Desenvolvimento: Índia, crescimento para todos

Nova Délhi, 24/10/2006 – O acelerado crescimento econômico da Índia, que o governo pretende elevar a 10% ao ano, deveria dar lugar a uma redução da pobreza do desemprego e da tensão no campo, afirmam especialistas. A meta é “ambiciosa, mas factível”, disse o primeiro-ministro, Manmohan Singh, ao apresentar o rascunho do novo plano econômico qüinqüenal, cuja aplicação começará em 1º de abril. O plano estabelece uma meta de crescimento anual de 9% para o inicio do período, com 10% nos últimos anos. Se os objetivos forem cumpridos, a Índia se aproximaria da vizinha China, único país do mundo que por mais de uma década conseguiu um crescimento sustentado de, pelo menos, 10%.

Singh, ex-economista do Banco Mundial e ex-ministro da Fazenda considerado o principal arquiteto da liberalização e abertura da Índia nos anos 90, previu que seu país ficará “à frente dos países em desenvolvimento de rápido crescimento”. Nenhum governo indiano conseguiu, desde a independência em 1947, alcançar as metas de crescimento econômico formulados em uma dezena de planos qüinqüenais. Entretanto, economistas acreditam que os novos objetivos podem não somente ser alcançados, mas superados se o governo melhorar a inadequada e ineficiente infra-estrutura física e social do país.

“Como pela primeira vez em quase seis décadas a economia do país cresceu 8% durante três anos consecutivos, e neste, seguramente, conseguirá o mesmo ritmo, creio que podemos aspirar uma meta de 10%”, disse á IPS D. K. Joshi, principal economista da firma financeira Credit Rating and Investment Services, subsidiária da Standard & Poors. A Índia consegui tal crescimento apesar da escassez de energia (de, pelo menos, 10%) e do aumento dos preços do petróleo, que elevou a pressão inflacionária, disse Joshi. Este país importa, aproximadamente, três quartos do seu consumo de petróleo, enquanto a inflação se situa em um patamar entre 5% e 6%.

“Um crescimento de 10% não só é possível como poderia chegar a 12%”, disse à IPS Manoj Pant, professor de economia da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi. “A questão não é realmente o crescimento em si, mas seus padrões. Trata-se de conseguir um crescimento inclusivo, de modo que contribua para reduzir a pobreza, o desemprego e a iniqüidade, bem como incentivar o desenvolvimento rural”, acrescentou. Pant considerou que na Índia, com em outros países, o crescimento econômico sofreu aceleração sem uma importante queda nos níveis de pobreza. Pelo menos, um em cada quatro dos 1,1 bilhão de habitantes vive com menos de um dólar por dia. “É possível crescer ao ritmo de 10% ao ano sem reduzir a pobreza. O contrário não é verdade: não seria possível reduzir a pobreza se a economia não cresce 10% anualmente”, segundo o economista.

A indústria e os serviços já crescem mais de 10% ao ano, enquanto o agronegócio está atrasado, com cerca de 2%. A participação deste setor na economia nacional caiu de 40% para 20% na última década. Ao mesmo tempo, a porcentagem da população que depende da agricultura para sobreviver diminuiu no mesmo período apenas de 70% para 60%. O próprio Singh advertiu que o setor está em crise, ao apresentar o rascunho do plano qüinqüenal, na semana passada. Nos últimos meses, o primeiro-ministro percorreu diferentes regiões, como a de Vidharb, onde milhares de camponeses se suicidaram, ao que parece por causa da falta de capacidade para saldar suas dívidas.

Pelo menos, cem mil agricultores endividados se mataram na Índia entre 1993 e 2003, informou ao parlamento o ministro da Agricultura, Sharad Pawar. Manmohan Singh considera que os camponeses devem conseguir melhores preços por sua produção, embora isso implique dificuldades “de pequeno alcance” para os que compram alimentos, entre os quais mencionou a classe média. “É necessário um enfoque equilibrado para fornecer segurança alimentar às camadas mais pobres da população melhorando os ganhos dos agricultores. Nossa estratégia deve se basear na melhoria da renda real e na qualidade de vida de nossos camponeses”, acrescentou o chefe de governo.

O rascunho do plano qüinqüenal estabelece 4% como meta para o crescimento econômico do setor agrícola. Também propõe duplicar a renda por habitante até 2017 e a criação de 70 milhões de empregos em cinco anos. Em 2009, segundo o governo, todos os habitantes da Índia deverão dispor de água potável em suas casas. Até 2012, a evasão escolar deverá cair de 52% para 20%, o analfabetismo de 85% para 66% e a mortalidade infantil de 28 para uma cada mil crianças nascidas vivas. O governo propõe ainda levar energia elétrica a todos os 600 mil povoados do país até 2009, bem como melhorar os serviços telefônicos, de acesso à internet e as estradas. (IPS/Envolverde)

Paranjoy Guha Thakurta

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