Ambiente: A Flórida debaixo d’água

Tampa, EUA, 08/10/2006 – A elevação do nível do mar prevista por pesquisadores norte-americanos reavivou os temores de cientistas e urbanistas sobre o futuro da costa do Estado da Flórida. Um documento intitulado “A probabilidade da elevação do nível do mar”, preparado por cientistas da Agência para a Proteção Ambiental (EPA), prevê que na costa do sudoeste da Flórida o mar poderá aumentar entre 7,1 e 26,9 centímetros até 2025. As conseqüências desse fenômeno vão desde o aumento das tempestades com furacão até a entrada de água salgada nos depósitos de água potável e, a longo prazo, o desaparecimento de pântanos e áreas costeiras.

O informe é de 1995, mas os dados utilizados para criar os modelos continuam valendo, disse à IPS Daniel L. Trescott, urbanista principal do Conselho Regional de Urbanismo para o Sudoeste da Flórida. O estudo foi alvo de debate no começo do mês quando a aliança Funcionários pela Responsabilidade Ambiental (Peer), que reúne empregados estatais e federais, publicou pela primeira vez seus resultados. “Queremos que as pessoas comecem a falar sobre como o governo da Flórida cuidará do assunto”, disse Trescott, cuja principal preocupação é como reduzir as possíveis conseqüências.

“Não há dúvida de que uns poucos funcionários, como o governador e alguns secretários, têm a possibilidade de manejar o crescimento demográfico do Estado. Mas as pessoas ainda querem construir suas casas perto da água”, acrescentou Trescott. O auge das construções particulares e de empresas ao longo da pitoresca costa da Flórida teve outras conseqüências negativas para o meio ambiente no passado, lembrou o especialista. Trescott disse não acreditar que os governos federal ou estatal estejam incorporando os dados da elevação do nível do mar em seu planejamento de longo prazo.

Em junho, Trescott apresentou em um simpósio científico local um documento sobre a base de pesquisas da EPA e dados coletados no século XX pelos indicadores de maré de Cayo Hueso (uma das ilhas de Los Cayos da Flórida) e de outros lugares. O informe dizia que se o modelo da EPA for preciso, no final deste século o nível do mar subirá 0,62 metros acima do atual, e no final do século XXII 0,91 metros. “As marés são cada vez mais altas”, alertou Jerry Phillips, diretor da divisão para a Flórida do Peer. “Se não fizermos algo logo, algumas zonas da Flórida acabarão como a Atlântida”, disse, referindo-se ao mítico continente perdido submerso no oceano Atlântico.

Entretanto, nem todos cientistas concordam com as previsões de Trescott. “Esses números são, de alguma forma, especulações considerando o atual nível do mar”, afirmou Bob Weisberg, professor de física oceanográfica da Universidade da Flórida do Sul. “Mas se o ritmo de processos como o aquecimento global e o degelo das calotas glaciais começar a se acelerar, esses números seriam factíveis. Entretanto, eles não existem na atual base de dados” sobre o nível do mar, acrescentou. Estimativas do Centro de Ecologia Costeira do Laboratório Marinho Mote dizem que o nível do mar na Flórida sobe dois milímetros por ano, mas alguns cientistas e ambientalistas prevêem que o ritmo vai se acelerar por causa do aquecimento da Terra.

Administradores do Corpo de Engenheiros dos Estados Unidos e do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida foram convidados para o simpósio, onde também foram apresentados os resultados do Mote. O porta-voz do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, Anthony De Luise, disse à IPS: “Nosso pessoal revisa o informe da EPA, mas não estou certo de quando teremos as conclusões. Estamos conscientes do auge da construção e das conseqüências do desenvolvimento”. O problema da elevação do nível do mar é muito complexo e envolve várias disciplinas, incluindo química, geologia e física, explicou Weisberg. “As pessoas devem entender que as ciências físicas mudam continuamente e que o nível do mar baixará ou subirá mesmo sem aquecimento global”.

Os níveis do mar em diferentes pontos do mundo variam, e algumas vezes não são números significativos para os cientistas. Por exemplo, o da Nova Escócia e da Flórida pode variar até 8,41 metros. Essas variações se relacionam com vários fatores. Os dois autores do informe da EPA, James G. Titus e Vijay Narayanan, mencionam alguns, com a concentração de gases causadores do efeito estufa, aumento da temperatura vinculado à mudança climática, expansão termal, mudanças nas precipitações no Ártico, na Antártida e na camada de gelo da Groenlândia.

“A probabilidade da elevação do nível do mar” inclui um gráfico intitulado “Contribuição história do efeito estufa no nível do mar, 1880-1990”, que mostra o enorme aumento dos gases que causam o efeito estufa, como o dióxido de carbono, desde a revolução industrial”. O informe também mostra como a temperatura média na superfície da Terra aumentou aproximadamente 0,6 graus no século XX e indica que os nove anos mais quentes ocorreram depois de 1980.

“A estabilização das emissões de gases até 2025 pode chegar a reduzir pela metade o ritmo de elevação do nível do mar”, afirmam os autores do documento. “Mas se no próximo século as emissões globais aumentarem é provável que o nível do mar suba 6,2 milímetros por ano até 2010”. O informe foi redigido durante o governo de Bill Clinton (1993-2001). Desde então, seu sucessor e atual presidente, George W. Bush, abandonou o Protocolo de Kyoto, um tratado internacional que obriga os países industrializados a reduzir, entre 2008 e 2012, as emissões de gases que provocam o efeito estufa, 5,2% abaixo do limite de 1990.

Outro estudo publicado no começo deste mês na revista Science revela que a camada de gelo da Groenlândia, o segundo depósito mundial de água doce, está derretendo três vezes mais rapidamente do que nos cinco anos anteriores. O impacto da elevação do nível do mar já é sentido nas ilhas do Pacífico sul, como Tonga e Tuvalu, onde, somente nos últimos 12 anos o mar aumentou 10 centímetros, segundo o Projeto de Controle Climático e do Nível do Mar na região. Em Fiji, um conjunto de ilhas do Pacífico que tem cerca de 18 mil quilômetros quadrados, o nível do mar já subiu oito centímetros, e prevê-se que aumente, pelo menos, mais 30 centímetros até 2050. (IPS/Envolverde)

Mark Weisenmiller

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