Havana, 06/10/2006 – Novas regulamentações do governo norte-americano em sua política em relação à Cuba interrompem um destacado trabalho humanitário realizado por organizações religiosas nesta ilha do Caribe em favor de setores mais vulneráveis da população. Disposições contidas no informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, divulgado por Washington no último dia 10, impedem o Serviço Mundial de Igrejas (SMI), uma agência do Conselho Nacional de Igrejas de Cristo (CNIC) desse país, de enviar ajuda à ilha.Segundo o documento do governo norte-americano, as regulamentações para a exportação de ajuda humanitária serão mais rígidas, afim de garantir que “as exportações sejam feitas para apoiar a sociedade civil e não instâncias administradas pelo regime (de Fidel Castro) e organizações controladas por este, como o Conselho de Igrejas de Cuba (CIC)”. Dizer que o CIC é controlado pelo governo “é um desconhecimento intencional do histórico trabalho das igrejas cubanas e do Conselho”, disse à IPS a reverenda Rhode González, presidente dessa instituição religiosa e pastora da Igreja Cristã Pentecostal.
O CIC, fundado em 1941, aglutina atualmente 43 instituições, entre igrejas, organizações ecumênicas e associados fraternais como a comunidade hebréia, unidos em torno de uma “ação de serviço”, não só de evangelização, explicou Rhode. O trabalho desenvolvido em todo o país pelo CIC inclui desde projetos de hortas comunitárias e o uso de energias renováveis até apoio de todo tipo a pessoas da terceira idade ou com diferentes deficiências e ajuda a vítimas por furacões ou outro tipo de desastres. “Essas ações serão limitadas”, lamentou a religiosa, afirmando que o SMI tem sido “por mais de 60 anos uma fonte (de recursos) muito estável e dinâmica, pois diante de cada necessidade reagia com muita rapidez e efetividades”.
A religiosa explicou que a instituição que dirige é autônoma em suas decisões, embora para cumprir sua missão as igrejas devam manter determinadas relações de trabalho com instituições governamentais. “Para nós é normal e lógico interagir com todas as organizações que fazem parte da vida da nação. Temos uma diretriz que consiste em chegar aos setores que mais necessitam e no momento adequado”, ressaltou. Como exemplo, Rhode contou que o Conselho recebe anualmente cerca de 400 cadeiras de roda de organizações estrangeiras como a Joni And Friend (Joni e seus amigos), de Dallas, no Estado norte-americano do Texas, que em Cuba são distribuídas através da associação Cubana de deficientes físico-motores (Aclifim), que tem mais de 60 mil associados.
“Também tememos que essa ação seja interrompida”, disse a religiosa, primeira mulher a ocupar a presidência do CIC desde sua criação. Segundo Rhode, os problemas com a ajuda que essa instituição recebe dos Estados Unidos começaram em 2004, quando a Comissão para uma Cuba Livre divulgou seu primeiro documento. Nesse sentido, a religiosa reconheceu que, até o momento, o conflito de mais de quatro décadas entre Washington e Havana não teve impacto nas relações do CIC com as igrejas dos Estados Unidos. “Como cristãos, temos o mandato de amar e servir, mas como Igreja, não devemos permitir que nossa ação seja restringida pelas tensões dos poderes deste mundo”, disse Rhode.
Em declarações desde Washington a alguns jornalistas da imprensa estrangeira em Havana, Caleb McCarry, designado Coordenador para a Transição e Reconstrução de Cuba, assegurou que a política de seu país tem sido a de apoiar o envio de ajuda humanitária diretamente para organizações religiosas em Cuba. “A medida incluída no relatório é consistente com esta política. O que diz simplesmente é que se pode enviar essa ajuda humanitária diretamente às igrejas em Cuba, mas não destinar essa ajuda a organizações como o CIC, que são do regime” de Castro, afirmou. McCarry respondeu perguntas durante a videoconferência convocada na semana passada pelo Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Havana (Sina) para divulgar o informe sobre Cuba.
A recomendação de isolar o CIC imediatamente foi impugnada pelo Conselho Mundial de Igrejas, que em carta ao presidente Bush considera o caso como “uma grave violação da liberdade religiosa e uma flagrante e agressiva interferência nos assuntos religiosos”. O informe da Comissão, apresentado pelo governo dos Estados Unidos como complemento do plano para uma transição na ilha aprovado por seu presidente em 2004, solicita a criação de um fundo de US$ 80 milhões para apoiar a sociedade civil nos próximos dois anos. Este primeiro aporte, destinado exclusivamente àquelas organizações de oposição ao governo de Castro, deve completar-se com não menos de US$ 20 milhões anuais até a “queda” do sistema socialista vigente em Cuba.
O texto propõe investigar o destino de exportações cubanas, impedir o envio de remessas de dinheiro por terceiros países, limitar as viagens de religiosos e rever as regras de vendas de equipamentos médicos norte-americanos a Cuba para não serem utilizados nos programas de assistência à saúde deste país no exterior. Além disso, sugere criar um grupo de trabalho para garantir melhor aplicação das sanções econômicas, formar uma coalizão de partidos para fomentar a transição em Cuba e contatar nações doadoras e instituições multilaterais de crédito, a fim de criar um “fundo multimilionário” de apoio a um futuro governo democrático na ilha. (IPS/Envolverde) Legenda: Vítimas de furacões em Cuba

