Nepal: Inundações causam estragos

Katmandu, 08/10/2006 – As equipes de socorro devem lançar mão de botes de borracha para levar alimento e outros elementos essenciais para milhares de famílias que ainda permanecem isoladas no ocidente do Nepal devido às inundações causadas por torrenciais chuvas dos últimos dias. Muitas tiveram que abandonar suas casas e dormem debaixo de lonas à beira das estradas, disse o coordenador humanitário da Organização das Nações Unidas para o Nepal, Matthew Kahane, após visitar os distritos de Banke e Bardiya, 500 quilômetros a oeste de Katmandu. Pelo menos 45 pessoas morreram e quase 70 mil foram “seriamente afetadas” pelas chuvas que caíram em 15 distritos da região oeste do país desde o dia 24 de agosto, afirmou a Cruz Vermelha do Nepal. “Pelo menos, 66 pessoas estão desaparecidas”, acrescentou.

Os deslizamentos de terra arrasaram casas localizadas nas colinas de zonas distantes, mas a maior parte dos danos aconteceu nas planícies da fronteira com a Índia. Os distritos de Banke e Bardiya foram os mais afetados. “Muitas partes de Banke, Bardiya, Nawalparasi e Kailali continuam submersas, dificultando o trabalho de socorro”, informou um comunicado da Cruz Vermelha. “Como não há estradas que levem às áreas atingidas e o único meio de transporte é o helicóptero, a ajuda fica complicada. Aproximadamente 10% da população de cada distrito foi afetada de alguma maneira, disse Kahane à IPS na sexta-feira. “Isto não quer dizer que todos estejam desabrigados e sem comida, mas é claro que supera de longe os recursos financeiros das autoridades locais para lidar com o desastre”, acrescentou.

O governo nepalês garantiu na quinta-feira US$ 324 mil para ajudar tanto as vítimas das inundações quanto os agricultores do outro lado do país, que, paradoxalmente, enfrentam uma seca. Além disso, agências da ONU e outras organizações não-governamentais prometeram ajudar, mas o dinheiro para víveres continua sendo a necessidade mais urgente, seguida de água potável, segundo Kahane. Os moradores da região criticam a lentidão da ajuda, especialmente a assistência médica, segundo a imprensa, apesar da resposta dada por agências das Nações Unidas e dependências governamentais. Vítimas das inundações em Bardiya bloquearam a sede do governo local na quinta-feira em protesto pela falta de assistência.

Aproximadamente mil pessoas, dos seis mil refugiados que vivem em 17 acampamentos levantados em Bardiya, sofrem pneumonia, doenças transmitidas através da água e outros males, segundo versões oficiais. Muitas não têm outra opção a não ser beber água contaminada. Em Banke, uma equipe governamental que trabalha junto à Cruz Vermelha, a principal unidade de socorro, começou a distribuir provisões em 18 comunidades. Cerca de 40 mil moradores dos distritos afetados tiveram que deixar suas casas quando o Rio Rapti transbordou, depois que as autoridades da Índia ordenaram a abertura de uma represa existente rio abaixo em um curso fluvial compartilhado. A população local culpa esse país vizinho pelas inundações, que ocorrem todos os anos, mas não com esta gravidade. Os membros do parlamento do Nepal já haviam feito as essas mesmas acusações em sua sessão de segunda-feira da semana passada.

Um dos principais problemas é que a Índia bloqueou todas as drenagens naturais de água do Nepal, explicou um engenheiro do Ministério de Recursos Hídricos do Nepal. “A Índia fechou todos para desviar água para a irrigação”, acrescentou. Vários comitês bilaterais foram criados para lidar com as disputas entre os dois vizinhos pela água, e no ano passado um deles decidiu que um dos muros de contensão era responsável pelas inundações em Banke. “Foi decidido que a Índia abriria o do Rio Sati, mas até agora nada foi feito”, disse o engenheiro à IPS.

No distrito de Accham, ao norte de Bardiya, um rio de terra e pedras arrastou no sábado casas de duas comunidades e destruiu os caminhos que as ligavam ao mundo exterior. As permanentes chuvas não deixam que os helicópteros levem recursos básicos de emergência. O saldo até agora é de oito mortos, 94 casas danificadas e 800 refugiados por causa de um deslizamento de terra, e outras cem casas, ainda em pé, podem cair, informou o jornal The Kathmandu Post. “Com certeza, continuam desmoronando”, disse Kahane.

É “quase inevitável” surgirem doenças, acrescentou, mas até o momento, não foram registrados focos. “Deve ser dada atenção especial ao controle de doenças como diarréia, tifo, hepatite de origem viral, doenças da pele e malária”, afirmou Kahane. O Fundo das Nações Unidas para a Infância, através da Cruz Vermelha, enviou lonas, lençóis, sais para reidratação oral, aparelhos para purificar a água e utensílios domésticos às áreas mais afetadas, disse Kahane. Além disso, o Fundo de População da ONU instalou duas clínicas médicas móveis em Banke e Bardiya para apoiar os serviços de saúde existentes. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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