestiam uniforme policial. Surpreendido, conseguiu apenas ligar o carro e fugir. Habbeb pretendia deixar sua filha na escola antes de ir trabalhar, na base militar norte-americana da cidade iraquiana de Kirkuk.
Cidadão iraquiano, trabalhou como “lingüista” para a Titan, contratada militar com sede em San Diego, no Estado da Califórnia, que ganha milhões de dólares em todo o Iraque e emprega milhares de tradutores nesse país. O alívio durou apenas alguns minutos. Seu irmão desceu do veículo e, então, começou o pesadelo. Dois carros se aproximaram disparando. Habbeb pegou sua pistola e revidou, enquanto tentava tirar sua filha da linha de fogo. A menina recebeu três tiros e ele sete, incluindo um que afetou sua coluna vertebral. “Senti alguma coisa nas costas e caí”, contou em uma entrevista. Talvez pensando que eu estava morto, os desconhecidos fugiram”, acrescentou.
Alguns vizinhos ajudaram Habbeb a chegar ao hospital Azady. Depois, seu pai chamou as autoridades militares norte-americanas, que coordenaram sua transferência aérea para a maior base dos EUA no Iraque: Camp Anaconda, na localidade de Balad. Os médicos militares disseram que não havia como atender as crianças, por isso sua filha foi ao hospital local e depois ao hospital italiano, próximo de Sulamanya. Isso foi em meados de novembro passado. Habbeb, nessa época, trabalhava há um ano para a Titan na Brigada Aérea 173, a Companhia 64 da Polícia Militar e a 21ª da Infantaria, entre outras.
Os soldados dessas unidades confirmaram sua história, tal como outros contratados que trabalharam com ele em Kirkuk. Para muitos colegas de Habbeb na Titan a situação foi muito pior. No total, 199 tradutores da empresa foram mortos no Iraque e outros 491 ficaram feridos, segundo o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos. É a pior situação entre todos os contratados norte-americanos no Iraque. Rick Kiernan, porta-voz da L-3 Communications, disse que seus empregados enfrentam os maiores riscos. Estão “com os combatentes, com as forças especiais, com as unidades de infantaria. Isso, provavelmente, os coloca nos lugares mais perigosos”, disse ao jornal norte-americano Knight Ridder.
Um jornalista do diário The San Diego Union-Tribune atribuiu o alto número de mortes tanto a erros da empresa quanto do governo. “Empregados da Titan e outras companhias se tornaram parte de uma experiência em contratos do governo guiados amplamente pelo sistema acerto e erro”, afirmou. O jornal citou Rick Inghram, o executivo de maior status na Titan durante a maior parte de 2004, que reconheceu que o contrato no Iraque era “uma experiência. Nunca tive esse tipo de treinamento. Em 31 anos na Marinha, ninguém jamais me deu uma aula sobre contratos no campo de batalha. Jamais”, afirmou.
Esse era o caso de Habbeb. Oficialmente, era um tradutor civil, mas seu trabalho inclui comumente funções militares. Por exemplo, às vezes era enviado sozinho a aldeias em busca de insurgentes e com o objetivo de anotar os sistemas de localização via satélite de locais suspeitos (sistemas de posicionamento global, GPS), tarefa habitualmente reserva a oficiais da contra-inteligência. “Temos de encontrar os terroristas e às vezes ir com os soldados para identificá-los”, explicou. Se ele forem sozinhos, os soldados norte-americanos costumam invadir casas erradas, acrescentou.
Às vezes ficava em meio a um tiroteio e tinha de responder aos disparos, outra tarefa não incluída na descrição de seu trabalho. Seu papel ativo nas tarefas de inteligência e combate provavelmente foi uma das razões pelas quais Habbeb ficou na mira da insurgência. “Ouvi os terroristas dizendo na televisão que haviam matado Goran Habbeb porque era um colaborador, mas eles não sabem que ainda estou vivo”, disse. Outros empregados da Titan confirmaram que ocasionalmente os soldados pediam para que os ajudassem em combate.
A Drew Halldorson, supervisor de tradutores de SOS Interpreting, subsidiária da Titan, lhe pediu que acompanhasse a 82ª Divisão Aérea em patrulhamento em Mosul, uma das cidades mais perigosas do Iraque. Em janeiro de 2005 disse que participou em mais de 40 missões de combate, derrubando portas, atuando em blitz contra supostos insurgentes e “disparando e recebendo tiros”, contou ao San Diego Union-Tribune. “Somente em janeiro disparei entre 300 e 500 balas em defesa própria”, disse Halldorson ao jornal, que confirmou a história com um comandante da Divisão.
Tanto Halldorson quanto Habbeb perderam seus trabalhos. O primeiro foi demitido por vender rifles e revólveres a contratados e outros civis no Iraque e voltou ao Estado de Maryland. Habbeb ficou em Kirkuk, onde, com 33 anos, sofre dores nas costas devido aos ferimentos que recebeu. O American Insurance Group, que faz seguro para os empregados da Titan, se negou a lhe pagar um tratamento médico na Alemanha. Também se negou a pagar o de sua filha, dizendo que ela não estava coberta pelo seguro. “Outros tradutores feridos foram para a Alemanha e os Estados Unidos”, afirmou Habbeb.
Ele também reclama que tradutores com cidadania norte-americana, muitos nascidos no Iraque, recebem pagamento 10 vezes maior do que seus colegas e por menos trabalho. “Nos pagavam US$ 750 mensais para trabalhar com os soldados e até US$ 1 mil por ficar na base e traduzir documentos”, afirmou. A empresa não o abandonou totalmente. A companhia de seguro pagou para que fosse à Jordânia em três oportunidades para tratamento, contou, mas os médicos se aproveitaram dele. “A primeira vez ficaram com meu soldo semanal, quando fui verificar supunha-se que eu tinha de conseguir dinheiro, e eu reclamei melhor tratamento”, disse.
Habbeb também se desiludiu porque seu pagamento semanal de US$ 300 não dava para pagar o tratamento de sua filha. Alico, a companhia que representava a American Insurance Group na Jordânia, agora lhe oferece um acordo em dinheiro, mas ele preferiria ter o trabalho de volta. “Agora não sou capaz de fazer nenhum trabalho e fico o dia todo em casa. Mas não estou seguro porque os terroristas podem estar atrás de mim a qualquer momento”, disse. Os representantes da empresa de seguros na Jordânia não responderam aos pedidos de entrevista.
Mas Habbeb teve uma relativa sorte. Um mês antes de seu tiroteio o Exército de Ansar Al-Sunna publicou na Internet o vídeo da execução de Luqman Mohammed Kurdi Hussein, de 41 anos, tradutor nas proximidades da cidade de Dohuk. Outros voltaram para casa com ferimentos graves. Desde então a Titan foi comprada pela L-3 Communications, com sede em Nova York e agora é o principal agente para um novo contrato que fornecerá cinco mil tradutores ao exército no Iraque. O Comando de Inteligência e Segurança do Exército dos Estados Unidos estima que o acordo valerá cerca de US$ 4,650 bilhões. (IPS/Envolverde) * Pratap Chatterjee é diretor-geral da organização não-governamental Corp Watch.

