China: Paquistão incentiva o dragão nuclear

Pequim, 08/10/2006 – A crescente demanda de energia por parte do Paquistão incentiva a ambição da China de se afirmar com potência nuclear. O regime de Pervez Musharraf recorre a Pequim em busca de investimentos e transferência tecnológica. Entretanto, a China ainda procura ajuda estrangeira para estimular seu setor nuclear. De todo modo, o objetivo do governo no médio prazo é melhorar sua competitividade no exterior. Com reatores de fabricação própria, a China já instalou uma central nucelar na cidade paquistanesa de Chashma, que produz 300 megawatts, e constrói outra com capacidade igual. O presidente Musharraf pediu a uma delegação do Partido Comunista Chinês, que visitou Islamabad no final de agosto, a construção de várias outras usinas nucleares no Paquistão.

Um acordo bilateral que pode ser assinado em novembro abriria para a China a possibilidade de construir no Paquistão seis centrais com capacidade de produzir 300 megawatts cada uma. O convênio ajudará o Paquistão a se aproximar de seu objetivo de contar com uma capacidade de produzir energia nucelar de oito mil megawatts até 2025. Islamabad havia feito pedido semelhante aos Estados Unidos, mas a resposta não foi muito animadora. Ao contrário, Washington optou por recompensar a vizinha e rival do Paquistão, Índia, com um tratado que prevê o fornecimento de tecnologia e energia nuclear, apesar da ajuda de Musharraf à “guerra contra o terrorismo”.

O tratado com a Índia, ratificado pela Câmara de Representantes dos Estados Unidos em julho, tem fins civis, mas especialistas paquistaneses especulam que poderia melhorar os processos de enriquecimento de urânio com vistas à fabricação de armas nucleares. A Índia e o Paquistão travaram três guerras desde 1947, quando ambos ficaram independentes do império britânico. Em 1987, A. Q. Khan, pai do programa nuclear paquistanês, declarou que um futuro conflito poderia envolver armas nucleares. No ano seguinte, os dois países realizaram testes com bombas atômicas. Mas suas péssimas relações – por causa da Caxemira, região disputada no noroeste da Índia, e pela atividade terrorista no Paquistão – somente pioraram e isso levou a um mútuo esforço militar.

Nenhuma das duas nações faz parte do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que reconhece apenas cinco potências atômicas: Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, China e Rússia. Além disso, as relações entre Washington e Paquistão sofreram um revés em 2003 quando se soube que A. Q. Khan ajudou a Coréia do Norte, o Irã e a Líbia a desenvolverem seus respectivos programas nucleares. Desde então, Khan permanece em prisão domiciliar. O caso levou os Estados Unidos a recomendarem a Islamabad que atendesse suas necessidades de energia com seu vizinho petroleiro Irã, ao mesmo tempo em que desestimulou Nova Délhi de seguir o mesmo caminho ao sabotar um projeto de gasoduto iraniano através do Paquistão.

Agora a China deseja um papel de destaque em matéria nuclear e espera criar mercados para sua própria indústria de reatores e insumos, embora também se mostre cautelosa e tenha reforçado os controles sobre suas exportações nessa área. “Não pouparemos esforços no cumprimento de nossas obrigações internacionais pela não-proliferação nuclear e pelo uso pacífico da energia atômica”, afirmou em agosto o subdiretor da Comissão de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, Jin Zhuanglong. A China tem enormes ambições. Pequim revelou sua pretensão de produzir 4% de sua eletricidade em reatores nucleares até 2020.

Atualmente, a eletricidade de origem nuclear equivale a menos de 2%. Para que a China duplique sua produção em menos de 15 anos precisa incorporar à sua rede pelo menos dois reatores por ano, cada um com capacidade de mil megawatts. Esta ambicioso esforço obedece a intenção de controlar a crescente escassez de combustíveis fósseis, como petróleo e gás, e de conter suas emissões de gases causadores do efeito estufa, aos quais a maioria dos cientistas atribui o aquecimento global. O Conselho de Estado chinês aprovou em março um projeto de desenvolvimento de sua indústria nuclear no longo prazo, como alternativa de energia limpa.

O documento considera que a energia atômica é a opção mais prática para diversificar a geração de eletricidade e reduzir a dependência a respeito das contaminantes usinas de carvão e do petróleo do Oriente Médio. A princípio, os investidores estrangeiros estavam encantados com a idéia de construir usinas nucleares, pelo menos 30 até 2020, por que implicariam uma grande demanda tecnológica. Somente três dos reatores hoje em operação na China são de fabricação 100% nacional. A instalação dos outros seis contou com destacada participação de empresas do Canadá, Japão, Rússia e França. Mas estas começaram a perder as esperanças de obter grande participação com os sucessivos atrasos na divulgação dos resultados da licitação para construção de quatro novos reatores na província de Zhejiang e em Guangdong.

Pequim planejava anunciar no final de 2005 o vencedor entre os três principais interessados (Areva Group, da França; Westinghouse Electric, dos Estados Unidos, e AtomStroy, da Rússia), mas desde então prorrogou o prazo várias vezes. Na medida em que o processo de licitação se prolongava, a Corporação Nacional Nuclear da China, maior conglomerado do país na matéria, começou a se referir ao aumento planejado na geração de energia atômica como uma oportunidade única para a indústria nacional, com vistas a desenvolver reatores de segunda geração. Nesse caso, a China poderia, inclusive, exportar tecnologia, alegou Chen Hua, alto funcionário da Corporação. O objetivo da cooperação estrangeira é que a China possa desenvolver sua própria tecnologia para que sua indústria seja autosuficiente e competitiva em nível internacional, argumentou Chen.

O especialista propôs que as companhias estrangeiras somente cuidassem da construção de dois reatores, no contexto da atual licitação, e que os outros dois ficassem para empresas locais. Por outro lado, a Corporação persegue avidamente seu objetivo de melhorar a tecnologia e suas atuais operações no estrangeiro. Em maio criou uma nova empresa de engenharia, a China Nuclear Engineering Co, que cuidará de promover os interesses chineses em matéria nuclear no exterior. “Na medida em que esta nova companhia se desenvolver, participaremos de licitações de outros projetos em vários países”, disse Li Xiaoming, cientistas especializado em matéria nuclear, segundo o jornal China Daily. Xiaoming também revelou que a Corporação, que construiu os reatores do Paquistão, negocia com outras nações do sudoeste da Ásia a instalação de novas centrais nucleares. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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