Damasco, 05/10/2006 – Os bombardeios israelenses sobre o Líbano também ecoam na capital da Síria, repleta de refugiados que fogem da destruição do país vizinho. O Centro de Resposta aos Desastres da Meia Lua Vermelha em Damasco carece de dados exatos, mas já recebeu uma enorme enxurrada de refugiados desde que a crise começou, informou à IPS seu diretor, Raed al-Tollin. “Os sírios ajudam com água, alimentos e camas. Alojamos os refugiados em escolas, igrejas, residências estudantis e qualquer outro lugar que possamos encontrar para eles”. Uma das maiores dificuldades é a falta de alimento para bebês, explicou Tollin. “Até agora, estamos nos arranjando para enfrentar esta crise, mas não sabemos quanto mais podemos esperar. Neste ritmo, poderemos ficar sem nada”, afirmou. Tollin disse que ele e seus 150 voluntários continuarão fazendo o possível para ajudar os refugiados, “até ficarmos sem nada ou nos esgotarmos completamente”. O centro está ficando sem camas em sem provisões para a crescente quantidade de pessoas que buscam sua ajuda, acrescentou Ramez al-Rowaz, uma voluntária de 22 anos. A Organização das Nações Unidas disse que, pelo menos, 900 mil libaneses fugiram por causa do bombardeio israelense. O Líbano tem população de 3,8 milhões de habitantes.
“Estamos nos preparando para uma longa crise”, disse Rowaz à IPS enquanto entregava uma fatia de pão a uma família que acabava de chegar do sul do Líbano. “Agora há orfanatos e escolas que acolhem as pessoas, mas o problema é quanto tempo poderão permanecer nesse locais, especialmente quando as aulas recomeçarem”, acrescentou. Rowaz disse que na quarta-feira teve de ajudar mais de cem pessoas a encontrar alojamento. Os primeiros refugiados que chegaram eram turistas que fugiam do bombardeio, mas agora a maioria dos que chegam é formada por famílias libanesas. “A viagem até a fronteira, que costuma demorar entre duas e três horas, agora demora entre 10 e 12 horas”, acrescentou. “Temos centros de assistência nas fronteiras que fazem o que podem para ajudar estas pessoas que sofrem”, afirmou a voluntária.
Hassan Hamdan, um homem de 60 anos que na quarta-feira abandonou o sul do Líbano, descreveu um cenário de devastação total. “Os israelenses estão bombardeando tudo: edifícios, casas, água, eletricidade, tudo está destruído”, contou á IPS. “Inclusive, a Cruz Vermelha local foi bombardeada por esses assassinos. Depois, bombardearam próximo do edifício da ONU, perto da minha casa destruída”, acrescentou. O artigo 48 das convenções de Genebra, de 1949, estabelece a proteção da população civil. “Para garantir o respeito pela população civil e dos objetivos civis e a sua proteção, as partes do conflito a todo momento distinguirão entre população civil e combatentes, e entre objetivos civis e objetivos militares, e, em concordância, dirigirão suas operações apenas contra objetivos militares”, diz o artigo.
O bombardeio israelense contra a infra-estrutura civil do Líbano é uma grave infração das convenções de Genebra, o que converte a ação de Israel em um crime de guerra. Hamdan disse que os ataques não estavam matando nenhum combatente do movimento islâmico pró-sírio xiita Hezbolla, mas estavam centrados na infra-estrutura civil. “Eles destruíram nossa cidade. Pensaram que isso nos colocaria contra o Hezbollah, mas agora estão todos com o Hezbollah. Como poderia ser diferente?”, acrescentou.
Diala Hayda, outra voluntária que trabalha na sede da Meia Lua Vermelha em Damasco, disse á IPS que muitos refugiados que ajudou estavam tão desesperados para fugir que não carregaram nada consigo. “Assim, muitos chegam somente com a roupa do corpo e algum dinheiro que tinham na carteira”, afirmou. “Naturalmente, estão desesperados e furiosos”. Muitos são levados a refúgios por toda a capital síria. Em um centro montado pela não-governamental Associação Síria de Relações Pessoais, o refugiado Walid al-Hammad descreveu cenas de total destruição causadas pelos bombardeios israelenses. “Deixaram as estradas em pedaços e bombardeiam por todo lado. Fugimos ontem, com nossos seis filhos e nossos vizinhos. Corremos por nossas vidas. Não resta nada do lugar onde vivíamos. Nossa cidade está demolida, mas não mataram nenhum combatente da resistência”, afirmou.
Affar, uma mãe de 21 anos com seu bebê de um mês no colo, fugiu da cidade libanesa de Baalbek, no vale do Beka. “Baalbek está destruída e eles cortaram nossa água e eletricidade. Estão bombardeando apenas os civis, por isso a maioria dos libaneses está com o Hezbollah”, contou a jovem. Desde que começaram os ataques no Líbano, mais de 300 libaneses, a vasta maioria deles civil, morreram. Em Israel, as vítimas fatais chegam a 29, sendo 15 delas civis. (IPS/Envolverde) Legenda:Mariam Shihabiyah, mãe divorciada com cinco filhos, deixa sua casa ao sul de Beirute.

