Berlim, 08/10/2006 – O gélido vínculo entre Alemanha e Polônia esfriou mais alguns graus com a inauguração da exposição Caminhos Forçados, no museu Kronprinzenpalais, em Berlim. A mostra, que estará aberta até outubro, ilustra com fotografias, textos e diversos objetos histórias de milhões de refugiados obrigados a fugir de seus países ao longo do século XX, incluindo os alemães expulsos da Europa oriental ao término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Indignados pelo fato de os alemães serem retratados como vítimas da guerra que eles mesmos provocaram, um grupo de poloneses protestou na noite da abertura da mostra, no último dia 10.
O primeiro-ministro polonês, Jaroslaw Kaczynsky, considerou que a exposição ignora a importância do sofrimento de milhões de pessoas que viveram sob o domínio do Terceiro Reich (império nazista alemão) e, portanto, constitui, um “acontecimento muito ruim, preocupante e triste”. Coroando as tensões diplomáticas, o prefeito de Varsóvia, Kazimierz Marcinskiewicz, cancelou uma visita à capital alemã enquanto exposição permanecer aberta. Os organizadores da mostra estão ligados à Federação dos Expulsos, organização que representa os 12 milhões de alemães obrigados a abandonar seus locais de residência quando a queda do Terceiro Reich, em 1945, determinou um fechamento das fronteiras européias.
No caso da Polônia, os alemães invadiram esse país em setembro de 1939. A queda do regime nazista fechou a fronteira polonesa para o ocidente. Muitos alemães tiveram que fugir para não morrer. Os organizadores esperavam que depois desta mostra seja instalada outra, de caráter permanente e com o mesmo motivo. Essa intenção, controversa na Alemanha, é intolerável para os poloneses, para os quais o povo alemão não deve esquecer sua responsabilidade nos horrores da Segunda Guerra Mundial. “Muitos poloneses acreditam que a Alemanha não está consciente de seus temores e preocupações”, disse a IPS Macin Zastrozny, do Instituto Polonês, organização com sede em Berlim e patrocinada pelo Estado alemão.
“Esta mostra complica o vínculo entre os dois países. Seria bom para nossas relações que o governo questionasse a exposição. Mas infelizmente ocorreu o contrário: representantes do governo participaram da inauguração”, acrescentou Zastrozny. A desconfiança mútua tradicional entre estes vizinhos foi avivada recentemente por uma recente avalanche de discussões diplomáticas. A escalada começou em meados de 2005. Políticos poloneses fustigaram o plano da Alemanha e da Rússia de instalar um gasoduto sob as águas do Mar Báltico, e viram nessa obra um exemplo de conspiração secreta de seus vizinhos maiores em seu prejuízo.
No início deste ano, a Polônia decidiu tomar medidas drásticas contra o que viu como um relato errôneo da Segunda Guerra Mundial. O motivo da campanha foi o termo “campos da morte poloneses”, cada vez mais usado para descrever centros de extermínio nazistas como o de Auschwitz, onde foram assassinados milhões de judeus e integrantes de outras minorias religiosas, étnicas e sexuais. Segundo intelectuais e políticos nazistas, estes campos de concentração foram, na realidade, construídos pelos nazistas alemães em território ocupado. Alguns dos incentivadores desta campanha alertaram, inclusive, que o termo “campos poloneses” era parte de uma conspiração alemã para reescrever a história e evitar a atribuição de culpas pelo Holocausto.
O governo polonês pediu à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que o “Campo de Concentração de Auschwitz” passasse a se chamar “Auschwitz-Birkenau, Ex-Campo de Concentração Nazista Alemão” em sua lista de locais do patrimônio mundial. Por outro lado, as embaixadas da Polônia sugeriram aos meios de comunicação de diversos países que deixassem de usar a expressão “campos da morte poloneses” e utilizassem o termo “campos de concentração nazistas alemães.” Há apenas dois meses, choques diplomáticos voltaram a inundar a imprensa, quando Varsóvia foi contra uma sátira publicada no jornal alemão Tageszeitung.
Tratava-se de uma matéria com brincadeiras envolvendo o presidente Lech Kaczynsky e seu irmão e primeiro-ministro, Jaroslaw, e que qualificava ambos de “batatas novas”. Um dado de destaque da nota era o fato de Jaroslaw ainda viver com sua mãe. Isto desatou o que na imprensa alemã se rotulou de “guerra das batatas”. O próprio presidente qualificou o artigo de “desagradável e ruim”. Varsóvia exigiu de Berlim uma desculpa oficial e ameaçou processar por difamação o autor da matéria. Mas não houve comentários oficiais por parte do governo alemão, à margem de reivindicações da liberdade de imprensa. Em particular, porta-vozes oficiosos qualificaram o problema diplomático de ridículo. Por outro lado, a reação polonesa à sátira prejudicou entre os alemães a imagem de seus vizinhos.
Analistas consideram que a reputação da Polônia está em queda livre desde outubro, quando Kaczynski venceu as eleições com uma plataforma baseada na segurança nacional e nos valores tradicionais. O ex-presidente do Partido Verde e atual presidente da Fundação Heinrich Böll, Ralf Fücks, disse que as principais objeções se referem à tendência conservadora e patriótica do governo polonês. “O tratamento negativo dado aos homossexuais, o aumento do euroceticismo e as atitudes culturalmente repressivas em relação a grupos como as feministas deterioraram a imagem da Polônia na Alemanha desde que Kaczynski assumiu o cargo”, explicou à IPS. “O governo polonês volta a usar velhos estereótipos dos alemães, talvez, com a intenção de melhorar sua posição política dentro de seu país”, acrescentou.
O orgulho nacional e a atenção pelo favor do público são chaves da tensa relação. Ainda está para se ver o quanto estão preparados os dois países no sentido de recompor as relações. Um clima melhor seria um avanço tanto para o vínculo bilateral quanto para a União Européia, à qual a Polônia se uniu em 2004 e da qual a Alemanha é o país mais povoado, com 82 milhões de habitantes. A economia também tem seu papel: a Alemanha é o mercado externo mais importante da Polônia, de quem compra quase um terço de suas exportações.
Mas ainda falta muito para uma solução, segundo observadores dos dois lados. E enquanto a exposição estiver aberta em Berlim, as velhas feridas continuarão sensíveis. Ao deixar em evidência a persistente desconfiança em relação à Segunda Guerra Mundial, a mostra deixou abertos problemas que devem ser resolvidos para melhorar as relações entre os dois países. “Não existe solução fácil”, admitiu o jornal alemão Süddesutsch Zeitung em seu editorial. “Primeiro, os políticos alemães devem esclarecer pacientemente que não procuram reescrever a história. E, segundo, que os alemães expulsos não podem ser deixados fora do processo”, afirmou o jornal. (IPS/Envolverde) Legenda: Uma mulher caminha com seus filhos pelo campo de Auschwitz, em maio de 1944.

