Nova York, 23/10/2006 – Apesar de deplorado por toda a comunidade internacional, o último teste nuclear da Coréia do Norte também renovou os chamados às grandes potências para que desmantelem suas próprias armas de destruição em massa. Em meio aos temores de uma nova corrida armamentista em resposta à aventura nuclear de Pyongyang, diplomatas e analistas independentes consideram que é tempo de as nações com poderio atômico cumprirem suas obrigações com o desarmamento. “A falta de implementação por parte dos Estados nucleares de seu compromisso para o desarmamento afeta sua autoridade moral”, afirmou na semana passada, perante diplomatas, Hans Blix, ex-chefe de inspetores de armas nucleares da Organização das Nações Unidas.
Blix disse que vários países não-nucleares se sentem muito “frustrados e, em alguns casos, até burlados” porque não é feita nenhuma ação para o desarmamento das potências. Os cinco países com armas atômicas declaradas são China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e com poder de veto. Estas nações estão obrigadas a realizar iniciativas de desarmamento pelo Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), mas, até agora, não deram nenhum sinal de estarem interessadas em fazê-lo.
Em 2000, os delegados à Conferência para a Revisão do TNP exortaram os Estados Unidos e outras potências nucleares a adotarem medidas práticas para eliminar seus arsenais. Os governos se comprometeram a fazê-lo, mas nunca transformaram em fatos suas palavras. Entre as medidas exigidas está a implementação do Tratado para a Proibição Completa de Testes Nucleares (TPCEN) e iniciar negociações para um tratado internacional e verificável que proíba a produção de matéria físsil para a fabricação de armas.
Na semana passada, membros do Comitê de Desarmamento da Assembléia Geral das Nações Unidas condenaram o atesto da Coréia do Norte e disseram que este revelou a “urgente necessidade” de as potências também se integrarem ao TPCEN. Os delegados disseram que, apesar de ter uma postura firme contra a proliferação nuclear, Washington não mostra disposição em apoiar esse acordo. Os Estados Unidos impuseram uma moratória unilateral sobre os testes, mas resiste em negociar uma proibição da produção de material físsil. Por isso, analistas e diplomatas consideram que o comportamento de Washington é em parte responsável pelo teste nuclear de Pyongyang.
“Os norte-coreanos têm razão quando dizem que enfrentam ameaças nucleares”, disse à IPS o diretor do Comitê de Advogados sobre Políticas Nucleares, John Burroughs. O analista criticou a decisão da Coréia do Norte de realizar o teste, mas acrescentou que “ninguém deveria estar surpreso” pelo fato de se tratar de uma reação à revisão feita pelo governo de George W. Bush em 2001 da política nuclear dos Estados Unidos. Bush justifica o uso de armas nucleares no que considera “guerras preventivas”. Os Estados Unidos manteve instaladas armas nucleares na Coréia do Sul por 43 anos, antes de retirá-las em 1991, segundo a independente Federação de Cientistas Norte-americanos com sede em Washington.
Por outro lado, o Irã continua defendendo seu plano de desenvolvimento nuclear em fortes termos, assegurando que tem apenas finalidades pacíficas e assinalando que os Estados Unidos e os outros quatro membros do Conselho de Segurança não cumpriram suas obrigações de desarmamento, o que qualificou de “hipocrisia e duplo discurso”. Blix parece ter entendido o mal-estar norte-coreano e iraniano contra as potências. “Se os compromissos (sob o TNP) fossem cumpridos, as negociações com a Coréia do Norte e o Irã seriam menos difíceis”, afirmou. Preocupado com a situação na península coreana, o Movimento de Países Não-Alinhados (Noal), o maior bloco do sul em desenvolvimento, exigiu uma mudança de atitude por parte das cinco potências nucleares que estão no Conselho de Segurança.
Em um comunicado, o Noal afirma que os esforços para a não-proliferaçao devem ser “paralelos aos esforços simultâneos destinados ao desarmamento”. O movimento afirma que as armas nucleares são uma “ameaça à humanidade” e diz estar profundamente preocupado pela lentidão dos esforços pelo desarmamento atômico internacional. O Noal afirma na nota que é tempo de os países nucleares começarem a dar passos para a “total eliminação” das armas, e ressaltou que Estados Unidos e Rússia deveriam ser os primeiros. (IPS/Envolverde)

