Líbano: Crianças são as principais vítimas dos bombardeios

Beirute, 06/10/2006 – Aproximadamente 55% dos mortos no Hospital da Universidade do Governo de Beirute em razão dos bombardeios israelenses têm menos de 15 anos, relevaram autoridades sanitárias. “Isto é pior do que foi na guerra civil libanesa” (1975-1990), disse à IPS nesta segunda-feira Bilal Masri, assistente de diretor do hospital, um dos maiores da capital libanesa. Além de a maioria dos pacientes ser composta por menores, muitos dos feridos e em situação extremamente grave. “Agora temos um índice de fatalidade de 30% em Beirute. Isto quer dizer que 30% dos afetados por uma bomba jogada por Israel estão morrendo. É uma catástrofe”, afirmou.O índice de fatalidade é alto “porque os israelenses usam um novo tipo de bomba que pode romper bunkers. Estão bombardeando os lugares cheios de refugiados”, acrescentou Masri, que apenas pode dormir nos últimos 13 dias desde que começaram os bombardeios israelenses contra o Líbano, em resposta ao seqüestro de dois soldados por parte do movimento islâmico xiita Hezbollah (Partido de Deus). O hospital funciona com apenas 25% de seu pessoal porque a maioria dos funcionários “não consegue chegar, já que muitos caminhos e pontes foram bombardeados. Os que chegam comem, dormem e vivem aqui as 24 horas do dia, pois temem não poderem regressar se forem para casa”, acrescentou.

No domingo, o subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Jan Egeland, visitou as áreas devastadas no sul de Beirute e qualificou a destruição de “horrorosa” e “violação do direito humanitário”. A ajuda humanitária da ONU chegará nos próximos meses ao Líbano, mas “necessitamos ter acesso” às vítimas, e “até agora Israel não nos permite isso”, disse Egeland. A ajuda é atualmente uma questão de vida ou morte. Masri disse que logo seu hospital ficará sem medicamentos.

“Estamos preocupados com o que virá, porque não poderemos continuar neste ritmo. Já fomos ao Ministério da Saúde para adquirir insumos adicionais. Se a ONU conseguir uma passagem humanitária segura no sul, teremos uma avalanche de pacientes”, afirmou. Masri disse que os hospitais em Sidon e outras cidades do sul estão abarrotados de pacientes, muitos dos quais têm de ser atendidos nos corredores ou nas salas de espera. O médico explicou que grande parte dos feridos sofreu o impacto de fósforo branco incendiário. O Ministério do Interior do Líbano confirmou que os aviões israelenses estavam usando essa arma.

“Não sei porque não recebemos ajuda do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. A Cruz Vermelha Libanesa nos ajuda da melhor maneira que pode, mas as agências estrangeiras não. Por que?”, perguntou o médico. Enquanto Masri falava ao correspondente da IPS, um homem enfurecido era expulso do hospital por guardas de segurança, após protestar porque seu filho ferido tinha recebido alta. “Quero que meu filho fique aqui, porque não tem nenhum lugar para onde ir. Nossa casa foi destruída. Se nos colocarem para fora teremos de ir para um acampamento de refugiados em alguma escola, ou dormir no chão em algum parque. Peço que nos deixem ficar”, gritava. Os libaneses estão indignados pelo alto número de meninas e meninos mortos pelos bombardeios.

Mariam Mattar, uma mãe de 50 anos que agora não tem outro lugar para dormir que não um parque no centro de Beirute, junto a centenas de refugiados, disse que já não existem locais seguros. “Deixamos nossa casa porque bombardearam tudo nos bairros civis. Estão matando nossos filhos. Que ser humano pode fazer uma coisa dessas? Nem mesmo temos nossos sapatos, e vivemos na imundície. Israel permitiria que seus filhos passassem por isto?”, perguntou. “O que fizeram estas crianças?”, disse, tomando nos braços um de seus filhos. “Os outros não escaparam e estão apodrecendo debaixo dos edifícios destruídos enquanto conversamos”, acrescentou. Vários aviões israelenses sobrevoavam o local enquanto a IPS entrevistava os refugiados. “Estamos muito assustados com os bombardeios. Espero que parem. Isso é o que todos queremos agora”, disse Ramadã, um menino de 12 anos refugiado no parque.

Crédito: BBC Brasil (Envolverde/ IPS)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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