Estados Unidos: Irã, a bola da vez

Washington, 08/10/2006 – O Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes dos Estados Unidos apresentou um informe sugerindo que o Irã poderia adquirir armas de destruição em massa, no que alguns críticos vêem como uma exata repetição do que ocorreu antes da invasão do Iraque em 2003. O trabalho, preparado por ex-colaboradores do atual embaixador norte-americano na Organização das Nações Unidas, John Bolton, afirma que a Agência Central de Inteligência (CIA) carece de “capacidade para obter informação necessária e fazer julgamentos” sobre o programa nuclear do Irã, e que as armas que esse país fabrica poderiam ser mais destrutivas do que se pensa.

Além disso, o relatório de 29 páginas, intitulado “Reconhecendo a ameaça estratégica do Irã”, alerta que a comunidade de inteligência, na realidade, ignora os vínculos entre Teerã e a rede terrorista al Qaeda, bem como a responsabilidade desta organização no conflito das últimas semanas entre Israel e o movimento islâmico libanês Hezbollah (Partido de Deus). O trabalho foi divulgado antes da resposta do governo iraniano ao Conselho de Segurança da ONU, que exigiu a imediata suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio como passo prévio para reiniciar as negociações com o grupo de três países da União Européia formado por Alemanha, França e Grã-Bretanha, conhecido como UE-3.

O momento da apresentação do informe parece ter sido escolhido deliberadamente para aproveitar o máximo da atenção da imprensa. Em geral, documentos como estes são revisados por todo o Comitê antes de sua divulgação. Os críticos do informe, elaborado sob supervisão do presidente do Comitê, Peter Hoekstra, do governante Partido Republicano, parece ter o objetivo principal de questionar a CIA e outras agências de inteligência, que consideram improvável que Teerã possa desenvolver armas atômicas antes de 2010. Neoconservadores norte-americanos, defensores dos interesses de Israel, afirmam que a CIA peca por otimismo e criticam as negociações entre o UE-3 e o governo do Irã.

“A comunidade de inteligência está dedicada a prever um mundo o menos perigoso possível”, queixou-se o ex-congressita e pensador neoconservador Newt Gingrich, que no mês passado afirmou que os Estados Unidos já estavam em uma “terceira guerra mundial” contra uma “irreconciliável ala do Islã, tendo o Irã em seu epicentro”. Suas críticas foram muito parecidas às feitas antes da guerra do Iraque, quando ele e outros “falcões” (a ala republicana mais belicista) questionaram a CIA e o Departamento de Estado por minimizarem inicialmente as versões de que o Iraque possuía armas de destruição em massa e tinha vínculos com a Al Qaeda.

Ambas acusações contra o regime do agora deposto presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003), que depois se mostraram infundadas, foram os dois argumentos fundamentais para lançar a invasão contra esse país do Oriente Médio. O informe “é uma lembrança arrepiante do que ocorreu quando analistas de inteligência disseram ao vice-presidente, Dick Cheney, que não podiam provar que o Iraque fabricava arma nuclear ou tinha ligações com a Al Qaeda”, disse o jornal The New York Times em seu editorial de sexta-feira.

O antagonismo entre os falcões e a comunidade de inteligência data de meados dos anos 70, quando os primeiros acusaram a CIA de ser muito otimista em relação às intenções da agora desaparecida União Soviética. Na época, persuadiram o presidente Gerald Ford (1974-1977) a formar um grupo de especialistas para revisar a informação da CIA e tiraram suas próprias conclusões. Isto derivou em suspeitas exageradas sobre os planos de Moscou, que levaram a políticas agressivas por parte do então secretário de Estado, Henry Kissinger.

O novo estudo “é, na realidade, um trabalho que reflete o que pelo menos algum congressista acredita que a comunidade de inteligência deveria afirmar sobre o Irã”, disse Gary Sick, especialista em questões iranianas da Universidade de Columbia e ex-funcionário do governo de Jimmy Carter (1977-1981). O fato de Frederick Fleitz, ex-funcionário da CIA, ser um dos principais autores do informe sugere que o trabalho é parte de uma campanha mais ampla que inclui os principais falcões que incentivaram a invasão do Iraque. Fleitz foi assistente especial de Bolton durante a primeira administração de George W. Bush.

Bolton, na época subsecretário de Estado para Segurança Internacional e Controle de Armas, trabalhou estreitamente ligado com os neoconservadores do escritório de Cheney e no Pentágono no sentido de minar o então secretário de Estado, Colin Powell, que procurava negociar com Irã, Coréia do Norte e Síria sobre diversos assuntos. O próprio Bolton foi acusado de pressionar contra os analistas do Departamento de Estado para que exagerassem suas estimativas sobre a capacidade nuclear desses países, e, inclusive, de Cuba.

O informe do Comitê “deve ser lido como uma politização da inteligência” destinada a “enviar uma mensagem” de que qualquer previsão sobre o Irã que tenha uma visão menos alarmante será considerada suspeita”, afirmou o analista John Prados, especialista em segurança nacional. ‘Parece que a manipulação da informação de inteligência, como fez o governo Bush para lançar sua guerra contra o Iraque, se repete agora com Irã”, escreveu Prados em seu site na Internet tompaine.com. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *