Chile: Aposta nos biocombustíveis

Santiago, 06/10/2006 – Em meio às turbulências causadas pela alta no preço do gás natural argentino, o Chile anunciou sua intenção de desenvolver a indústria do biocombustível, a fim de continuar diversificando sua matriz energética. A notícia foi divulgada na quinta-feira durante o Seminário Internacional sobre Agroenergia e Biocombustíveis, organizado pelo Escritório Regional para a América Latina e o Caribe, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que terminou no sábado. Os biocombustíveis, considerados limpos para o meio ambiente, são produzidos a partir de matérias-primas agrícolas ou florestais como cana-de-açúcar, beterraba, milho, plantas herbáceas energéticas, sementes oleaginosas (como a colza), dejetos agrícolas, resíduos florestais e esterco.“A questão energética é um assunto estratégico, fundamental para o desenvolvimento futuro do país. Aqui não cabem improvisações nem boas intenções”, disse a presidente do Chile, Michelle Bachelet, convidada para a abertura do encontro. “Nesta matéria, simplesmente, não podemos falhar. Somente o trabalho sério, o planejamento, os estudos e a manutenção de um adequado clima de investimento garantem o sucesso”, acrescentou. O desenvolvimento da agroenergia é uma prioridade para o governo, por isso espera-se que até 2010 possa haver “algum grau de presença seja do biodiesel ou do etanol no mercado”, principalmente com base no milho, na beterraba e na colza, disse à IPS o ministro chileno da Agricultura, Álvaro Rojas.

“Queremos que este seminário seja um marco, um ponto de partida para esta indústria”, acrescentou Rojas, se referindo aos contatos que o governo estabeleceu com as delegações de diversos países da região, como Brasil e Argentina, mais avançados na matéria. Para isso, o governo criou um comitê interministerial formado pelas pastas da Agricultura, Mineração e Energia e Bens Nacionais e a Comissão Nacional de Energia (CNE), que deverá liderar a formulação de uma política nacional de agroenergia e biocombustíveis que requer uma aliança pública e privada.

Rojas disse que o país tem potencial para desenvolver esta indústria, sobretudo no centro e sul do país, em terrenos de baixa produção destinadas principalmente ao auto-consumo. A seu ver, isto beneficiaria tanto os pequenos produtores quanto a sociedade em seu conjunto. O ministro ressaltou que “já há pequenas usinas de colza trabalhando para atender a demanda de óleo para a alimentação de salmão produzido em cultivo, as quais podem ser uma primeira fase de um desenvolvimento voltado para o biodiesel”. Para este ano, o governo comprometeu 200 milhões de pesos para realizar diversas ações concretas.

Entre elas destaca a criação da Unidade de Desenvolvimento de Biocombustíveis dentro do Escritório de Estudos e Políticas Agrárias, dependente do Ministério da Agricultura; a realização de seminários ao longo do país, e a organização de viagem ao estrangeiro com delegações público-privadas para conhecer a realidade de outras nações. Também serão convidados especialistas do exterior e convocadas as faculdades de agronomia das universidades nacionais para que apóiem o desenvolvimento desta atividade com suas pesquisas. Em sua intervenção, Bachelet lembrou que até agora o Chile tem sido, principalmente, um comprador de energia.

“Hoje, cerca de 72% de nossa matriz energética são importados, razão pela qual se vê diretamente afetada pela volatilidade internacional dos preços e pela escassez que prevalece nos mercados de origem de nossas importações de combustíveis”, afirmou. O representante regional da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, disse que o fato de “os novos combustíveis poderem ser ‘plantados’ nos campos, e não extraídos do solo, indica uma transformação estrutural ampla e profunda. Esta exige que governo, autoridades e pesquisadores renovem seu olhar, suas agendas e avaliações sobre o futuro do espaço rural”, afirmou Graziano, considerando que a agroenergia incentiva a agricultura, a silvicultura e a indústria florestal.

O ministro da Agricultura, pecuária e Abastecimento, Luis Carlos Guedes Pinto, disse aos jornalistas que esta atividade deve ser vista não apenas com “olhos financeiros”, mas também, do ponto de vista social e ambiental, já que seu desenvolvimento requer a entrega de estímulos específicos, como créditos aos pequenos camponeses, como fez o governo brasileiro. O Brasil, pioneiro na região, produz etanol a partir da cana-de-açúcar e fabrica biodiesel a partir de sementes de leguminosas, óleo de rícino e palma. A Argentina também está produzindo biodiesel, mas a partir da soja. Além disso, há progressos com a cana-de-açúcar na República Dominicana e em Cuba.

Durante o seminário, a FAO mostrou sua proposta para a criação da Plataforma Internacional de Bioenergia (Ibep) “Como forma de coordenar o esforço mundial para avançar no desenvolvimento desta nova fonte energética”. Esta agência da Organização das Nações Unidas afirma que, apesar de muitos países já realizarem atividades na área de bioenergia, é necessário reduzir a considerável diferença de conhecimentos, tecnologia, capacidade e habilidade que existe entre os países mais ricos e os mais pobres do mundo.

Sara Larraín, do não-governamental Programa Chile Sustentável, disse à IPS que, “a princípio, é positivo o fato o país abrir novas fontes energéticas, que possam sem obtidas independentemente, que gerem empregos e evitem a dependência de combustíveis estrangeiros, caros e sujos”. Entretanto, advertiu que os biocombustíveis também têm seus riscos, com a propagação dos monocultivos, que podem deslocar a agricultura para a alimentação; o uso de fertilizantes e pesticidas e a utilização de produtos transgênicos, como milho e soja. Para evitar tudo isso, a seu ver, é necessário um contexto regulatório claro. (IPS/Envolverde) Legenda: colza

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *